|
Volume 3 Número 1 – 15.11.2009 Editores Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman | Sérgio Capparelli | Sérgio Capparelli Ungaretti é um dos poetas italianos mais conhecidos e muitos de seus poemas são lidos admirados pelas crianças. Mas quando alguém se interessa pelo que ele escreve, descobre o que os críticos dizem de seus versos: herméticos. E hermetismo vem de hermético, que significa fechado. Existe inclusive a expressão: ele é uma pessoa difícil, muito hermética. Daí a surpresa: se Ungaretti é um poeta hermético, como poderia ser apreciado por crianças, como no seguinte poema intitulado “Notte di maggio” ou “Noites de maio”?
Apesar da luminosa guirlanda de luz, muitos de seus outros poemas são obscuros e, claro, uns poucos são lidos, entendidos e admirados pelo pequeno leitor. A bem da verdade, hermetismo significa na literatura mais do que completamente fechado. Na poesia, refere-se também a um movimento literário em que os poemas mostram o mundo com o que de mistério, em diversas camadas de significados. Parte dessa poesia, dizem os teóricos, tratam de eventos cotidianos e a segunda é evocativa. E mais ainda: pode tratar de eventos cotidianos e serem ao mesmo tempo evocativas, de um tempo ou de um lugar, muitas vezes situados na infância. Para evocar esse tempo passado, o poeta escreve pequenos poemas, em que as imagens são fortes e criam o ar de mistério. Normalmente, não se deve explicar um poema a partir da vida particular de um poeta. No entanto, saber sobre o poeta enriquece de alguma forma os seus versos, na fruição literária por parte de quem o lê. E quem procura algo sobre Giuseppe Ungaretti descobre que ele nasce em Alexandria, no Egito, em 8 de fevereiro de 1888. Em um país árabe, portanto, com suas mesquitas e seus minaretes, em um tempo em que a cidade encantava muitos escritores e intelectuais que escolheram esse lugar para viver. Nesse tempo, na Itália, poema para ser considerado poema, tinha de ser rimado. Se um verso começava em ão, por exemplo, o próximo devia terminar em ão. Que emoção! Os poemas eram grandes. Enormes. Pra descrever amor e dor, só poemas infinitos. Um dia apareceu Ungaretti. Ele desprezou leis, normas e conselhos. Disse que os versos tinham de ser livres, como pássaros rimando com absoluto. - Enfim, um poeta, disseram. Um poeta que rima coração com augúrio. Ou que não está nem aí pra rima. Um dia ele apareceu com um poema que dizia: Mattina m’illumino d’imenso Dessa vez muitos dos que lhe tinham dado apoio recuraram. Um falou: isso não é poesia. Falta rima. Três palavras. Ah, assim não dá. Outro disse que parecia haikai. E perguntou: - Isso é um haikai? Ou um suspiro? Ungaretti nasceu em Alexandria porque seu pai tinha sido contratado para trabalhar na abertura do Canal de Suez. Desde pequeno, Ungaretti vive nesse ambiente de fim de século naquela que foi uma das cidades mais importantes da antiguidade, mais conhecida por sua famosa biblioteca. Seu pai morre dois anos depois de seu nascimento e sua mãe trabalha para sustentá-lo, matriculando-o em bons colégios. No fim do curso secundário Ungaretti vai morar em Paris, onde convive com escritores importantes. Começa então a I Guerra Mundial. Ungaretti tem 26 anos e alista-se como voluntário. Durante a guerra escreve algumas de seus poemas mais famosos. É o momento que que se entristece com a realidade conflagração mundial e ao mesmo tempo descobre o sofrimento e a dor humana de seu tempo. Em 1916 publica Il porto sepolto, e em 1919, Allegria di naufragi. Seus poemas são breves, como socos na vida, e a poesia é para ele antes de tudo uma necessidade. Ele diz na apresentação de suas poesias completas que a poesia é importante na vida do homem porque só através dela ele expressa o inexprimível, aquilo que está no fundo de si mesmo. Nessa busca, ainda segundo ele, cada palavra é um abismo em que o poeta penetra para trazer à luz seus segredos mais profundos. Tanto essa poesia evocativa quando essa lírica composta de imagens fortes, feitas de abismos, foram olhadas com suspeição pelos literatos da sua época. Passava por ali um especialista francês. Perguntaram pra ele: é poesia? Ele pensou, pensou e disse: se é ou não, difícil dizer. Estou preocupado é como traduzir essa “coisa”. E tentou: Manhã me ilumino de infinito E disse, conformado: se examinarem bem, falta pontuação. Os especialistas rodearam o poema. Com um ramo seco de árvore, reviraram cada palavra. Quando puseram a manhã de bruços, perceberam que do outro lado luzia a noite. E essa noite era imensa. Puseram os versos de ponta-cabeça, acendeu-se a manhã no porto. Como não entendiam o poema, o especialista francês e os italianos tentaram, como crianças, atormentar os versos, como crianças pequenas atormentam formigas que passam carregadas a caminho do formigueiro. Com a ponta de uma varinha, começaram a derrubar as folhinhas do poema. As formigas que as carregavam não compreendiam o que está acontecendo. Voltavam, recolhiam o verso e punha novamente na estrofe, que nem estrofe era. Não contentes, dispuseram pedras pelo caminho, para prejudicar a fruição poética. E prosseguiram, fazendo a manhã tropeçar na imensidão. E foram anotando em pedaços de papel: 1) Falta ponto; 2. Faltam também adjetivos; 3) O poema parece todo que brado, não é certinho como os que conhecemos; 4) A rima, onde está a rima? 5) Esse poeta reduz a sintaxe ao mínimo; 6) E olhe bem as palavras: estão reduzidas à essência do que querem dizer. Ungaretti fica um tempo na França, depois da guerra, mas volta à Itália em 1921. A publicação do “Sentimento do tempo” em 1933 marca uma segunda fase no seu estilo. Os poemas tornam-se mais encorpados, mais reflexivos. Em 1936, Ungaretti deixa a Europa para viver na América Latina, ele, que tinha nascido na África e vivido na Europa. Na volta de Buenos Aires e, na volta, onde fizera uma conferência, passa por São Paulo, onde recebe um convite para reger a cadeira de Língua Literatura Italiana na Universidade de São Paulo, onde fica, de 1937 a 1942, trazendo da itália a sua família. Ao todo, ele fica no país durante seis anos. Faz amizades com diversos autores brasileiros, entre eles Vinicius de Morais, Antônio Cândido, Osvald de Andrade, Guimarães Rosa, Murilo Mendes, Paulo Emílio, Mario Schenberg e Alfredo Bosi, Disse dele Antônio Cândido: Ele nos trouxe muito da cultura européia, ele que é italiano do Egito de formação francesa, através da maneira densa e dramática com que não apenas cria e interpreta, mas transmite. E a experiência da sua poesia calorosa e descarnada foi um impacto tornado mais forte pela sua presença. Daí termos procurado vivê-la com intensidade. Daí mais de um entre nós ter copiado integralmente os textos de Allegria e Sentimento del tempo, para sentir nessa espécie de rito simpático, os pontos de ossificação da sua poesia misteriosa e humana. E quando a máquina de escrever lançava no espaço branco os versos parcimoniosos e sibilinos, era como se o trabalho do nosso grande amigo ficasse mais inteligível, com as palavras renascendo sob os dedos atentos que, na sua inexperiência, procuravam decifrá-la (Cândido, 1994). Mais tarde, em 1995, Lúcia Wataghin entrevista Antônio Cândido e lhe pergtunta se Ungaretti divulgou a poesia brasileira na Itália, através de traduções. Ele responde: Sem dúvida. Não só traduziu Mário de Andrade e Osvald de Andrade, de quem tinha se tornado amigo, mas também algumas lendas indígenas, e também alguns poetas do passado, como Gonçalves Dias e Gonzaga. Eu me lembro que nos anos 1950 ele organizou na Itália um programa radiofônico sobre o Brasil, com poesias e canções. Naquela ocasião lhe enviei material microfilmado e se não me engano, Vinícius de Moraes, a quem era muito ligado, participou do programa. (Wataghin, 1995)
Giuseppe Ungaretti
O Brasil representou o momento de uma grande dor vivida pelo poeta, pois em 1939 morre seu filho, Antonietto, de um apendicite mal curado. A perda marca muitos de seus poemas, especialmente aqueles publicados que na coletânea Il Dolore, de 1947, e mais tarde, Un Grido e Paesaggi, de 1952. Quando esses livros são publicados, Ungaretti já estava de novo na Itália. Esse período é normalmente apontado como o início da terceira fase da produção poética de Ungaretti. Alguns críticos observam que o autor, ao publicar Paesaggi, estava com 64 anos e a idade transparece no que escreve, com poemas ainda mais meditativos e menos inovadores. Torna-se professor na universidade de Roma e morre em Milão em 1970. Bibliografia CÂNDIDO, A. Ungaretti em São Paulo. Revista Estud. av. vol.8 no.22 São Paulo Sept./Dec. 1994, reproduzida em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141994000300025&script=sci_arttext, acesso em 15 de outubro de 2009. WATAGHIN, L. Ungaretti in Brasile: un’intervista con Antônio Cândido. No documento eletrônico disponível em :http://www.sagarana.net/rivista/numero9/saggio1.html, e publicado originalmente em Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, número de junho de 1995, acessado em 17 de outubro de 2009. Ana Klauck Magrilim e Jezebel em: O rei do abecê, de Fábio Sombra, foi lançado em 2009, pela editora Lê e dá seguimento à saga de Magrilim, um rei-herói cujas aventuras são narradas em versos da mais alta qualidade. (A história desse magrelo começou em 2008, com Peleja do violeiro Magrilim com a formosa princesa Jezebel, também pela Lê). O livro de Sombra (até o nome do autor é poesia!) não é cordel, porque não foi encadernado nem impresso como cordel. Particularmente, eu não adquiri o exemplar como cordel, tampouco ele estava exposto como cordel na livraria. Não é cordel, ou é? Já nem sei. Tem espírito de cordel, isso tem. Tem cordel na capa, nos versos, nos personagens. Tem cordel até no título e no nome divertido do autor. Tem cordel na história, cheia de desafios e aventuras, e na ilustração que, embora não seja xilogravura, traz o nordeste nas cores e nos traços. Nessa mais recente peripécia, os dois heróis, o Rei Magrilim e a Princesa Jezebel, recém casados e retornados da lua-de-mel, são desafiados por um tirano muito insolente que se intitula Rei do Abecê e o melhor rimador das redondezas. O casal de heróis se revolta com tamanha arrogância do rei e, principalmente, se incomoda com as atitudes do monarca, que transforma em seu escravo todo aquele que perde em sua batalha de rimas. Jezebel e Magrilim não se conformam com as injustiças desse déspota e, justiceiros que são, decidem aceitar a peleja de rimas para poder ajudar o povo aprisionado. Toda narrada em versos de cordel, a história fica mais interessante no momento que começa a briga entre os desafiantes. A batalha de rima entre os reais viaja pelo alfabeto e propõe que cada letra seja contemplada com uma palavra, seja fruta ou bicho, e um verso. A riqueza na rima de Sombra impressiona e sua métrica poética é perfeita. A poesia do autor faz composições interessantes e inusitadas, além de conduzir a história de maneira rica e cheia de música. A leitura é suave e dinâmica. A gente quer ler pra continuar versando e quer ler pra saber da história: Foi no reino da Alfredônia Que a peleja se travou; Bem na praça do mercado O povão se aglomerou Pra saudar o casalzinho Quando este lá chegou (...) As apostas em dinheiro Começaram, logo cedo; Mas, quem sabe por receio Ou talvez por certo medo, Quase todos preferiram Apostar no rei Alfredo (SOMBRA, 2009, s/p.) Além de versos cuidadosos e bem construídos e uma rima divertida, sonora e esteticamente atraente, a construção de imagens da história de Magrilim é bela e repleta de recursos que remetem à realidade nordestina (especialmente nas falas dos personagens, que vez ou outra professam maravilhas da expressão popular). Apesar do conto se passar em um reino distante, as construções de Sombra repercutem elementos da cultura agreste, nas cores dos versos e das ilustrações, fazendo mais forte a cada linha a natureza cordelesca de sua poesia. As referências ao repente, esse poesia cantada e improvisada, cujas raízes muito se enroscam nas do cordel, também aparecem na aventura de Magrilim, já que o próprio se intitula violeiro, assim como seu desafiante. A grande peleja que enfrenta Magrilim com o Rei do Abecê nada mais é do que um grande desafio de repente, a partir de um mote específico a ser desenvolvido em versos pelos participantes. A retomada do repente pela poesia de cordel de Sombra ocorre nas referências à música e nos versos que os personagens improvisam, em sua peleja de palavras. (Mas, se repente é arte cantada e improvisada, como transcrevê-lo em um livro?). Sombra dá voz aos personagens e deixa que os próprios violeiros realizem seus arranjos (e tem até trecho em inglês!). Essas duas artes, do cordel e do repente, se misturam na obra de uma forma atraente e simpática; lendo, em alguns momentos, me vi cantarolando aqueles versos, sensível que fiquei a sua música e ritmo. Nesse trecho, os dois desafiantes recebem os temas para o torneio: E assim os dois violeiros Receberam por sorteio Os temas que cantariam Na disputa do torneio Rei Alfredo tirou FRUTAS E sorriu seu riso feio Depois veio Magrilim E um papel tirou, dobrado. Nele, lia-se ANIMAIS O seu tema sorteado. O torneio agora estava Para ser iniciado. Rei Alfredo então pediu: - Quero ser logo o primeiro! Falou grosso e fez careta Pra assustar o forasteiro Magrilim sorriu-lhe e disse - Siga em frente companheiro! (SOMBRA, 2009, s/p.) A competição de versos que os dois violeiros travam é divertidíssima, pois repleta de palavras e referências engraçadas. Na intenção de cantar todas as letras do alfabeto, os competidores são obrigados a improvisar e arranjar termos diferentes e inusitados, o que torna o sério torneio (a liberdade de um povo está em jogo!) uma disputa irreverente. E, nessa batalha de palavras, Alfredo, aquele rei tirano que desafiou Magrilim, demonstra que não estava tão preparado assim para disputar com nosso herói e sai em desvantagem na competição. Magrilim dá um show de versos e palavras na temática animais e recorre a bichos curiosos para satisfazer sua criatividade. Mas, mais do que apenas por astúcia, Magrilim vence com o amparo de sua esposa, Jezebel, que faz alguns versos para ajudar o marido. Jezebel se diverte com as recém agregadas ao nosso alfabeto w, y e k, e dá uns pulos em língua estrangeira pra poder temperar a competição, a qual ela e o marido vencem: Então o povo delirou Aplaudindo, entusiasmado, E, aos gritos decretou: O torneio está encerrado O casal de vencedores Foi nos ombros carregado. (SOMBRA, 2009, s/p.) A brincadeira com as palavras e com as letras do alfabeto constrói com inteligência a poesia dessa obra, que tece seus versos com uma mão, enquanto tricota uma história com a outra. As imagens que o texto arquiteta remetem ao maravilhoso, usando elementos dos contos de fadas (reis, rainhas, castelos...) para edificar uma poesia narrativa rica em significação e sonoridade. A combinação entre som e sentido, nesse caso, não dá à luz somente um conjunto rico de imagens, mas uma história, que acaba se confundindo com a própria poesia, já que tem uma batalha poética como um de seus motes. Como bom cordel que é, a obra de Sombra traz uma mistura de monarcas, um povo sofrido que precisa ser libertado e, é claro, heróis bondosos e competentes, dispostos a combater injustiças. A aventura tem tudo o que a gente precisa: tem herói e tem heroína também, tem um grande desafio (de palavras!), do qual depende um povo inteiro, e tudo isso acontecendo em um reino bem distante, mas que muito se parece com umas terras daqui mesmo. A história de Magrilim e Jezebel é uma maravilha pra quem gosta de um bom conto e um deleite pra quem viaja na poesia. O texto é bem escrito e bem ilustrado e a edição da Lê se completa com uns comentários divertidos que aparecem no final da obra. Os versos de Sombra são pura brincadeira, brincam com a língua e com a história, desafiam os personagens e, principalmente, o leitor. (E não é assim que a poesia tem que ser mesmo?). SOMBRA, Fábio. Magrilim e Jêzebel em: O Rei do Abecê. Belo Horizonte: Lê, 2009. Gabriela Luft* Em Anacleto, obra publicada pela editora Larousse do Brasil, Bartolomeu Campos de Queirós, expoente da produção literária infantojuvenil, brinca com a musicalidade das palavras. Suas obras, caracterizadas pela prosa poética, lhe renderam significativos prêmios (Selo de Ouro da FNLIJ, Bienal de São Paulo, APCA, Academia Brasileira de Letras, Nestlé, Jabuti e Diploma de Honra do IBBY). Em Anacleto, o leitor depara-se com a história de um garoto esperto, dono do gato Alberto e do pato Norberto. "Anacleto Neto tem um gato e tem um pato. O gato é gaiato e o pato pateta.” (p. 04) Contudo, o gato Alberto e o pato Norberto não estão sozinhos na história: eles convivem com Donato, o rato. mora um rato novato. E corre um boato que ele só é amigo do pato.” (p. 10) O rato Donato, como já era de esperar, tinha pavor do gato. Por outro lado, gostava era do pato. O texto de Bartolomeu prima pela pesquisa da sonoridade das palavras, pela ênfase no ritmo poético das frases, pelo trabalho insistente com jogos de palavras, pelo desenvolvimento da sensibilidade linguística, privilegiando a função poética da linguagem em oposição à função referencial, valorizando o conhecimento intuitivo da criança. “Alberto é gaiato, gago e gagá. Norberto é pacato, pateta e palerma. E Donato é um rato ingrato, tem medo das garras do gato e prefere as penas do pato.” (p. 17) As aventuras vividas pelas personagens são contadas em meio a trava-línguas, muita poesia, musicalidade e rimas, que enriquecem as belíssimas ilustrações damineira Júlia Bianchi, formada em Belas Artes, cujos desenhos são ricos em cores e detalhes. Durante as peripécias vividas por Alberto, Norberto e Donato, o autor cria com as letras e, de modo divertido e envolvente, aborda as relações entre personalidades diferentes. “Mas, de fato, era uma vez um gato da Galícia, outra vez um pato da Patagônia, e, mais uma vez, um rato da Ratazânia…” (p. 30) Cada um dos animais, com seu próprio instrumento musical: o gato com sua gaita, o pato com seu pandeiro de lata e o rato com seu reco-reco sem eco. Contudo, o rato, por não gostar do gato, não toca na banda. Ao som de seu reco-reco, quem dança é a barata. Nesse sentido, a riqueza da poesia de Bartolomeu desperta a curiosidade do leitor com relação às origense aos significados das palavras. Pelo trabalho poético e lúdico com a palavra, o livro é voltado a crianças mais novas, que estão descobrindo o prazer da linguagem e da expressão. Rompendo com os esquemas tradicionais e sua linguagem lógica, a poesia torna-se irreverente; em lugar de manipular conceitos, explora as virtualidades da matéria verbal, a sonoridade e o ritmo das palavras soltas. Mais do que a significação dos vocábulos, importa seu dinamismo lúdico e a brincadeira com as coisas. De fato, a imaginação e a criatividade permeiam as obras de Bartolomeu Campos de Queirós. Em Anacleto, o escritor assume a perspectiva da criança, ao olhar o mundo e o revelar a partir de situações inerentes ao universo mirim. Por isso, sua poesia atua no limite do imaginário infantil. Da fruição e compreensão do poema, a criança é incentivada a criar novos jogos poéticos. Cheia de bom humor, a obra tem um ritmo perfeito para a experimentação da leveza e da musicalidade que um texto pode oferecer. QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Anacleto. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. * Mestranda em Letras, na área de Estudos Literários, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); bolsista do CNPq; e-mail: gabiluft@gmail.com Sérgio Capparelli As editoras buscam um nome para suas coleções de livros. Ora acertam, ora erram, nessa busca. Há coleções sem poesia. “Ensaios”, por exemplo. A não ser que o título da série diga algo mais, como “ensaios literários”, refinando o foco. E se a opção for “Conversas com o professor?” O livro “O professor e a literatura”, de Lígia Cademartori, joga luz sobre o título da série da Editora Autêntica. Basta ler a primeira página para se dar conta de que se trata realmente de uma conversa. E conversa vai, conversa vem, o professor descobre uma conversa boa em um bom livro de troca de experiências. Uma troca proveitosa, porque Lígia é experiente, tendo freqüentado boas salas de aula. E os professores que participam da conversa também vem de salas de aula boas, mesmo que essas salas estejam em lugares ou tempos diferentes. Primeiro, como o próprio título diz, tem professor e tem literatura no livro. De um lado o professor e do outro a literatura? Aparentemente, não, pois se literatura parece um bicho de sete cabeças no início, aos poucos a conversa torna-se um papo-cabeça, dividido em três eixos: literatura infantil, literatura juvenil e aventuras poéticas: imagens, sons e sentidos. Cada uma das duas primeiras seções tem quatro textos, mais as referências, enquanto a última, quatro. Antecede o livro uma nota prévia: “o título deixa claro que a este livro interessa uma relação: aquela que o professor mantém com a literatura. É a partir do que pode aproximar alguém da obra literária que são apresentados e discutidos aspectos e elementos próprios da literatura infantil clássica e contemporânea; da literatura juvenil em suas dificuldades de definição; da formação dos leitores no âmbito escolar; das diferentes modalidades de poesia endereçada aos estudantes”. Pronto, só esse parágrafo serviria para apresentar o livro. Estamos conversados e até mais. Não, não estamos conversados. Porque também essa resenha pretende ser uma conversa. Às vezes sem pé nem cabeça, mas conversa. Uma conversa com a revista O Tigre tentará mostrar que Lígia não é uma evangelizadora do mundo da leitura, para quem o importante é o livro-totem e não as relações do livro dentro da tribo. Conversa vai, conversa vem Não se engane, numa conversa franca, a autora não deixa nada a flutuar por sobre a cabeça dos professores. Em cada página parece dizer que o livro não é sagrado. Que se fosse sagrado, o leitor se intimidaria, com medo de tocá-lo. Que não adianta saracotear em volta do livro, como se ele fosse um totem. Como se o livro dissesse: “estou aqui para mostrar que sou muito mais do que de papel e tinta. Eu sou o mundo de autores e de leitores em suas relações com mundos reais e imaginários. No primeiro texto, que o leitor é o grande personagem dessas histórias, na concepção dos livros ou fora deles, porque eles, crianças ou jovens, são, afinal de contas, quem vai ter esse livro nas mãos, para julgá-los, com uma sentença inapelável: gostei ou não gostei. Na conversa, ela faz um estudo profundo na primeira parte do que é literatura infantil, clássica ou contemporânea. Ela reconta passagens difíceis desse tipo de estudo, sem ser condescendente, porém. E enquanto conversa, ela viaja e nos faz viajar através de livros, de escritores e de teoria literária. Muito séria, essa conversa da Lígia.
A relatividade dos conceitosA autora também fala sobre a relatividade de conceitos como infância ou juventude, pois, segundo ela, essas crianças que não se regem por faixas etárias estendem os limites de seu mundo, passam a conhecer, inevitavelmente, dor e a alegria. Daí a pergunta: mas, afinal, o que é um livro juvenil? O adjetivo “juvenil” da expressão livros juvenis tem as mesmas características, conteúdos, emulações, desejos, sangue e lágrimas dos jovens que vivem fora dos livros? Caso não tenha esse mesmo significado, as frases depreciativas, do tipo “os jovens de hoje não leem”, ou “a televisão e o computador mataram o desejo de leitura dos jovens” significam apenas expressões rancorosas de adultos? Se os jovens não lessem, por que as editoras multiplicam a quantidade de títulos publicados a cada ano bem como o número de exemplares editados? E por que a média de leitura de livros por leitor/ano no Brasil aumentou de três para cinco em 2009? É para discutir preocupações como essa que Lígia discute quem é realmente este leitor juvenil, em um tempo em que “o mundo é maior do que meu bairro”. Cita um depoimento de Luis Ruffato que aos 12 anos teve nas mãos o livro de um escritor ucraniano chamado Anatoly Kuznetzov e de que forma esse escritor, distante no tempo e no espaço de Cataguases, entrelaçou-se com o seu mundo. E quantos outros jovens de 12 anos não entraram no mundo da leitura pelas mãos de escritores que originalmente não os tinham em mente enquanto leitores. O que fazer desse universo (infantil?) cheios de personagens de Machado de Assis, de Tolstoi, de Dostoievski ou Calvino?” Lígia tem razão, a partir dos 11 ou 12 o olhar se expande, numa luta entre o adulto convencional e o adulto rebelde, que alarga os limites da vida até solidões insuspeitas, que sangra, mas que tem também ensina. E o livro é uma das formas escolhidas pelo jovem para se situar no mundo. Sim, eles usam GPS de papel. E seguem no carro da vida, com viradas bruscas, atormentando a voz do GPS, que freneticamente se põe a dizer: “volte, logo que puder; volte, logo que puder; volte, logo que puder”, mas jovem prossegue – ou desliga o botão do navegador – pois quer seguir suas próprias coordenadas. Quer se perder, em suma, pois só consegue se encontrar quem se perdeu. ![]() O GPS da poesia ”Na terceira seção de “O professor e a literatura”, Ligia trata da poesia brasileira que tem a criança como destinatária. Ela pega o professor pela mão, como se pega a mão de uma criança, e passeia por autores e poemas. Essa é pelo menos a primeira impressão. Pois a seguir, nos damos conta de que ela não pega o professor pela mão. Longe disso. Observando melhor, ela está de mãos dadas com professores e professoras, em um passeio pela paisagem poética brasileira. Segundo ela, é importante distinguir o que realmente é uma boa poesia infantil. Ela não busca o conceito exato, mas concentra-se em sua dimensão qualitativa. Daí a necessidade de uma contextualização histórica, já que a poesia infantil é um gênero particularmente difícil: “... os maiores equívocos de realização da poesia para criança ocorrem quando se diminui ou desconhece o leitor infantil. No primeiro caso, incide-se na poesia infantilizada, que subestima o leitor com versos que não permitem nenhuma aventura estimulante com a palavra. No outro extremo, está a poesia que não consegue prever o universo da criança e comete impropriedades de vocabulário, conceitos e sentimentos. Faz escolhas incompatíveis com as vivências limitadas daquele que pretende atingir. É o caso das composições poéticas sobre percepções e disposições emocionais próprias dos adulto, mas irreconhecíveis, ou sem apelo nenhum para uma criança, como, por exemplo, a nostalgia”. A conversa de Lígia prossegue por páginas e páginas tentando por os pingos nos is. Tanto no capítulo que tem por título “O menino e o poeta”, quanto nas discussões sobre gênero, para finalmente discorrer sobre os jogos verbais, retomando Manoel Barros que entende a função da poesia como encantar palavras, fugindo, portanto, da rotina lingüística. Para a autora, “a poesia se aproxima desses jogos verbais, quando brinca com as possibilidades combinatórias da língua”. A partir dessa idéia, ela busca imagens e ritmos nas cantigas de ninar, nos acalantos, nas parlendas e em outras formas de expressão tão bem explicados por Maria da Glória Bordini no primeiro texto desse número de Tigre 7. Ela alerta que se trata de um jogo que muda de acordo com o crescimento da criança e que não se faz apenas de sons, mas também de imagens, quando a criança tem contato com o alfabeto e cada letra dança diante de seus olhos com uma expressão própria, ou, mais tarde, quando o espaço vazio ou cheio, ocupado por letras, incorpora um valor semântico. CADEMARTORI, Ligia. O professor e a literatura, para pequenos, médios e grandes. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2009. Marisa Lajolo Ignácio de Loyola Brandão, paulista de Araraquara, tem nome de santo e não é por aca-so: nasceu no dia de Santo Inácio de Loyola, 31 de julho, em um tempo em que santos católicos inspiravam nomes para recém nascidos. E do nome dele, a nomes alheios, é só um passo: Loyola até hoje se lembra do nome de todas suas professoras: à Dona Lourdes, dona Ruth, Dona Dayse e Dona Noemi dedica O menino que vendia palavras (Objetiva, 2007), livro com que, em 2008, ganhou o maior prêmio brasileiro de literatura, o prêmio Livro do Ano de Ficção da Câmara Brasileira do Livro. Parece que a vida de Loyola foi desde cedo cheia de escritas e de leituras além de apitos de trem – seu pai era funcionário da Estrada de Ferro e sua casa era cheia de livros. Formado em escolas públicas de Araraquara, foi ainda em sua cidade natal que ele teve suas primeiras experiências intelectuais. De colaboração em jornais da cidade a artigos na Cláudia, na Realidade, Planeta, Vogue, Lui, Ciência e Vida o caminho foi longo e hoje o encontramos semanalmente em O Estado de São Paulo. Para além do jornalismo, sua obra literária é vasta, variada, muito lida, reconhecida, premiada e traduzida. Estréia em 1965 com os contos de Dentes ao sol e em 1976 escreve seu primeiro livro para crianças e jovens, Cães danados que fazia parte de prestigiosa Coleção do Pinto . Em O menino que vendia palavras, Loyola conta uma história que diz que é verdadeira. Mas, como ele também diz (numa entrevista) que gosta que os leitores pensem que seus livros têm fundo autobiográfico, a gente pode ficar com a orelha atrás da pulga. Será verdade? Provavelmente é, mas nem precisava ser, tão interessante ela é. O menino que vendia palavras, como o título anuncia, conta a história de um menino que vendia palavras, isto é, que vendia o conhecimento do significado das palavras.Na verdade, quem sabia o que queriam dizer as palavras que o menino vendia era o pai dele, mas era o menino quem lucrava com este conhecimento paterno: desafiava os cole-gas a descobrirem palavras que seu pai desconhecesse e ganhava todas as apostas. Era pago com chicletes, balas, figurinhas, essas miudezas de criança. A história é divertida e muito boa. Dependendo do leitor, o significado dela passa por diferentes caminhos. Alguém pode se divertir com o livro, caindo na tentação de se comparar ao pai do menino, testando seu vocabulário: o leitor sabe o que querem dizer todas aquelas palavras, gorgolão, catáfora?Alguns empacam em procrastinar... Já outros leitores podem encontrar no texto uma defesa apaixonada da leitura, prática da qual resulta a superioridade do homem que conhecia todas as palavras. Pode bem ser: esta interpretação é politicamente corretissíssima ... Mas ler dicionário também aumenta o vocabulário e em outra entrevista, Loyola conta que lia o dicionário. Mas, quem é que briga com leitor? Ninguém deve brigar, leitor tem sempre razão. Sobretudo leitor alheio. Afinal, cada um faz o melhor que pode para atribuir significado ao que lê, e o melhor é entrar na contradança, e também rodopiar alguns palpites de leitora. Por que gostei da história e acho-a muito boa? O livro me impressionou como uma espécie de metáfora da profissão de escritor, história que bem pode ser lida como uma discussão do profissionalismo no mundo das palavras. Ai palavras, ai palavras, que estranha potência a vossa ... adverte Cecília Meireles. E tem razão a poeta. Sua advertência é secundada por Veríssimo-Filho, que se define um gigolô das palavras. Assim, gigolô ou vendedor de palavras, na outra extremidade do arco da leitura – este gesto que reúne quem escreve e quem lê- temos o leitor, voyeur da gigolagem, comprador de palavras empacotadas em livros. O leitor paga. E quem ganha? Em nossa tradição, escritor foi sempre uma categoria profissional muito mal compreendida e pior remunerada. Dizer que Fulano ou Beltrano é um escritor profissional não é uma forma de desqualificá-lo? Parece que é ... As biografias de escritores cinco estrelas sublinham sempre que eles nasceram, viveram e morreram pobres, quando não miseráveis, como Lima Barreto no Brasil e Camões em Portugal. Então, o menino que vendia palavras, protagonista da divertida e premiada história de Loyola bem pode ser emblema dos estratagemas e picardia de que escritores verdadeiros têm de lançar mão para que o produto de sua escrita se transforme em honroso ganha-pão. Na história, a iniciativa do menino se embaralha na malandragem dos colegas, que o desafiam a descobrir o significado da inexistente palavra zaltrosa. O negócio desanda e o pai lhe prega um belo e oportuno sermão sobre logro, engano e negócios. Mas fica, no horizonte da história, uma idéia luminosa, a hipótese de um dicionário das palavras ainda por inventar... Nesta passagem, talvez se possa ler outra metáfora, agora da literatura, livrinhos e livrões que se inventam a cada novo poema, a cada nova história. Como esta bela história que Loyola criou e a partir da qual seus leitores podem criar outra história: por exemplo, a história de zaltrosa, a pequenina flor que nasce apenas do lado de lá do Salto Grande, e que a princesinha da Morada do Sol pediu para o pastorzinho colher, como prova de seu amor ... |
Último Número Quem Somos Arquivos Contribuições Cartas Cadastro Nossas publicações acontecerão no dia 15 de novembro, 15 de março e 15 julho de cada ano. Se você quiser receber um lembrete a cada nova edição, preencha, sem qualquer custo, o formulário abaixo. Publica artigos sobre algum aspecto particular da poesia para crianças. Editores: Sérgio Capparelli, Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini. Contribui com discussões sobre o fazer poético mais amplo, em que a ilustração ou design se institui enquanto uma das vozes importantes da interlocução entre autor e leitor. O espelho apresentará autores ou ilustradores nacionais e estrangeiros, falando sobre seu trabalho, em entrevistas ou depoimentos. Editora: Annete Baldi Propõe o relato de trabalhos práticos com poesia infantil em qualquer nível educacional. Editora: Elizabeth D'Angelo Serra Ocupa-se de poéticas digitais para crianças, com descrição ou críticas de sites de poesia infantil no Brasil e no exterior. Editor: Miguel Rettenmaier. Apresenta ou publica críticas à produção editorial do período, dentro da área, tanto em relação a textos de reflexão como a livros, produtos ou espaços de poesia para crianças. Editor: Sérgio Capparelli. Conselho Editorial O Tigre Albino tem um Conselho Editorial integrado pelas seguintes pessoas: Blanca Roig da USC e da LIJMI, Espanha; Ezequiel Theodoro da Silva, da UNICAMP e da ALB, Brasil; Isabel Mociño Gonzáles, da USC e da LIJMI, Espanha; Laura Sandroni, da FNLIJ, Brasil; Maria Antonieta Cunha, da PUC-MG, Brasil; Marisa Lajolo, da UNICAMP e Mackenzie, Brasil; Silvia Castrillon, da Asolectura, Colômbia; Virgilio López Lemus, do ILL, FAyLUH e AChttp://fayl.uh.cu e ACC, de Cuba. |