Volume 4 número 115.11.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434

Volume 3 número 3


Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos, de Eucanaã Ferraz: poesia pra não ter medo do desconhecido

Ana Paula Klauck

Encontrei o Bicho de sete cabeças... do Eucanaã Ferraz na estante de poesia pra criança em uma livraria. A capa logo me chamou a atenção: de um lado um lobo, do outro, um homem... Abrindo o livro percebi: eram duas faces do mesmo ser...

Imprimir o texto


Lobisomen


Pobre lobisomem,
Porque é lobo,
Porque é homem,
Porque é lobo e homem.

(...)

Pobre lobisomem
Porque tem garras,
Porque tem pelos,
Porque tem patas

E porque tem garras,
Pelos e patas
O pobre lobisomem
Fere o que ama.
(...)
(FERRAZ, 2009, p. 8)


Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos foi editado pela Companhia das Letrinhas em 2009 e traz ilustrações – belíssimas – de André da Loba (até o nome do ilustrador tem tudo a ver, hein!). O livro tem esse jeitão meio introspectivo mesmo e traz uma poesia ora lírica, ora brincalhona, ora engraçada, ora triste... Os poemas apresentam uma série de referências folclóricas e mitológicas da cultura universal, que talvez mais agucem do que esclareçam a curiosidade infantil, justamente por não fazerem parte do universo que é normalmente apresentado à criança. Mas como não amar um livro que não subestima os pequenos?

A obra de Ferraz propõe-se a versar sobre monstros e seres imaginários, brincando com o medo e a fascinação que eles provocam na gente. Mas, para fazer isso, o autor resolveu pescar personagens em diferentes culturas e explorar seres da mitologia brasileira, chinesa, japonesa, grega, nórdica e mais algumas... Essas referências diversas, por sua vez, ao contrário de tornar o livro pedante e distante do leitor, acabam nos aproximando de um universo misterioso. Os poemas caminham nos passos da curiosidade e vão, aos poucos, desvendando mistérios e apresentando novos desafios à imaginação:

Faunos

(...)
Sou fã dos faunos!

Eles vão atrás do que é bonito
E andam dias só pra ver o anoitecer
De um lugar que nunca viram.

Mas tem gente que duvida:
- Como é que pode?
Metade gente, metade bode?

Respondo: - Metade bode,
Metade gente, sim senhor!
Não pode? É tudo bicho!

Ora! Seria bem mais esquisito
Se fosse assim: metade gente,
Metade alface.
(...)
(Ibidem, p. 52)

O poeta mistura versos simples com a complexidade mitológica de vários povos, embalando o desconhecido em uma cadência sem mistérios. Os poemas de Eucanaã Ferraz se delineiam sem medo de falar do misterioso, do oculto: os monstros e criaturas que o autor escolhe, embora alguns não façam parte da cultura brasileira, são desdobrados naquilo que têm de mais curioso e peculiar e constroem versos que nada têm de monstruosos. A delicadeza das palavras e a simplicidade da voz lírica, que fala do mistério com naturalidade e que não tem medo de especular sobre o desconhecido, fazem dos monstros e seres mais distantes nossos velhos amigos.

A beleza do livro de Eucanaã Ferraz está justamente na forma sem medos como o autor resolveu versar sobre os misteriosos seres que habitam nosso imaginário. O poeta nos orienta a buscar o lado humano dos monstros e o desconhecido já vai se tornando mais próximo, o que nos era distante culturalmente, de repente, fica mais perto, o oculto é revelado e o medo já não é mais medo, é humor. Assim, os poemas vão desvendando os temores infantis e desconstruindo os receios sobre o que não se conhece, ao estimular a empatia sobre aquilo que nos é familiar. É o caso do lobisomem, poema que recortei no início: como ter medo de um ser tão triste e sozinho?

Mas não é só de medos que se constrói a bela obra de Eucanaã Ferraz. Há muitos textos que falam simplesmente do desconhecido, daquilo que nos é curioso por ser distante. É o caso de alguns personagens e lendas gregas, tais como Hesíodo, Ulisses, Zeus, Posêidon e de outros elementos de diferentes culturas, tais como a mandrágora e o tengu.

Mandrágora

Dizem que é uma planta
totalmente diferente!

A parte que é folha é folha,
Mas a parte sob a terra...

Não é raiz: é gente!
Gente assim, que nem a gente!
(...)
(Ibidem, p. 50)


Assim como os monstros e seres extraordinários do livro, esses outros elementos são apresentados pelas suas características mais peculiares, em um fomentar da curiosidade que nos leva em um caminho constante para o novo e em um retorno ao que já sabemos. Os poemas de Ferraz trazem informações interessantes e curiosas, mas que, em muitos casos, não fazem parte do universo infantil (comoo tengu – ave japonesa, o xi wangmu – deusa chinesa, t’ao-t’ieh – cão mítico chinês e outros). São plantas, personagens e animais que são apresentados para as crianças em um diálogo com o mundo que elas conhecem:

Sereia
(...)
Da cintura pra cima: gente,
Da cintura pra baixo: peixe.

Uma metade: dama,
A outra metade: escamas.
(...)
Metade Maria,
Metade sardinha.
(...)
(Ibidem, p. 14)

Brincando com crenças e medos primitivos do homem, o livro lida com a curiosidade e os temores infantis. Eucanaã Ferraz elucida a aproximação do ser humano primitivo e do ser humano em desenvolvimento, ao nos lembrar da beleza do mito, da inesgotável fonte criativa que jorra daquilo que desconhecemos e tememos. O resgate de elementos mitológicos de diferentes culturas em um viés integrador, que nos aproxima tanto pela curiosidade e pela diferença, como pela semelhança, combinado com um texto de escrita simples, constroem um obra que examina o imaginário humano, em interessantes tentativas de ora decifrá-lo, ora aceitar seu mistério. Mas, mais do que isso, o livro é uma brincadeira instigante com nossos medos e curiosidades, um jogo de imagens divertidas carregado de significados que vão se desdobrando, à medida que lemos os poemas e passamos a conhecer esses seres diferentes. Chama a atenção no livro o conjunto rico de imagens construídas a partir dessa grande brincadeira mitológica:

Zumbis

Foi lá no Haiti
Que ouvi falar dos Zumbis:
Gente morta que volta!

Não acreditei!
Mas, mesmo assim,
Fechava bem a porta.
(Ibidem, p. 8)


As ilustrações que André da Loba criou para os textos de Ferraz mantiveram essa atmosfera primitiva, ao utilizarem elementos rústicos e matéria prima simples (como papelão, rolha, arame e materiais naturais) para a construção das imagens. As figuras do ilustrador são fotos de obras que ele criou baseadas nos poemas e misturam cores e texturas, além de apresentarem elementos novos às significações possíveis. A leitura das ilustrações de Da Loba é um deleite à parte, pela riqueza e misticismo que apresentam e pela forma como o artista foi capaz de dialogar com os poemas, ao movimentar-se dentro dos imaginários apresentados.

A obra de Eucanaã Ferraz e André da Loba é bela e interessante, não porque lida com os medos dos pequenos e seus temores do desconhecido, mas porque os próprios autores não temem falar sobre aquilo que poucos conhecem, ou inserir elementos esquisitos e culturalmente distantes na arte da escrita e na representação gráfica. Pelo contrário, a riqueza mitológica apresentada valoriza a curiosidade infantil e confia no conhecimento dos pequenos para dar sentidos aos poemas do seu jeito. Dar crédito à criança é um dos méritos da obra; o livro apresenta um mundo que, por seus nomes e referências diferentes, pode parecer desconhecido, mas que em seu íntimo, os pequenos conhecem bem. Ligando culturas diferentes e trazendo elementos novos, Ferraz brinca com o medo e a curiosidade recorrentes na infância e, com humor e uma linguagem simples e lírica, faz uma obra de valor, mas, mais do que isso, uma obra que valoriza seu leitor.


FERRAZ, Eucanaã. Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2009.

Voltar ao sumário

Último Número

Quem Somos

Arquivos

Contribuições

Cartas



Cadastro

Nossas publicações acontecerão no dia 15 de novembro, 15 de março e 15 julho de cada ano. Se você quiser receber um lembrete a cada nova edição, preencha, sem qualquer custo, o formulário abaixo.








Tigre inquieto

Publica artigos sobre algum aspecto particular da poesia para crianças. Editores: Sérgio Capparelli, Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini.

Tigre ao espelho

Contribui com discussões sobre o fazer poético mais amplo, em que a ilustração ou design se institui enquanto uma das vozes importantes da interlocução entre autor e leitor. O espelho apresentará autores ou ilustradores nacionais e estrangeiros, falando sobre seu trabalho, em entrevistas ou depoimentos. Editora: Annete Baldi

Tigre em movimento

Propõe o relato de trabalhos práticos com poesia infantil em qualquer nível educacional. Editora: Elizabeth D'Angelo Serra


Tigre digital

Ocupa-se de poéticas digitais para crianças, com descrição ou críticas de sites de poesia infantil no Brasil e no exterior. Editor: Miguel Rettenmaier.


Tigre à mesa

Apresenta ou publica críticas à produção editorial do período, dentro da área, tanto em relação a textos de reflexão como a livros, produtos ou espaços de poesia para crianças. Editor: Sérgio Capparelli.


Conselho Editorial
O Tigre Albino tem um Conselho Editorial integrado pelas seguintes pessoas:

Blanca Roig da USC e da LIJMI, Espanha;

Ezequiel Theodoro da Silva, da UNICAMP e da ALB, Brasil;

Isabel Mociño Gonzáles, da USC e da LIJMI, Espanha;

Laura Sandroni, da FNLIJ, Brasil;

Maria Antonieta Cunha, da PUC-MG, Brasil;

Marisa Lajolo, da UNICAMP e Mackenzie, Brasil;

Silvia Castrillon, da Asolectura, Colômbia;

Virgilio López Lemus, do ILL, FAyLUH e AChttp://fayl.uh.cu e ACC, de Cuba.












Mundo
da Leitura