Volume 3 Número 115.11.2009
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434




Maria Valéria: menina e haikais vermelhos nos fazem parar

Annete Baldi

Maria Valéria Rezende nasceu em Santos/SP, onde viveu até os 18 anos. Em 1965, entrou para a Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho; tornou-se freira e embrenhou-se pelo interior do Brasil para colocar em prática sua militância contra as desigualdades e injustiças. Dedicou-se sempre à educação popular, inicialmente na periferia de São Paulo. A partir de 1972, mudou-se para o Nordeste, vivendo primeiro em Pernambuco. Reside há mais de 20 anos em João Pessoa (PB).

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Em 2001, publicou seu primeiro livro de ficção, Vasto Mundo (Beca), seguidos pelos sucessos Modo de apanhar passaros à mão e O voo da guará vermelha (Objetiva). Publicou também Jardim de menino poeta (poesia infantil - Planeta), Conversa de passarinhos em parceria com Alice Ruiz (poesia juvenil - Iluminuras) , O problema do Pato (infantil - Planeta), O arqueólogo do futuro (contos, juvenil - Planeta) e Histórias daqui e d’acolá (contos para neoleitores - Autêntica). É associada colaboradora da Biblioteca Livro em Roda. O livro de poesia para crianças No risco do caracol (Autêntica, 2008) é um dos 3 livros na Categoria Infantil que recebem o Prêmio Jabuti deste ano e Conversa de passarinhos foi finalista na Categoria Juvenil.



"(...) Eu não queria esquecer esse momento. Não tinha máquina fotográfica, só um toco de lápis e um papelzinho no bolso. Então tirei uma ’fotografia’ com palavras, escrevendo este pequeno poema:



Gotinha de chuva
escorre na folha verde,
brilha, treme e cai."


TIGRE - A ideia "fotografar com palavras" que usas na apresentação do No risco do caracol me soa metalinguística... Fala um pouco sobre esse teu ofício de "fotógrafa"?! O que é fazer poesia e para que se faz poesia?

MARIA VALÉRIA - Essa ideia não é minha... recebi-a, como muito do que sei sobre haikais, de Alice Ruiz, minha mestra e parceira. Adotei-a como uma metáfora muito esclarecedora para dizer o que é essa forma de poesia, de origem japonesa, mas hoje espalhada por toda parte. Há até uma tendência a chamar “haikai” qualquer poema curtinho, de apenas três versos, mesmo quando essa é a única coisa que tem em comum com a forma tradicional japonesa.

Eu me sinto pouco capaz de falar sobre o que é e por que se faz poesia em geral. Há tantas concepções e formas diferentes de poesia, das quais sou apenas leitora. Eu não entendo “de” poesia, só tenho a pretensão de às vezes entender “a” poesia. O haikai é quase a única forma de poema que me atrevo a fazer. Uma poesia na qual a simplicidade é a principal virtude e que é mais reconhecimento daquilo que o mundo nos oferece, do detalhe, da revelação ou do mistério escondido nas coisas e pessoas, do que expressão de nossa subjetividade. Para mim, a prática do haikai é uma auto-educação permanente para a atenção e a sensibilidade para com o mundo que nos cerca. É um método para escapar da auto-referência e do subjetivismo excessivos, uma educação para a humildade e a contemplação, e ao mesmo tempo para escapar da armadilha do simples jogo de palavras sem assunto, que anda na moda, é fácil de fazer e uma tentação constante. Para escrever um verdadeiro haikai é preciso perceber a beleza, a surpresa, o chamado à reflexão que se encontram o tempo todo em acontecimentos grandes ou pequenos de um mundo em constante movimento, abrindo os nossos cinco sentidos para deixar que eles entrem e se apresentem ao nosso espírito. Aliás, o haikai é um dos “caminhos” da filosofia zen. É um modo de “lavar os olhos” e todos os sentidos para obter uma percepção do mundo e de nós mesmos desarmada de preconceitos e de esquemas redutores, como é o olhar das crianças, capaz de ver o que até então era invisível e de se surpreender, sair de si, abrir-se. Perceber um haikai, escrevê-lo e comunicá-lo é um modo de partilhar com os outros essa experiência que me faz bem, um modo de dizer “olha só!”...

A maior parte do tempo de nossa vida é empregada na luta contra o caos material, e a própria palavra é usada por nós, na maioria das vezes, de forma instrumental, utilitária, quando não agressiva e autoritária... Acho que tanto ler poesia quanto tentar fazê-la são atividades fundamentais pra resgatar, de tempos em tempos, a integridade da palavra como revelação/contemplação/comunicação do mundo e de si. É pra gente permanecer humanos.

TIGRE - Nesse mesmo texto de apresentação, tu explicas o que é o haicai para os (pequenos) leitores mas depois tu escreves haicais que não ficam dentro das "normas" de que falas. E isso inclusive é salientado por ti no mesmo texto. De forma geral, a tua poesia é mais intuitiva do que racional?

MARIA VALÉRIA - É intuição depois “formatada” pela razão. No haikai, por exemplo, é preciso pensar muito para reduzir ao essencial o que percebi e me comove, a ponto de ser capaz de dizê-lo em apenas dezessete sílabas e de forma esteticamente satisfatória. As regras são uma disciplina, que acho coisa indispensável para a gente ser livre, isto é, poder escolher. Acato-as para ter a liberdade de transgredi-las quando tenho motivos éticos, estéticos ou comunicativos para fazê-lo. Pode parecer contraditório, mas regras e disciplina acho que nos defendem de um outro tipo de caos que está sempre espreitando: o caos sentimental, emocional, dos simples impulsos inconscientes que a gente não escolhe, das vaidades que se metem pelo meio e por trás de nossos atos, das idéias confusas. Transgredir as regras para mim tem valor se for uma escolha livre e com sentido e não mera incapacidade de segui-las ou mera obediência a alguma regra oculta que diz que é obrigatório transgredir.

TIGRE - Há diferença entre escrever para criança e para adulto?

MARIA VALÉRIA - Penso que há mais diferença entre publicar para crianças e para adultos, do que em escrever. Raramente eu escrevo de início para um ou outro tipo de leitor. Uma ideia me interessa, me dá vontade de escrever e vou em frente. Depois é que volto ao texto para decidir a quem ele pode interessar mais, e como, se a adultos maduramente letrados, se a adultos neo-leitores, se a adolescentes, jovens ou crianças. Escrevo cadernos e cadernos de haikais, e depois garimpo ali os que me parecem melhores para montar um livro que agrade às crianças mas também a todos. Às vezes retrabalho uma narrativa em duas ou três versões, alterando aspectos secundários da forma, para adaptá-lo a diferentes tipos de leitores, e mantenho as três vigentes, publicando em “embalagens” adequadas a diferentes leitores.

TIGRE - O que pensas a respeito de ler poesia para crianças e de falar sobre poesia para elas? Como escritora tens tido experiências desse tipo?

MARIA VALÉRIA - Minha experiência hoje mais freqüente e interessante tem sido a de fazer oficinas, com crianças e adolescentes, e também com adultos, em que tudo se junta: ler e dizer, a partir desse contacto com a poesia, dialogar sobre o que ela é, distinguindo-a do simples versinho ritmado e rimado, e levá-los a fazer poesia e a montar seus próprios livros. A resposta dos grupos é sempre surpreendente e entusiasmada, às vezes genial. O haikai, justamente, é ideal para essa atividade. Descobri isso quando a poeta brasiliense Paula Ziegler, que passou alguns anos aqui na Paraíba, ofereceu uma oficina de haikais para os adolescentes da Livro em Roda. Fiquei surpresa e encantada com o resultado, observei sua maneira de fazer, saí imitando a Paula e, aos poucos, inventando meu próprio método. Acho que tenho aprendido mais com eles do que eles comigo.

TIGRE - Há algum relato referente ao Projeto Livro em Roda na Paraíba no âmbito da leitura de poesia pelas crianças?

MARIA VALÉRIA - A Livro em Roda trabalha principalmente através das promotoras de leitura que escolhem e preparam uma leitura semanal para ler nas salas de aula, adequada a cada idade, e oferecem cada semana uma grande variedade de livros para as crianças escolherem livremente e levarem emprestado para ler em casa. Grande parte desses livros é poesia. A poesia, e especialmente os poemas narrativos que compõem um livro de história em verso é, eu diria, o melhor tipo de texto para fazer essa leitura encantadora e estimuladora para as crianças e creio que é o que as promotoras preferem e utilizam mais.


Anualmente, a Livro em Roda oferece aos professores municipais, em parceria com as prefeituras, oficinas com oportunidades de crescimento pessoal e ultimamente tem-se incluído sempre oficinas de poesia, ministradas por bons poetas. Trata-se de fazê-los descobrir sua própria poesia e não de “ensiná-los a ensinar poesia, mas acredito que isso repercute também no lugar que terá a poesia na sala de aula.

TIGRE - Como leitora, o que gostas de encontrar nos poemas que lês? e o que não gostas? Quem são teus autores prediletos de poesia (e tuas inspirações, se for o caso)?

MARIA VALÉRIA - Gosto de poetas que têm o que dizer, de poetas que olham à sua volta mesmo quando querem expressar o mais íntimo dos sentimentos, gosto de sonoridade e imagens, de simplicidade sem rebuscamentos, de ritmo. Não gosto de listas de palavras soltas, do abuso de jogos de palavras que não são mais que trocadilhos ou infinitas aliterações, não gosto de poemas que jogam só com o significante sem ter nada a dizer, raramente gosto da poesia concretista. Deixe ver: a pilha de livros de poesia que está atualmente na minha cabeceira contém: Cecília Meireles (sempre), Drummond, Bandeira, Astrid Cabral, Alice Ruiz, Lau Siqueira, Lúcio Lins, Sergio de Castro Pinto...

TIGRE - Tens alguma lembrança da tua infância associada à literatura ou à poesia em especial?

MARIA VALÉRIA - Quase tudo que lembro da minha infância e adolescência tem muita poesia misturada. A poesia foi minha primeira experiência, e muito intensa, da literatura, e não versinhos feitos para crianças, mas a poesia de gente grande. Eu acordava de manhã cedinho com a cantilena de meu pai dizendo poemas enquanto fazia a barba. Meu avô materno, quando jovem estudante no Rio de Janeiro, ganhava um dinheirinho declamando poemas nos intervalos do cinema; sabia de cor poemas imensos, O navio negreiro, o I-Juca Pirama, e assim por diante, e os recitava para nós com muito talento dramático, na varanda, depois do jantar. Minha tia Maria José Rezende era poeta muito querida lá em Santos e na casa dela e de minha avó havia quase toda semana um encontro de escritores e poetas que vinham ler suas últimas criações. A gente, a criançada, ficava livremente por lá, ouvindo aquilo tudo, quando não tinha de sair correndo por causa de um ataque de riso. Meu pai era sobrinho-neto do poeta Vicente de Carvalho e era médico. Todos os sábados pela manhã ia ver Tia Biloca, a viúva de Tio Vicente, já bem velhinha. Ele me levava junto e, para agradá-la, me ajudava a aprender de cor poemas do Tio para dizer à Tia. Antes de saber ler, aprendi de cor "O pequenino morto", A flor e a fonte, Palavras ao mar, o Velho Tema, Olhos Verdes e muitos outros ... nada de “batatinha quando nasce...” Quando fiz sete anos e aprendi a ler, minha madrinha me deu um “álbum de autógrafos”, e eu andava atrás daqueles poetas todos e exigia que fizessem versos especialmente para mim. Guilherme de Almeida me fez um haikai para esse álbum, me explicou o que era, que eu também podia fazer; por uns tempos danei a escrever poeminhas de 3 linhas. É triste que esse álbum se tenha perdido, não sei como nem onde. Quando fui pra escola, declamar poesia era meu número em todas as festinhas. Naquele tempo poesia era coisa que se declamava... íamos muitas vezes ao teatro Coliseu, assisir a recitais de poesia da Margarida Lopes de Almeida, do português João Vilaret e de outros menos conhecidos. Ouvíamos discos de poesia. Nos anos 50, quatro atores criaram o grupo Jograis de São Paulo, que dizia poesia em coro, fantástico! Vinham muito a Santos, era um sucesso enorme, então um grupo de quatro amigos meus, adolescentes de 15 ou 16 anos, criaram os Bardos de Santos, e a gente vivia a garimpar poemas para eles dizerem, a participar dos ensaios. Chegou a ser uma mania, na minha adolescência, de fazer “jograis” nas escolas, clubes, festas.



TIGRE - Como é o teu processo de criação? Decides o que vai escrever (um romance, um conto, um poema) e para quem (para adulto, para criança) ao olhar para a página em branco?

MARIA VALÉRIA - A página em branco é meu sonho de consumo... queria demais um dia encontrar-me diante da página ou da tela em branco e poder ficar flanando, tentando achar o que escrever. Minha situação é sempre o contrário: montes de coisas que já estou elaborando, que ficam pulando na minha cabeça, que desejo escrever, que preciso escrever, mas não tenho tempo nem sossego nem silêncio para me concentrar e pôr tudo aquilo no papel, acabar, polir. Tenho tarefas demais, literatura para mim está no lugar do lazer e não tenho tempo para o lazer... O haikai é que me salva... minha bolsa vive cheia de haikais escritos em tíquetes de supermercado, na beira de folhetos de propaganda imobiliária, numa parada de semáforo, como este aqui: “Sinal verde./ Menino e caquis vermelhos/ me fazem parar”.

TIGRE - Qual a tua maior satisfação como escritora hoje?

MARIA VALÉRIA - Ser bastante lida por crianças e jovens que, espero, no futuro ainda queiram ler o resto que eu deixar escrito. Saber que livros meus estão sendo utilizados para introduzir à literatura escrita os alunos da Educação de Jovens em Adultos. O diálogo através de orkut e e-mails com os vestibulandos e calouros que leram O voo da Guará Vermelha para o vestibular é uma delícia. São mais satisfações de educadora, que sempre fui, do que de escritora, que estou apenas
começando a ser.

TIGRE - E qual teu maior desafio?

MARIA VALÉRIA - Conseguir acabar de escrever pelo menos o que já tenho começado (quatro romances, por exemplo...) antes de ter o infarto definitivo.

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Publica artigos sobre algum aspecto particular da poesia para crianças. Editores: Sérgio Capparelli, Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini.

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Contribui com discussões sobre o fazer poético mais amplo, em que a ilustração ou design se institui enquanto uma das vozes importantes da interlocução entre autor e leitor. O espelho apresentará autores ou ilustradores nacionais e estrangeiros, falando sobre seu trabalho, em entrevistas ou depoimentos. Editora: Annete Baldi

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