Volume 3 Número 1 – 15.11.2009 Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman ISSN 1982-9434
A imagem do trabalho em Poesias infantis, de Olavo Bilac: uma medida de (sua) época, uma medida de (sua) arte
Daniela Silva, doutoranda em Letras da PUCRS
Muita gente recorda poesias aprendidas na infância, que falam de velhas árvores, de um cachorro chamado Plutão ou da história daquele menino que encontra um relógio e sai gritando e pulando contente. Que belo! Que belo! Agora sou gente! Olavo Bilac é o autor de muitos desses poemas, geralmente aprendidas de cor e utilizadas na sala de aula para incutir valores nos estudantes. Saindo do universo da memória, Daniela Silva analisa aqui, do ponto de vista literário, a produção poética infantil deste autor. Logo no início, ela explica o horror que Bilac sentia sobre os valores ensinados às crianças da época, principalmente nos noticiário sensacionalista dos jornais, o que, para ele, significava um retrocesso civilizatório. Mas Daniela não fica apenas nesse tipo de preocupação de Bilac, pois mergulha no que interessa: não nas suas preocupações fora da poesia, mas nos seus poemas destinados ao público infantil, numa perspectiva literária. Imprimir o texto
I. Um príncipe anda pelos contos de fada e pelas lendas; desperta princesas do sono profundo ou as retira da torre mais alta, para com elas se casar e serem felizes para sempre; luta e governa seu reino. Um príncipe defende a língua em que se expressa e a pátria em que vive. Um príncipe, como Olavo Bilac, escreve poesias e também poesias infantis. A preocupação de Bilac com a criança pode ser percebida, ainda, através de suas crônicas. Em uma delas, publicada no Correio Paulistano, em 01 de dezembro de 1907, intitulada “A escola dos horrores”, o cronista manifesta sua indignação para com a popularidade dada pelos jornais da época aos crimes hediondos. O inconveniente maior, segundo ele, estaria em uma história contada por um amigo, a respeito de “uns pirralhos de seis a oito anos”(1) , brincando à moda dos homicídios reportados jornalísticamente. Para o poeta, “a lição que as crianças bebem nos jornais, nesta época em que as crianças lêem jornais e em que os jornais capricham em cultivar a literatura do escândalo"(2) , é condenável.
Bilac começa seu texto com uma referência ao “Dictionnaire Universel des Idées, de Ernst, publicado em França em 1850”(3) . A obra é recuperada no sentido de falar sobre progressos e retrocessos da humanidade, como é o caso do destaque dado à crônica criminal. O agravante dessa prática reside, especialmente, no fato de notícias de “homicídios, roubo e devassidão” aparecerem estampadas nas mesmas páginas “destinadas à infância: tudo vem no mesmo retângulo de papel, e os pequeninos leitores passam naturalmente da leitura dos contos ingênuos e das historietas jocosas à leitura das epopéias da patifaria... É uma escola... É a Escola do Horror!”(4)
Na crônica, pois, percebe-se alguns pontos relevantes: 1. a criança, no início do século XX, faz parte do público leitor de jornais; 2. os jornais cultivam a literatura do escândalo; 3. Bilac está preocupado com o conteúdo a que essas crianças estão submetidas; 4. o imaginário infantil está sendo construído com histórias de horror. Por que as crianças nessa faixa etária, de seis a oito anos, estão lendo jornais e imitando o que os criminosos fazem, o cronista declara sua inquietação para com o futuro dos pequenos. Sendo assim, ao comparar o jornal com uma escola, Bilac está dizendo que o mesmo está formando criminosos e isso é um retrocesso em termos humanos e sociais, o que fica enfaticamente evidente através do complemento “horror”, adjetivando escola.
II. A criança, a infância e a literatura infantil são, como se pôde ver, temas que importavam a Olavo Bilac. Da mesma forma, o ensino primário. Não apenas suas crônicas, também repletas de discussões a respeito do que acontecia no âmbito público e privado no Brasil, demonstram isso. A poesia, por sua vez, revela, ainda, serem esses tópicos sobre os quais Bilac se questionava independentemente da forma em que escrevia. Poesias infantis, concebido a partir de 1895 e tornado público em 1904 – três anos antes da publicação da crônica – aponta tais motivações. Segundo o prefácio da edição de 1904, presente na publicação de 2009, o livro tem uma origem encomiástica: “quando a Casa Alves & Cia. me incumbiu de preparar este livro para uso das aulas de instrução primária, não deixei de pensar, com receios, nas dificuldades grandes do trabalho”(5) . Da mesma forma que o caráter do livro, o público leitor também está determinado. Tratam-se de alunos do primário, hoje, ensino fundamental.
Tal público, através das palavras do autor, caracteriza-se de uma maneira peculiar: “era preciso fazer qualquer coisa simples, acessível à inteligência das crianças”. Bilac tem consciência, na época, de que a criança possui uma inteligência diferente da que apresenta os adultos, demandando simplicidade no modo como as coisas devem ser elaboradas. Para alcançar tal simplicidade – e aí temos um subentendido que cria uma nota sobre seu estilo poético, bem como sobre os leitores adultos – teria ele de livrar-se de um vício: “fazer estilo”, isto é, perder “suas complicadas construções de frase, e o seu arsenal de vocábulos peregrinos, para se colocar ao alcance da inteligência infantil” (6) . Simplicidade e complicações são dois extremos que separam, do ponto de vista de Bilac, a escrita para a criança daquela feita para adultos. Ele precisava alcançar esse universo, no qual adentrava pela primeira vez.
Outro impasse, além desse, era não tornar o simples ingênuo, “falso, cheio de histórias maravilhosas e tolas que desenvolvem a credulidade das crianças, fazendo-as ter medo de coisas que não existem”(7) . O imaginário infantil, para Bilac, deve ser simples, astuto e calcado na realidade. A esse leitor não teria por que oferecer fantasias ou banalidades, mas temas relacionados ao homem e seu convivío com o/no universo de que faz parte. Como parnasiano que era, para que isso pudesse ser alcançado, o poeta teria de encontrar a medida exata do verbo.
Criticando certos livros de leitura, questiona: “é irrisório que, querendo educar o ouvido da criança, e dar-lhe o amor da harmonia e da cadência, se lhe dêem justamente versos errados, que apenas são versos porque rimam, e rimam quase sempre erradamente?” (8) À harmonia e à cadência, características do plano formal, aliam-se os temas, integrantes do âmbito conteudístico. As duas instâncias evidenciam o desprendimento do poeta para com as coisas relativas ao campo da fantasia e do maravilhoso: “há aqui descrições da natureza, cenas de família, hinos ao trabalho, à fé, ao dever; alusões ligeiras à história da pátria, pequenos contos em que a bondade é louvada e premiada” (9) . A praticidade do dia-a-dia é privilegiada em relação aos elementos fantasiosos.
Além do público leitor, dos temas, da forma e do caráter encomiástico do livro, o autor também menciona o papel do crítico: “julgar o seu trabalho”, usando como critério dizer se o seu propósito foi alcançado, ou seja, se ele [Bilac] conseguiu escrever de maneira que não “parecesse fútil aos demais artistas e complicado demais para as crianças” (10) . Bilac está, evidentemente, preocupado com o destinatário de suas poesias. Ainda que esteja adentrando em um terreno ao qual não está habituado, ele, entretanto, não deixa de considerar e privilegiar os aspectos formais, evidenciando que escrever para o público infantil não significa deixar de destinar atenção e rigor à sua poesia. A posição de Bilac demonstra a qualidade ética de sua personalidade e de seu trabalho, assumida independentemente do público ao qual o mesmo se destina. O respeito para com a criança é o mesmo destinado ao adulto, bem como aos que têm como função examinar e julgar sua poesia. Se esses acharem que Bilac não alcançou o propósito, resta ao poeta um consolo: “quis dar à literatura escolar do Brasil um livro que lhe faltava”(11) .
Olavo Bilac sabe dos problemas do ensino primário. Vê nessa uma oportunidade de contribuir para a formação humana dos leitores infantis. Às crianças da primeira década do século XX, para ele, não são necessários contos de fada, tampouco histórias hediondas sobre crimes escandalosos. A educação infantil depende do respeito e do conhecimento das histórias da pátria, da natureza e da família. Quando diz que no seu livro não teriam “fadas que protegem ou perseguem as crianças”, Bilac está aludindo a uma tradição estrangeira de histórias para os pequenos, como as Fábulas, de La Fontaine; os contos, de Charles Perrault e/ou as obras dos Irmãos Grimm. Não se trata de negá-las, mas de, em virtude de o livro ter sido construído para ser manipulado em âmbito escolar nacional, acrescentar valores aos estudantes do ensino primário nesse sentido, muitas vezes relendo e adaptando textos estrangeiros.
O caráter pedagógico do livro é inegável, uma vez que Bilac afirma ser a obra destinada ao ensino fudamental da época, como contribuição à literatura escolar. Entretanto, ainda que apresentando propósitos temáticos pedagógicos, possui como principal objetivo “educar o ouvido da criança, e dar-lhe o amor da harmonia e da cadência”. Olavo Bilac está engajado em despertar nesse público leitor o gosto pela poesia; pela arte. Sendo assim, a pedagogia está a serviço da realização artística e de seus efeitos no leitor e não da promoção do panfletário e/ou do escandaloso, como é o caso dos jornais criticados em sua crônica.
III. Poesias infantis começou a ser escrito a partir de 1895 para, finalmente, ser publicado em 1904. O livro possui, portanto, um histórico de produção equivalente a onze anos. Seu tempo de gestação é, além de tudo, herdeiro da situação intervalar com a qual dialoga no final do século XIX e no início do XX, momento em que se encontra sendo gerado. Nesse instante, tanto o poeta quanto sua obra convivem com incertezas e pessimismos comuns a todo término de jornada, bem como estão sujeitos ao positivismo do momento, positivismo esse não no sentido doutrinário da palavra, mas no da expectativa e da novidade que todos os começos suscitam e que também estão assegurados no termo. Outro acontecimento condizente com situações intervalares são os balanços, despertados pela condição de iminente transformação de um estágio para outro que, muitas vezes, termina por exigir dos sujeitos, de forma direta ou indireta, um “novo” comportamento diante do “velho”.
Tendo em vista que uma obra é um fenômeno social e um dado da história, Poesias infantis termina por absorver essas questões – ainda que não esteja determinada unicamente por isso – procurando tocar o leitor infantil através de aspectos positivos – contraditoriamente gerados a partir do pessimismo do final de século – tais como a valorização da natureza, da família, da educação, do trabalho, dos sentimentos, do respeito, da ética, da moral, etc. Dessa forma, enquanto os destinatários, crítico e leitor infantil, demonstram a preocupação estética de Olavo Bilac, o propósito da publicação e sua natureza encomiástica, por outro lado, apontam as características social e histórica da obra, vinculando-a, pois, à uma questão central: como anda a literatura escolar em nível primário no Brasil? O que move a escrita do livro é uma “falta” ou falha que necessita ser preenchida, de acordo com o ponto de vista do autor, com uma literatura cujo efeito estético advém do cuidado com a forma e com o melhoramento da educação cívica.
Quatro anos antes de escrever a crônica de 1907, manifestando-se contra a indecência que há no contato do leitor infantil com textos que retratam violência, a qual, por extensão, mostra-se performatizada nas brincadeiras do dia-a-dia, Bilac escreve Poesias infantis. No intuito de formar o imaginário infantil escolar, do início do século, diante disso, quais são as imagens que Bilac constrói? Como as rimas contribuem para tanto? Quais aspectos seriam relevantes apontar? Muitos são os temas discutidos pelo autor nos 93 poemas que compõem o livro. Chamou-me atenção, em particular, a reiterada presença da imagem do trabalho em várias poesias. Algumas vezes, essa presença se dá de forma direta, outras não. O que a imagem do trabalho suscita e/ou desperta? Podemos ter uma medida da época em que Bilac escreve, bem como do imaginário infantil que deseja formar, investigando a constituição desse signo em suas poesias? À configuração, pois, do trabalho, na poesia de Bilac, também como uma metáfora e/ou metonímia da época em que escreve, estará focada minha análise. Para tanto, selecionei doze poemas em que o tema aparece diretamente tratado, quais sejam: “O sol”, “As formigas”, “Domingo”, “O boi”, “A justiça”, “O tempo”, “A madrugada”, “Meio-dia”, “Ave Maria”, “Os meses”, “A mocidade”, “A velhice”, “O trabalho” e “A pátria”. Ao exame dos textos, segundo a orientação a que me proponho é o próximo passo desse ensaio.
IV. No princípio, era a foto de Bilac carregada por uma formiga. A figura consta no paratexto da edição de 2009, do livro Poesias infantis. O inseto, segundo o Dicionário de símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrandt, “é um símbolo de atividade industriosa, de vida organizada em sociedade, de previdência, que La Fontaine leva até o egoísmo e avareza” (12) . No poema “As formigas”, composto de 32 versos, Bilac faz uma paródia da Fábula de La Fontaine A cigarra e a formiga. Na versão do poeta, há uma comparação entre a diligência das formigas e a negligência das cigarras. Como recompensa ao seu trabalho, a formiga, cautelosa e prudente, “não sofre fome...”(13) O poema também retrata, além disso, a destreza, a força e a persistência do inseto, que desvia de pedras, sobe ladeiras e galga muros, a fim de levar para o formigueiro o alimento que ajudará sua comunidade durante a estação de frio. O trabalho em conjunto, em prol do coletivo, isto é, da sociedade, é outra característica da vida das formigas, que as difere das cigarras.
Para falar sobre as formigas, além da foto mencionada, Bilac cria estrofes com versos de oito sílabas, acentuadas na segunda e na penúltima posição. Tal construção rítmica dá ao poema o aspecto de uma marcha, o que fica evidente no trecho a seguir: “Marcham em filas cerradas” (14) . O movimento ora ocorre de forma fluida, acentuado pela presença dos verbos no gerúnido, como em “atravessando” e “andando”, ora pela consoante líquida “L”. Outras vezes, dá-se de forma truncada, ainda que sonora, através das consoantes fircativa surda “s”, indicando o desconhecido, o susto e o desvio a ser tomado em caso de insegurança, e da vibrante “r”. A marcha é ainda descrita pela alternância entre a oclusiva bilabial surda “p” e a oclusiva alveolar surda “t” em “passo discreto” e “pata de inseto”. A acústica dos versos aliada à alternância de rimas marcam o revezamento entre consoantes surdas e vozeadas e vogais abertas e fechadas. Tal revezamento, por sua vez, aponta a marcha dos insetos, marcha essa que se estende da pronúncia das palavras ao conteúdo temático, bem como ao comportamento dos insetos.
Na última estrofe do poema, há um fechamento da história contada nas anteriores, procedimento esse que recupera o aspecto moralizante das fábulas. Aqui, o eu-lírico reporta-se ao seu interlocutor, pedindo que ele se recorde “todo o dia/ Das lições da natureza:/ O trabalho e a economia/ São as bases da riqueza” (15) . Não se trata apenas de uma moral do tipo “quem guarda tem” ou “trabalhe mais e descanse menos”. O poeta chama atenção dos pequenos para as lições da natureza sobre o trabalho. O espelho para a conduta a fim de conquistar tais objetivos é a natureza, isto é, a história da formiga e da cigarra. Afinal de contas, você quer ser uma cigarra ou uma formiga? Bilac usa o exemplo e depois, em tom de questionamento, faz essa pergunta.
O tom e o tema são bastante próximos das crianças, assim como as rimas que embalam o trotar dos bichinhos. O “trabalho” é referido nesse poema como o resultado de ações em conjunto, pensando no grupo, de forma cautelosa, prudente, determinada. Trata-se de uma marcha diária, contínua, abrindo caminhos, galgando obstáculos, economizando. Se a natureza é algo mais próximo dos pequenos, é ela que Bilac usa como expediente para atrair leitores. Além disso, o histórico da literatura infantil, já que é em La Fontaine que busca elementos para realizar, também como uma formiguinha, de forma cautelosa, o seu trabalho.
O tema é referido, além desse, no poema “O sol”. Tratam-se de versos de treze sílabas, com ritmo lento, em louvor ao sol, cuja presença na terra tem o poder de transformação. As vogais fechadas nos dois primeiros versos, da estrofe inicial, mimetizam o clarão e o poder do sol ao chegar a terra de forma abrupta e extasiante. A tristeza, quando do seu desaparecimento, é marcada pela vogal “e”, seguida de um “s” surdo. A ausência de sol é também poeticamente surda. Nos versos seguintes, tanto nessa, quanto nas demais duas estrofes do poema, a predominância é da vogal aberta “a”, apontando a alegria e a festividade do eu poético diante do sol.
O sol dá vida. Por outro lado, a noite, ou a treva, como é descrita, por oposição, a ausência de luz, gera maus pensamentos. O sol dissipa a treva: “A noite é como a morte; o sol é como a vida”(16) . Com a ausência de sol, há tristeza e a terra fica feia. Além disso, é “O sol, pai do trabalho, o sol, pai da alegria...” (17) Se o pai é aquele que dá origem e se o sol possui todas essas características, como transformação, alegria, calor, vida, e assim por diante, o trabalho, por que seu filho, herda, consequentemente, tais qualificações. Assim como o sol, o trabalho gera a vida. Mais uma vez, é a um elemento da natureza que o poeta recorre e de cujas qualidades se vale para descrever o trabalho e sua importância no dia-a-dia do homem. O trabalho é tão vital quanto o sol que ilumina, aquece e dá força. O sol, vale ressaltar, é reverenciado como um deus: “Salve, sol glorioso! (18)” Em tom exclamativo, melodioso e lento move-se o eu-lírico, a fim de adorar o deus e seu filho: o trabalho. Cabe lembrar que o deus sol na mitologia grega é Apolo, o qual, segundo o Dicionário de símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrandt, “simboliza a suprema espiritualização; é um dos mais belos símbolos da ascenção humana” (19) . O trabalho está também ligado, portanto, à ascenção e ao progresso do homem.
O trabalho divino em comparação com o humano é, ainda, poetizado por Bilac em “Domingo”. O poema de seis estrofes, com versos, mais uma vez, de oito sílabas, , tendo como parâmetro o tema em questão, aborda o descanso – e não o ócio – em relação ao trabalho. Descansar é tido como um direito do ser humano e não um luxo, como acontecia na fábula. O trabalho é simbolizado em: “Paradas e sem trabalho,/ Dormem na roça as enxadas;/ Dormem a bigorna e o malho/ Nas oficinas fechadas”.(20) Uma coisa é tomada pela outra. Dessa forma, o trabalhador é tido por suas ferramentas: o lavrador, pela enxada e, o ferreiro, pela bigorna e pelo malho. Tal simbolização dá-se através de figuras metonímicas. Uma vez que ferramenta e trabalhador mimetizam o trabalho, tal caracterização aponta, ademais, a ocorrência de uma linguagem metafórica. Os materiais são, além disso, humanizados, pois a eles são atribuídas características humanas, como dormir. Bilac recorre, ainda, à história bíblica, equacionando o direito do homem ao direito divino: “Deus, quando o mundo fazia,/ Sete dias trabalhou,/ E ao fim do sétimo dia/ Do trabalho descansou...” Aqui, o trabalho é comparado ao ofício de criar. De outro modo, seria possível dizer que o ofício do ferreiro e o do lavrador equiparam-se ao de Deus, assim como ao do artista e do poeta como tal. Se ofício é criação, trabalho também é. Logo, trabalhar é criar.
Os animais mais uma vez são tematizados em relação ao trabalho. Em “O boi” é poetizado um dia de labuta na vida do bovino: “Quando ainda no céu não se apercebe a aurora/ E ainda está molhando as árvores o orvalho,/ Sai pelo campo afora/ O boi para o trabalho”(21) . Quando o sol deita sobre a terra os seus raios, “Já o encontra, robusto e manso, a trabalhar”, indiferente às aguilhadas do lavrador, ao peso do arado, às moscas em seu lombo. Quando anoitece, “cessa a vida rural./ Há estrelas no céu. Na terra há pirilampos./ E o boi, para dormir, regressa ao seu curral”(22) . O boi inicia sua atividade antes de o sol nascer, adormecendo quando esse não está mais na terra, no momento em que apenas estrelas e pirilambos iluminam a vida na escuridão do campo.
O caminhar lânguido, assim como o olhar do boi, derramam-se pelo poema, penetrando no ritmo que embala os seis versos que o compõem. A estrutura poemática é sóbria, moderada, paciente e firme como as feições de um boi. Se, conforme diz Armindo Trevisan, em Vamos aprender poesia?, ritmo é “fluxo” (23) , entendo que o fluxo desse poema mimetiza as ações de uma boi. Ao trabalho, portanto, são endereçadas características como paciência, robusteza, mansidão, serenidade, marcha. O sol e a marcha das formigas possuem, diante disso, semelhanças com o comportamento do boi. Esse está ligado ao sol, por antecedê-lo na jornada de trabalho. O boi inaugura o dia antes do sol e marcha determinadamente e indiferente as agruras de suas tarefas, assim como as formigas. O boi, no entanto, trabalha sem uma senso de coletividade, como o dos insetos. Além disso, está num limbo, pois se antecede o sol, trabalha à noite, transitando entre esses dois estágios.
No poema “Justiça”, outra vez o ócio é tratado em relação ao trabalho. Não são, entretanto, elementos da natureza que aqui são postos para abordar a questão. O poeta cria uma cena cotidiana, em que um filho se queixa à mãe por que não recebeu prêmios na escola: “Outros, no meu colégio, com mais brilho,/ Tiveram prêmios, livros e medalhas.../ Só eu não tive nada!” (24) A mãe explica ao filho que a situação é justa, pois a criança, diferentemente de seus colegas, não se empenhou para alcançar tais méritos: “Pois querias então que, vadiando,/ Os outros humilhasses,/ E que, os melhores prêmios conquistando,/ Mais que os outros brilhasses?”
O estudo, para o poeta, é um tipo de trabalho, o qual passa a significar dedicação, compromisso, empenho. Para alcançar “prêmios”, nesse caso, é necessário trabalhar empenhadamente. Disso Oscar não sabia. A ele a situação a mãe explicou. Além de lhe ensinar sobre o trabalho, instrui-lhe sobre a justiça: “E aprende: mesmo quando isso te fere,/ É preciso ser justo.” (25) Esse é, principalmente, o papel da mãe: ser justa. Ensinar, muitas vezes, significa mostrar as coisas como elas são, ainda que doa em ambas as partes, como nesse caso. A mãe de Oscar foi justa com ele, assim com a escola. Dar razão a um filho em situações como essa, seria uma injustiça para com ele diante do mundo com o qual tem de aprender a lidar. O tom de ensinamento e a necessidade de diálogo entre pais e filhos justifica a estrutura do poema com aspectos da prosa, o que se mostra por meio das aspas e do travessão.
O mesmo tema ocorre no poema “Ave Maria”. Aqui um dos pais, que não se sabe se é a mãe ou pai, diz ao filho que reze, agradecendo pelo que tem; pedindo proteção; solicitando que conserve seus pais perto de si, para que a eles possam fazer justiça, pagando-lhes em alegrias ao que pelo filho deram. Na última estrofe, também em tom de discurso, percebido por meio das aspas, encontra-se: “Hoje, pratiquei o bem:/ Não tive um dia vazio,/ Trabalhei, não fui vadio,/ E não fiz mal a ninguém”. Trabalhar é o contrário de vadiar e isso, para o poeta, significa “ser bom”.
É “O Tempo” que em primeira pessoa fala de si próprio no poema de mesmo nome, com quatro estrofes, compostas de versos decassílabos. A primeira característica atribuída ao tempo é passar. As demais são: não ter princípio, meio ou fim; levar as vaidades, a ventura e as desgraças. Assim como leva, o tempo forma as “horas que passam”, “os anos que nascem e morem” e “os séculos”. O ritmo dos versos demonstra a liquidez do tempo, através da pouca presença de vírgulas, bem como da ocorrência da consoante “L”, do gerúndio e das reticências. Na última estrofe, depois de falar de si aos outros, o eu-tempo fala para os outros: “Trabalhai, porque a vida é pequena,/ E não há para o tempo demoras! Não gasteis os minutos sem pena! Não façais pouco caso das horas” (26) . Nesse poema o eu-tempo aconselha o trabalho em detrimento das demoras ou, como vem sendo dito, do ócio. O tempo passa, a vida passa, as horas também. È preciso aproveitá-las e fazer com que valham a pena. Um dos meios para tanto, segundo o poeta, através do eu-tempo, é o trabalho. Seria o trabalho, diante disso, capaz de fixar a passagem do tempo? Tempo é vida. Trabalhar, pois, nesse caso, seria preencher a vida com o uso sem demoras do tempo.
O descanso ou o direito a uma pausa no trabalho é mais uma vez poetizado no poema “Meio-dia”. Nesse horário, “há recreio nas escolas” e o “lavrador pousa a enxada”(27) . As cigarras e as mulheres, no entanto, continuam seu ritmo sincopado: aquelas cantando nas árvores e essas atirando milho às galinhas e cozinhando o almoço. Quem desperta o momento de descanso para uns e trabalho para outros é o sino que repica na igreja e vai pelos campos cantando, “A vida, a luz, o trabalho”(28) . Dito de outro modo, a natureza, o sol e o lavrador. Para falar sobre isso, Bilac se vale novamente de versos de oito sílabas, louvando o momento em que o deus sol está “a pino” ou no centro do dia. Aqui, também a atividade da natureza é posta lado a lado com a do homem.
No poema “Os meses”, quando trata de janeiro, a imagem do trabalho mostra-se da seguinte: “Mas, se a alegria espalho,/ Desejo que o trabalho/ Vos possa reunir:/ Meses, eu vos saúdo!”(29) . Trabalhar aqui significa congregar. Entendo poder comparar esse modo de ver o trabalho com a maneira como as formigas encaram a vida em sociedade, ou seja, através do esforço coletivo, em prol do bem do grupo. Janeiro, em primeira pessoa, diz espalhar, dentre outras coisas, a alegria, e desejar que o trabalho reúna a todos, isto é, motive a sociedade a agir pelo conjunto e não pelo indivídual.
Outra significação dada ao signo vem das características da juventude, no poema de nome “Mocidade”. Para Bilac, a juventude “não tem receio do trabalho ousado”, pois é uma idade da força e da beleza, a qual encara “de frente a natureza”(30) . No primeiro verso, há uma comparação da mocidade com a primavera. Sendo essa a estação em que tudo floresce e tendo os jovens capacidades para lidar com o novo, inventar projetos, sonhar e espantar o sono, Bilac aponta esse como sendo o momento da vida afeito às glórias, portanto, ao empenho para o trabalho. Não há aqui, diretamente, um conceito de sobre o tema, mas um ideal de trabalhador, qual seja, estar motivado em produzir o futuro, moldar o tempo e, consequentemente, a sociedade.
Por fim, o último poema denomina-se “O trabalho”, exemplificando o que até aqui venho desenvolvendo, a fim de construir uma ideía do que Bilac entende por trabalho e como ele o transforma em poesia. Em tom descritivo, o poeta caracteriza o termo e suas relações como o homem. A associação com a natureza se mantém e é o ponto de partida do poema: “Tal como a chuva caída/ Fecunda a terra, no estio,/ Para fecundar a vida/ O trabalho se inventou” (31) . Nota-se que trabalhar foi uma invenção que surgiu no sentido de fecundar a vida. Para isso explicar, Bilac recorre ao recurso de comparação, marcado pelo operador “tal”. A chuva dá vida à terra; o trabalho da vida à vida.
Além disso, vale-se da oposição entre ócio e trabalho: “Feliz quem pode, orgulhoso,/ Dizer ‘Nunca fui vadio:/ E, se hoje sou venturoso,/ Devo ao trabalho o que eu sou!’”(32) . Trabalhar, como dito em outro poema, é criar. A vadiagem, pela sua improdutividade, é contra a simbologia de ação, que preenche o conteúdo do signo “trabalho”. Ser vadio, portanto, é motivo de desgosto. Trabalhar, por outro lado, é razão para ter orgulho de si próprio; é ser, ao passo que, o contrário significa anulação total do indivíduo na sociedade de que “faz parte”. Para que o sujeito adquira um trabalho de que possa se orgulhar, “É preciso, desde a infância,/ Ir preparando o futuro;/ Para chegar à abundância,/ É preciso trabalhar.” (33) Lembro que, no primeiro poema, Bilac referia serem as bases da riqueza o trabalho e a economia. Mais uma vez, aqui, é mencionado que para adquirir abundância é preciso trabalhar. Há sempre um ponto de partida e a necessidade de um preparo. Nesse momento, Bilac atribui aos pais a responsabilidade pelos futuros dos filhos, num plano microcósmico, e do país, equanto conjunto, num macrocósmico. Os frutos, no entanto, têm de ser semeados: “Não nasce a planta perfeita,/ Não nasce o fruto maduro;/ E para ter colheita,/ É necessário semear...”(34)
V. Penso que o “trabalho” é um signo cujas imagens despertadas são notórias e recorrentes na poesia de Bilac, como se pode ver nessas poesias, tanto em nível formal, quando no que se refere ao conteúdo. Na maioria das vezes, aparece relacionado a elementos da natureza, outras à situações familiares e algumas vezes ao processo de criação, ainda que de forma metafórica. O trabalho gera economia, riqueza, ascenção, arte. O signo constrói-se, também, por significados associados e por comparações opositivas, como quando aparece, respectivamente, relacionado à educação ou divergindo de ócio. Esse signo é, por toda a capacidade de ação que nele reside, o motor do homem e da sociedade. As crianças, em nível pedagógico, com base nessa leitura, podem aprender isso desde pequenas; os jovens, que disso já sabem, necessitam promovê-lo, atentando para o bem do conjunto. Ao termo, portanto, são atribuidos sentidos que mimetizam a idéia de sociedade que Bilac tinha em mente e como via na criança uma oportunidade para que tal idéia prosperasse. Os elementos imagéticos, criados por meio de uma linguagem reconhecível, atraem o leitor que pelo tema se interssa porque de seu universo tais elementos participam.
Como os pré-adolescentes estão incluídos no ensino fundamental, os poemas também são direcionados a eles. O livro, nesse sentido, possui um “trabalho” temporal, percebido pela maneira como as poesias são colocadas. Por assim dizer, começa criança e vai adolescendo. A liberdade dos versos torna-se permeada por uma presença discursiva à medida que os poemas são folheados, ou vão envelhecendo, de modo que se trata de uma leitura que possui um ritmo de vida. Nesse caso, tanto o leitor infantil quanto o pré-adolescente sentem-se contemplados. Da mesma forma, os adultos, como eu, que muitas vezes ri e uma única vez derramei lágrimas, quando o cachorro “Plutão”, diante dos meus olhos, “nasceu”, viveu e morreu, juntamente com seu dono, numa bela tematização do que é a amizade, exemplificando outro signo que, além do trabalho, aparece nos poemas. A vivacidade dos temas e das imagens e vida, expressada através da poeticidade das rimas, respondem a uma pergunta que me fiz no decorrer do ensaio: a criança e o pré-adolescente de hoje, ainda que não sejam os mesmos daquela época, podem ser destinatários leitores de Bilac.
Na imagem do trabalho e suas relações, portanto, estão a idéia de sociedade, de progresso, de ética e de civismo. Percebo aí, longe de quaisquer determinismo, uma configuração da mentalidade daquela época. Dito de outro modo, a imagem de uma sociedade positiva e possivelmente desejada por Bilac, desejo esse também presente em suas crônicas, como a de 1907, antes descrita. A natureza, a justiça, o tempo, a religião, o homem e a pátria estão intimamente relacionados, de forma metonímica, como “parte de”, e metafórica, representado pelo trabalho. A educação e o combate ao ócio são temas que Bilac levanta para debate, adaptados à linguagem infanto-juvenil. O príncipe poeta-ourives-formiga-lenhador interessa-se pela educação, mas nem por isso, ainda que de forma encomiástica, deixa de prezar pela forma. O “poético da poesia” de Bilac, assim, revela-se no detalhe e na visualidade de seus poemas, preocupados com o País, mas, principalmente, com seu ofício. Por tudo isso, entendo que a imagem e/ou o signo do trabalho nas poesias do autor são, dentre outras coisas, uma medida de sua época, uma medida de sua arte. Se atravessam os anos e chegam até aqui, seculo XXI, podem ser vistas, quem sabe, como medidas do tempo, do leitor, da literatura.
Notas
1. DIMAS, Antonio. Bilac, o jonalista. São Paulo: EDUSP, 2006. V2. p. 107- 108. p. 108.
2. DIMAS, Antonio. Bilac, o jonalista. São Paulo: EDUSP, 2006. V2. p. 107- 108. p. 108.
3. DIMAS, Antonio. Bilac, o jonalista. São Paulo: EDUSP, 2006. V2. p. 107- 108. p. 107.
4. DIMAS, Antonio. Bilac, o jonalista. São Paulo: EDUSP, 2006. V2. p. 107- 108. p. 108
5. BILAC, Olavo. Poesias infantis. São Paulo: Empório do livro, 2009. p. 11.
6. Ibidem, p. 11.
7. Ibidem, p. 11.
8. Ibidem, p. 11.
9. Ibidem, p. 11.
10. Ibidem, p. 11.
11. Ibidem, p. 11.
12. CHEVALIER, Jean, GHEERBRANDT, Alain. Dicionário de símbolos. Mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução: Vera da Costa e Silva [et al.] 18ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003. p. 447.
13. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 35.
14. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 34.
15. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 35.
16. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 17.
17. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 17.
18. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 17.
19.CHEVALIER, Jean, GHEERBRANDT, Alain. Dicionário de símbolos. Mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução: Vera da Costa e Silva [et al.] 18ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003. p. 67.
20. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 38.
21. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 41.
22. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 41.
23. TREVISAN, Armindo. Vamos aprender poesia?. AGE: Porto Alegre, 2008. p. 36.
24. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 48.
25. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 48.
26. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 49.
27. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 51.
28. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 51.
29. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 54.
30. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 76.
31. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 80.
32. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 80.
33. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 80.
34. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Empório do Livro: São Paulo, 2009. p. 80.
Referências
BILAC, Olavo. Poesias infantis. São Paulo: Empório do livro, 2009.
CHEVALIER, Jean, GHEERBRANDT, Alain. Dicionário de símbolos. Mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução: Vera da Costa e Silva [et al.] 18ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
DIMAS, Antonio. Bilac, o jonalista. São Paulo: EDUSP, 2006. V3.
TREVISAN, Armindo. Vamos aprender poesia?. AGE: Porto Alegre, 2008. Voltar ao sumário
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