Volume 1 Número 315.07.2008
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434

Volume 1 Número 3


O Prazer da Poesia de Marina Colasanti

Annete Baldi



Marina Colasanti
recebeu em maio deste ano o Prêmio FNLIJ de Melhor Livro de Poesia para Minha ilha maravilha. A obra, editada em 2007 pela Ática, reúne 35 poemas. E também neste ano ela acaba de publicar um outro livro de poesia para o público infanto-juvenil chamado Poesia em 4 tempos, pela Global. Transita por diferentes gêneros, escreve para adultos e crianças e declara que treinou a poesia na prosa.

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TIGRE AO ESPELHO - Publicaste 2 livros de poesia em edição para crianças recentemente, depois de uma longa produção de contos de fadas que não consideras exatamente “infantis”. Como se deu essa produção de poemas? 
MARINA COLASANTI - Lenta. Demorei alguns anos trabalhando este livro. Toda poesia é, pelo menos para mim, trabalho, sedimentação, polimento. Mas nesse caso, precisei achar caminhos novos, diferentes da minha poesia para adultos. Eu queria mais humor e menos ironia, jogo, brincadeira verbal e temática, e isso tudo sem perder a seriedade. O desafio era fazer um livro divertido mas de conteúdo.
 
TE - A sonoridade é um dos elementos que se destacam na tua poesia. Usas diferentes combinações de rimas e optas por diversos “desenhos” sonoros de versos para compor as estrofes. Claro que o resultado é uma grande variedade de ritmo na leitura. Como constróis o poema? Pensas nesse tecido sonoro separadamente? 
MC - Meu primeiro guia é meu prazer. Sigo meu desejo, contido em uma idéia inicial que será minha cúmplice, me dirá como quer ser construída. Em obediência aos desejos da idéia posso seguir rumos muito diferentes. Rima e métrica são para mim outro diferencial em relação à poesia adulta, em que não exijo nem uma nem outra. Para crianças, porém, são extremamente propícias. A rima é como uma escada rolante, uma palavra conduz à sua semelhante - como os degraus que se desdobram- gerando um "crescendo" do poema. Mas boa parte do jogo da rima reside no inesperado. Quando a rima é previsível, ou seja, quando a poesia fica presa a um repertório de rimas premeditado - e reduzido -, perde-se o efeito surpresa, a cerejinha do bolo. 

TE - Como explicas essa característica da literatura de trazer idéias e imagens à tona através de antíteses, de contrastes e de paradoxos (como se pode ler nestes versos a seguir)?
Carregando na mochila/o supérfluo e o necessário/todo estudante/parece primo distante/do camelo ou dromedário. (“Corcova, uma ova”, in: Minha ilha maravilha)
Tudo tem seu tempo e hora/uns no tempo de ficar/outros no de ir embora. (“Tudo tempo tem”, in: Minha ilha maravilha )
A morte não é feia/nem bonita./A morte é onde a vida/põe um ponto./Um ponto/de partida. (“Pondo o ponto”, in: Minha ilha maravilha )
MC - Se não fosse pretensioso, diria que é uma forma de sabedoria. Mas podemos creditar ao tempo, já tenho idade suficiente para saber que a verdade única não existe, que tudo pode - e deve - ser visto por mais de um ângulo, que as coisas são elas mesmas e seu oposto. Além disso, sou libriana, é da natureza do meu signo pesar tudo nos dois pratos da balança, procurar, através de um pensamento plural, a justiça. 

TE - O “tempo” é um tema caro aos poetas e, claro, recorrente em tua obra. Em vários poemas de Minha ilha maravilha e especialmente em Poesia em 4 tempos abordas essa questão. Como imaginas que o leitor criança ou não lê esse “tempo” que é do outro?
MC
- Como a criança lê o tempo, não sei. Aliás nunca sei como as pessoas lêem as coisas, porque cada um lê a seu modo. O que, sim, sei com certeza absoluta é que o tempo é importantíssimo para as crianças, que têm ânsia de crescer e medo da velhice, e sabem desde o primeiro suspiro que o tempo traz a morte. Na infância estamos mais atentos ao tempo do que na juventude, quando nos iludimos de ter alcançado um patamar quase estável. 

TE - O teu processo de criação passa pela contemplação e pela observação de coisas simples (tu já disseste que a poesia está também “vestida de chita”) como se pode ler nestes dois poemas a seguir. Como é o teu “tempo” para escrever, para criar?
Debaixo da pedra/a cobra enrolada./Em cima da pedra/a lagarta listrada./Ao lado da pedra/calada/a poeta. (“Pedra para três”, in: Minha ilha maravilha)
Às vezes/como as ovelhas/vou de cabeça baixa/pelos pastos/procurando entre gramas/uma esmeralda/um ovo/ou apenas uma idéia. (“Ou apenas”, in: Poesia em 4 tempos)
MC - Não existe um "tempo" para criar. Cria-se o tempo todo, com o olhar, com o desejo, com a observação. Observar é talvez o maior prazer humano, porque é constante, livre, grátis, e inesgotável. É a partir da observação, que o cotidiano se transforma em traço, forma, nota ou palavra. Criamos, para dar uma concretude à observação. 

TE - Quando ilustras teus próprios textos, como se interpõem essas duas formas de “imagens”: a que vem das palavras e a que vem dos desenhos?
MC
- É sempre um processo complicado, porque, ao contrário da maioria dos ilustradores, não penso ilustrado. Ou seja, o que tenho na cabeça quando escrevo não são imagens gráficas, é a realidade. Uma realidade que, embora fictícia, eu vejo, porque estou dentro dela. Depois, na hora de ilustrar - que acontece sempre muito depois de ter entregue o texto à editora- tenho que sair daquela realidade e procurar outra, meramente gráfica. E, uma vez que já narrei no texto o que queria narrar, esta forma tem que ser o menos narrativa possível. 

TE - Qual a diferença para ti entre ilustrar narrativa e poesia?
MC
- Ilustrar poesia é bem mais complicado, porque a poesia é produto fechado em si, completo, redondo, não precisa de mais nada ( estamos falando de boa poesia, é claro). Acrescentar-lhe qualquer coisa é um perigo. Então, que seja apenas um aceno, um toque, um elemento gráfico que sequer precisa estar ligado diretamente ao poema, basta que remeta ao universo do livro. 

TE - Qual a tua definição para “a boa poesia para crianças”?
MC - Não pretendo ter essa definição. Espero, porém, ter dado aqui alguns elementos constitutivos dessa resposta ou, pelo menos, daquilo que busco para a minha poesia destinada aos mais pequenos.

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Publica artigos sobre algum aspecto particular da poesia para crianças. Editores: Sérgio Capparelli, Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini.

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Contribui com discussões sobre o fazer poético mais amplo, em que a ilustração ou design se institui enquanto uma das vozes importantes da interlocução entre autor e leitor. O espelho apresentará autores ou ilustradores nacionais e estrangeiros, falando sobre seu trabalho, em entrevistas ou depoimentos. Editora: Annete Baldi

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