Volume 4 número 115.11.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434

Volume 1 Número 1


Um byte-cafezinho digitalizado com Angela Lago

Miguel Rettenmaier, UPF
doutor em Teoria Literária pela PUCRS,  coordena o mestrado em Letras da Universidade de Passo Fundo, onde também é professor. Desenvolve projetos de pesquisa na linha de Leitura e Formação de Leitor. Neste número de Tigre Albino ele discute o trabalho da ilustradora  Angela Lago e de que forma ela expandiu sua criatividade para dentro das poéticas digitais.
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Três coisas, de alguma forma associadas, estão completamente imersas nas ondas de dúvidas acerca da sociedade globalizada dos novos tempos: a literatura, a leitura e a escola. A primeira, a literatura, surgiu como questão já nos primórdios do pensamento clássico e do descritivismo aristotélico; a segunda, a leitura, tornou-se problema mais recente, culturalmente reconhecido, quando se inventou a tal da moderna sociedade burguesa; a terceira coisa, a escola, foi socialmente erigida, tal como a conhecemos hoje, quase junto às questões envolvendo a leitura e sua valorização nas práticas pedagógicas. Entre elas, a literatura, a escola e a leitura, a modernidade fundou, em suas origens, um grande projeto político e social; entre elas, a atualidade apresentou as cisões de uma transação que, possivelmente, nunca tenha chegado, principalmente em países sócio-economicamente periféricos, a ser muito bem realizada. 

De alguma forma, escola e leitura faziam parte de um mesmo projeto de constituição de um modelo social. A instrução para todos seria garantida pelo contato com os livros, e esse contato teria como espaço privilegiado a sala de aula. Ali, ou lá, nos bancos escolares, pela via do ato de ler, o jovem seria iniciado nos manjares da alta cultura, no conhecimento das maravilhas da arte literária. Nesse sentido, leitura-escola-literatura estavam, ou deveriam estar, como que em um mesmo plano contínuo de referência. E digo “deveriam estar” porque, pelo que parece, a escola, principalmente no Brasil, não conseguiu mediar ou unir as duas pontas da leitura e da literatura. Observados quantitativamente a coisa, mesmo que sem números precisos, é impossível não diagnosticar que haja um desequilíbrio entre os milhões de sujeitos que estiveram ou que estão nos bancos escolares e as tiragens mínimas de cada livro que sai das editoras (principalmente obras literárias); é inevitável contatar a discrepância entre o que a escola apresenta como alfabetizados e o que a vida mostra como seriamente iletrados (principalmente em literatura). Tudo isso leva a crer que o plano contínuo de referência entre leitura-escola-literatura foi mais uma ilusão do que uma realidade atingida e que a escola frustrou-se na tentativa de proporcionar a seus jovens preparo suficiente para fruir dos tais manjares da cultura.  E essa conclusão cada vez mais se formaliza no momento em que mais uma coisa ronda esses três elementos que deveriam estar intimamente relacionados: a informática.

Evidentemente que o papel da informática nesse jogo de três participantes ainda não foi definitivamente esclarecido. A escola, em sua posição de mediadora por excelência entre leitura e literatura, ainda vê o computador como uma ameaça, como um jogador que se coloca na mesa visando um lugar que não deveria ser seu, um intruso no triângulo amoroso que, embora sempre problemático, pôde, em dado momento, ter atingido uma estabilidade relativa. De outra parte, a literatura (principalmente, na pessoa de seus autores) e a leitura (na figura de seus leitores) parecem não concordar que não cabe mais ninguém no jogo. Pelo contrário, cada vez mais os leitores e os escritores tendem a não prescindir do computador para viver. Na ponta dos escritores, Angela Lago parece estar “muito bem obrigado” com as inovações tecnológicas.

Palavra e ilustração
A autora tem uma sólida posição dentre as mais criativas personalidades da literatura infanto-juvenil, principalmente por associar inventivamente a palavra à ilustração, conferindo a segunda não valor de um complemento elucidativo ao conteúdo verbal, mas por ter um conteúdo autêntico associado à palavra escrita, esta também, em sua obra, muitas vezes convertida em um enunciado visual, em imagem. Em mais de um livro da autora, a ilustração se integra à linguagem verbal, a qual por sua vez se integrar aos enunciados não verbais (ou visuais) em um procedimento que resulta em uma duplicação da leitura, como no texto (ou nos textos?) que (integrados?) compõe(m?) Chiquita Bacana e as Outras Pequetitas. Nesse livro, de 1986, o texto verbal aparece dentro do desenho de um livro e em folhas soltas e espalhadas pela casa, sugerindo que, por trás das páginas reproduzidas e contendo os versos, esteja um enunciador sobreposto à personagem narradora. O efeito disso, segundo Regina Zilberman, “duplica a ação, pois, à personagem que conta seus medos e confronto com as invasoras comandadas por Chiquita Bacana, soma-se o sujeito que lê o livro materializado pelas ilustrações”1. O resultado seria, então, “o paulatino descolamento do leitor em relação à narradora original, facultando que aquele usufrua livremente as cenas cômicas proporcionadas pela obra” 2. 

O livro, porém, mais do que narrar pela via da linguagem, associa à linguagem verbal a abertura do que hoje conhecemos como janelas, as quais simulam páginas de livros e folhas soltas, como interfaces gráficas que colocam em discussão mesmo o texto que se encontram. Nesse sentido, essas janelas funcionam como uma espécie de metatexto, como um tipo de elemento auto-referente. Nesse processo auto-referencial, o conteúdo verbal das “janelas”, que contam a história, tem em si a potência de uma espécie de explicação ou comentário sobre o que as imagens em seqüência oferecem como conflito narrativo. De alguma forma, em Chiquita Bacana e as Outras Pequetitas, a parte verbal, inclusa em uma janela que simula páginas de livros e folhas espalhadas pela casa, dobra-se sobre as ilustrações em encadeamento narrativo. O resultado disso é que a riqueza semântica do texto se estabelece na conjunção e na linkagem de distintos códigos, em diálogo e entrechoque, em nome de novas possibilidades interpretativas. Mídias distintas em diálogo e auto-referência: eis as bases, em 1986, do hipertexto digital do século XXI.    

As novas possibilidades desenvolvidas em livro de papel por Angela Lago, na associação criativa entre distintos códigos, permite antever que anos depois a autora não se importaria com o fato de que “sempre cabe mais um” no antigo jogo da literatura com a leitura e a escola, ao ingressar criativamente no mundo informático-mediático com uma página, www.angela-lago.com.br. Seu trabalho artístico daria, assim, mais um passo na direção dos novos tempos nos quais novas pontes parecem estar se desenvolvendo entre os leitores e o texto literário.

O byte-cafezinho
A página de Angela Lago se abre após um download criativo, executado em um software Flash, que brinca com uma contagem crescente de um a quatro. Nessa animação, os números ganham vida como, por exemplo, o número dois, que imita um cisne e beija o número um, de óculos, e o quatro, que na forma de um sapo bota todos os demais números a correr, permitindo a abertura da página com os demais links. Somam-se aos movimentos permitidos pelo Flash recursos sonoros que acompanham o ingresso de cada personagem enquanto a página “carrega”.

Figura 1: A página “carrega”...

A página principal do site mantém, após o download, o mesmo padrão como enquanto carregava. Há uma grande moldura vermelha ao redor do quadro central da página, de cor negra, que se apresenta à disposição de vários cliques de mouse. Um recurso interessante é o ingresso, devidamente cantarolado por uma voz infantil, da personagem Chapeuzinho Vermelho, que, à direita, abaixo, caminha de um lado a outro.


Figura 2: Página principal.

Na parte superior da página, há três links em três idiomas (português, espanhol e inglês) que se abrem a páginas secundárias. O link da esquerda é destinado às obras da autora. Nele, as palavras libros, livros e books se convertem em um ícone animado que, antes mesmo de ser acionada pelo cursor do mouse, simula o movimento das páginas de um livro aberto. Destinada à obra da autora, essa página apresenta uma “amostra grátis” de alguns livros, dando uma idéia do conteúdo e da construção formal das publicações. Preservando as possibilidades do hipertexto, a página enriquece algumas das ilustrações dos livros com sutis recursos de movimento. Vale tudo, de alguma maneira, para se chamar atenção ao texto em papel e códice.

O link no meio da tela, na parte superior, é destinado à apresentação da autora. O nome Angela Lago, todo em letras minúsculas, dentre as denominações “algelita-del-lago” e “angel lake”, produz um ícone que se anima pela proximidade do cursor e se converte em um pequeno anjo, feito como um boneco de “pauzinhos” desenhado com giz, que é “mergulhado” nas águas de um lago estilizado pelo mesmo traçado em giz. O clique nesse ícone permite a seguinte visão:


Figura 3: Sobre a autora.

A apresentação da autora, em três idiomas, não se dá pela tradução de apenas um conteúdo. O texto em português menciona o local de nascimento da autora, e seu nome (“esse diabo de nome” que dá trabalho à autora), e suas atividades artísticas, desenvolvidas ou em fase de aprendizado (a escritora declara estar aprendendo violoncelo). O texto em inglês, em um novo conteúdo, de alguma forma mais politizado, fala do local de nascimento da autora e “linka” essa informação à condição do Brasil de explorado, no passado, por outras potências, embora afirme que o país ainda tenha outras riquezas. O texto em espanhol refere-se à condição latino-americana da autora, aludindo à dureza e à ternura guevariana e estabelecendo, na informação sobre a rua onde a autora vive, sua vocação de contadora de histórias. A página, que conta com a assinatura da autora sob o texto em português, apresenta, ao centro, uma ilustração que se anima pela proximidade do cursor. Ao som de um naipe de cordas, lápis coloridos saem da lente da uma máquina de fotografar que se apresenta na imagem. Um novo clique faz surgir o anjo candidamente endiabrado que segurava a máquina de fotos:


Figura 4: O anjo endiabrado...

O site de Angela Lago ingressa na discussão que abre esse artigo sobre as problemáticas relações entre leitura, literatura e escola no link à direita da tela da página principal, na parte destinado aos professores. De alguma maneira, essa abertura para os educadores aponta que literatura, em especial infanto-juvenil, mantém no hipertexto o tradicional encaminhamento de introduzir-se na escola, pela via de uma aproximação com os supostos mediadores de leitura.  Assim, para Angela Lago, não há problema em “reformatar” o triângulo leitura-literatura-escola com a inserção na cibercultura, como se demonstra no ícone “maestrosprofsteachers”, que, no contato com o cursor, se transforma em um representativo (e tradicional) par de óculos. A janela que se abre desse clique é significativa. Nela, em um traçado similar à garatuja, um anjo desenhado puxa uma cadeira e oferece ao seu leitor, o professor,  o que supostamente seja um café.


Figura 5: Recepção ao professor, um “byte-cafezinho”.

A continuidade desse encontro entre autor e leitor, em fins específicos que estão em conformidade com o leitor específico, aponta para a condução dessa conversa no sentido que se sejam “servidas” ao professor toda e qualquer informação sobre a autora: comentários(em inglês), fotos, bibliografia (em inglês e português), uma “oficina”, de caráter informativo, tratando sinteticamente da relação entre a criança o livro e a narrativa, na qual se dedica a última parte ao tema “Poesia e Internet”, além de outras informações sobre a autora, como seu e-mail. Há, ainda, alguns artigos de Angela Lago sobre a literatura, a formação do leitor e o computador.


Figura 6: Ao mestre, com carinho...

A perspectiva é clara no que se refere às informações que se acionam no clique em “artigos”. A escritora, que já demonstrava desde antes explosão da Internet o interesse em conjugar imagem e texto verbal, parece didaticamente oferecer ao professor as informações básicas que apontem para a necessidade de utilização criativa e pedagógica do computador na era digital não linear:

A possibilidade de leitura não linear e o recurso de códigos simultâneos estão explodindo numa nova revolução da comunicação, que ainda não podemos avaliar. Apenas começamos a compreender que a descentralização do olhar que acontece na Internet é resultado de uma nova leitura do mundo. A "perspectiva afetiva" utilizada pelos iluministas da Idade Média, foi substituída pelo corte fotográfico da perspectiva renascentista, como se houvesse sido descoberta a representação perfeita. Todo o século XX se dedicou a procurar novas perspectivas, novas maneiras de olhar o mundo que não a fotográfica, como num prenúncio da era digital. Agora percebemos que de fato a perspectiva “científica” da Renascença era apenas mais uma possibilidade de representação. É uma moldura que enquadra e limita o olhar. A tridimensionalidade do espaço virtual, o tempo simultâneo, a transparência no desenho dos micros e macros universos, são veios de uma nova possibilidade de enxergar o mundo. Um mundo não linear. As crianças parecem à vontade com esses veios. Talvez os artistas mais uma vez as acompanhem. 3 

O site de Angela Lago, adaptando-se às exigências de um leitor particular, em um novo objetivo de sustentação discursiva, nesse link, converte-se em instrumento de auxílio ao professor. Em um encaminhamento muito semelhante aos antigos manuais pedagógicos, embora enriquecido por possibilidades hipertextuais, Lago manifesta explicitamente a referência de seu trabalho como escritora, ensinando também sobre a literatura para crianças e sobre a riqueza das novas tecnologias de leitura. A abordagem de Lago, é fundamental que se diga, ainda é a de uma escritora de livros, que vive de suas publicações e que, portanto, os valoriza como verdadeiro suporte de leitura:

Por certo, o que há de melhor na Internet é que ela se tornou uma grande livraria. Segundo alguns, a Livraria com maiúsculas, onde se encontra qualquer coisa que se procure. Exagero? Pode ser. O fato é que venho encontrando catálogos e mais catálogos de livros. O Cyber-monstro é enorme e com muitas cabeças. Num conto, seria o terror absoluto: não conseguimos enxergar onde começa ou termina.
Minha impressão é que a gente se relaciona com a Internet como os cegos da parábola oriental. Apreciamos o elefante e o descrevemos como sendo o pedaço que nossa mão toca. Eu apalpo a terceira unha da pata esquerda de trás e algumas vezes fico irritada: parece pesada. Navegar soa leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade (as propostas de Calvino para o novo milênio). E por enquanto, na maioria das vezes, os sites da Internet estão muito longe disso.
Vou percebendo como, em relação ao livro, o computador já não me interessa tanto.
4  

Lago, nesse momento de avaliação, quando refere e comenta exatamente o meio no qual se expressa, em uma atividade de alguma forma meta-textual, sujeita toda as possibilidades do hipertexto à riqueza do livro. É ele o que realmente vale, e nesse encaminhamento, o alvo dessa consideração é um componente ainda importante no mercado editorial: o professor. Essa postura, contudo, está deslocada do leitor para o qual a maior parte do tempo seu site encontra-se planejado: o leitor do futuro, a criança, o que se demonstra já no download da página. Além disso, em todas as páginas secundárias, seja no link que remete às obras, seja no que apresenta a autora, seja do que se destina aos professores, há, exatamente no espaço que corresponderia o link acessado na página principal, um link destinado às crianças, em um ícone “niñoocriançachild” que, animado pela brincadeira de “is” que arremessam seus pontos entre si, novamente traz ao leitor a página principal. Tais itens são, essencialmente, brincadeiras com as palavras, com sons, com imagens, com os movimentos hipertextuais da tela. 

Em uma delas, no lado direto, à meia altura, uma nave intergaláctica, no link “ciberespacinho” ou “my old htmh site”, dá acesso a um diálogo com pequeno ser que, dançando sobre um minúsculo planeta Terra, no qual gira uma pequena casa, se propõe, em mais de uma língua, a desafiar seu leitor. Em um jogo de escolhas entre mãos contendo uma surpresa e em uma conversa de racionalidade e nexos livres, o proponente do jogo, um extraterrestre desafiador, acaba por apagar a si mesmo, o que coloca em diálogo com o leitor a pequena casinha na Terra, até então silenciosa. É ela que, retribuindo a ajuda por ter sido libertada, irá, enfim, propor brincadeiras:

Oba!Viva!
Você me salvou !!!
Fiquei livre do carinha...
Você merece um presentão!
Você gosta de o que é o que é?
Ou quer brincar um pouquinho?
Uma... rumba- catacumba ?
O relógio da catacumba?
Um tangolomango ?
Umas rezas?

 


Figura 7: Brincadeiras de um mundo livre...

As brincadeiras, a partir daí se diversificam. Há adivinhas conhecidas, com respostas em anagrama, que introduzem outras, inventadas pela autora e que trabalham fundamentalmente com a linguagem verbal, em especial no aspecto ortográfico e fonético. Em outra brincadeira, “Rumba-catacumba”, o leitor é desafiado a contar caveirinhas que dançam. No processo de interação entre o leitor e o texto do desafio, o acerto ou o erro das opções levam a diferentes mensagens, nas quais  sobressai a sonoridade das palavras, presente desde o enunciado do desafio e que, aliás, ajuda a criança na resposta ao problema na rima da palavra “trinco”:


Figura 8: Contado caveirinhas ao som de poesia...

Em moldes semelhantes, o “Relógio da catacumba” associa interação, linguagem lúdica e imagem em um processo criativo de contagem numérica. “Tangolomango dos ets”, também um jogo matemático com rimas, assemelha-se mais à literatura impressa, por oferecer pouca interação, embora se abra à possibilidade de participação dos leitores na criação e publicação de seu próprio “tangolomango”. Da mesma forma, as três rezas propostas ao final, sem proposta interativa, centralizam na leitura a brincadeira proposta, afinal, ler, sem clicar, também pode ser divertido:


Figura 9: Uma boa oração nos dias de sempre...

O caráter intensamente interativo associando imagens e sons aparece no retorno à página principal do site de Angela Lago, no “Terror game”. O jogo, na realidade uma narrativa interativa, propõe um conflito envolvendo o leitor e as seguintes personagens em um ambiente escuro, iluminado apenas por uma vela: um esqueletinho humano dançarino, o esqueleto de um cão cantor, um rato e um monstro escondido em um piano cheio de morcegos, todos eles fonte de distintos estímulos sonoros ao coque do cursor. Abaixo, no chão, um pequeno papel com um desenho dá a pista de quem será o agente do primeiro conflito: um rato, que acionado pelo mouse, atacará o esqueletinho, será comido pelo cão e, posteriormente, será levado pelo leitor, com o mouse, para dentro do piano, onde está o monstro – para felicidade de todos. 


Figura 10: Uma história de terror.

O segundo conflito mostra-se pela permanência de um som perturbador e por outro desenho no chão, à esquerda representando um cão. A trama redundará, pelos acionamentos do cursor, no conflito entre o esqueletinho humano e o cão, e na posterior solidão daquele que dança no escuro, conforme sejam acionadas, pelo mouse, as teclas do piano arruinado.


Figura 11: O esqueletinho que dança...

Em dado momento, porém, inadvertidamente, o leitor clicará no esqueletinho, em um final surpreendente à história: nesse momento a personagem perceberá que está sendo observada por alguém e fugirá, com seu cão, aterrorizados ambos.
 

Figura 12: O leitor é visto!

No lado oposto da tela da página principal, narrativa similar, conjugando imagens e sons, envolve uma personagem conhecida das crianças, a Chapeuzinho Vermelho. Na narrativa interativa proposta por Lago, cabe ao leitor decidir qual o caminho da jovem protagonista, o em linha reto ou o cheio de curvas. Dessa decisão ocorrerão fatos conseqüentes, de diferente constituição narrativa, em destinos distintos às personagens do conto tradicional, a protagonista, o lobo e a vovó. 


Figura 13: Você decide...

No retorno à página principal, o ABCD de Angela Lago, ou “brazilianABCbrasineño” abre uma nova página secundária que apresenta, em um quadro que joga com o nome da autora, histórias e jogos alicerçados na interação do leitor com letras, palavras e imagens e na audição das palavras e letras visualmente destacadas. Dentre as narrativas, “História para dormir mais cedo”, oferece “um era uma vez” que exige, na conclusão da história, a participação do leitor no sentido de organizar imagens e enunciados. Com o mouse, a partir de solicitações textuais escritas na tela e de pedidos sonoros feitos pela narradora-criança e pelas demais “bocejantes” da história, o leitor deve carregar cada personagem a seu respectivo lugar, sobre a palavra que a denomina. Após essa readequação, o texto se fecha, as personagens podem dormir mais cedo.



A página secundária ABCD ainda oferece jogos em que a interação se dá pela brincadeira com letras, com sons fonéticos na construção de palavras e na solução de enigmas. Dentre essas atividades, o jogo de adivinhas “A academia”, se encerra com a informação de que há mais há mais brincadeiras à espera do leitor no livro da autora ABC doido. Mesmo nas propostas de atividade, o livro é sempre apontado como um objeto à espera do leitor.

A leitura animada
Na realidade, a leitura é o fundamento que move toda a constituição da página de Angela Lago. Tomada em sentido amplo, conjugando decodificação alfabética e fonética, compreensão e interpretação de enunciados enigmáticos, de passagens e efeitos musicais e sonoros, de objetos animados em Flash, a leitura no site da autora é uma atividade que associa códigos com objetivos distintos, em conformidade com a proposta de cada enunciado verbal, sonoro ou visual. Nessa amplitude de tantas variáveis, a leitura da literatura surge como um ponto a se atingir. Assim, aparece transfigurada em narrativa interativa estabelecida no encadeamento ficcional mediado pela imagem e pelo som, como no caso do “Terror Game”, no qual o leitor anima as personagens com o cursor, ou na versão interativa da história de Chapeuzinho Vermelho, na qual cabe ao leitor decidir o destino da protagonista. Surge, também, como construção narrativa verbal associada à animação visual em “História para dormir mais cedo” em uma dinâmica na qual é papel do leitor readequar as palavras a seu sentido. De qualquer forma, principalmente nesse último tipo de narrativa interativa, pela necessidade imprescindível do texto verbal, Angela Lago, propondo o que parece ser um tipo de narrativa hipertextual, estabelece, pela via central da palavra escrita associada a múltiplos códigos, uma correlação entre as instâncias que compõem a narrativa, o narrador, as personagens e o leitor, no que parece apontar para a tentativa de maravilhar pela palavra, de seduzir pela história multimidialmente contada. Se o que ela oferece talvez não possa ser chamado literatura, e para a literatura e os livros que está direcionado o hipertexto da autora.
Assim, embora subrevenha a cibercultura, o livro está lá fora, esperando ou o jovem leitor que se envolve ludicamente na leitura interativa da página de Ângela Lago, ou o professor que procura referências sobre a autora e recebe, “de brinde”, informações sobre a leitura hipertextual não linear, sobre a leitura e o livro, sobre a importância da leitura para as crianças e sobre os títulos publicados pela autora. Objeto concreto, mercadoria vendável, o livro ainda é o objeto por excelência do texto literário, ainda é a página de papel o meio mais adequado à literatura. Apesar da riqueza de possibilidades das linguagens da hipermídia, a palavra artística ainda precisa do códice para existir, seja por ainda não haver um domínio completo por parte dos escritores das técnicas digitais (o que não é o caso de Ângela lago), seja por estar na venda dos livros a receita que faz sobreviver a arte literária. Contudo, a literatura (na pessoa dos escritores, que não são bobos nem nada) não está de costas para a cibercultura. Pelo contrário, parece querer fazer do hipertexto um novo componente que talvez aproxime os livros da vida dos sujeitos, em um procedimento mais criativo do que os de outrora, de exclusividade da escola. No rolar do tempo e das circunstâncias, a vida parece fazer crer que a escola já não é, se um dia foi, o mais atraente link entre a literatura e as pessoas. E se isso já é verdade, é hora da escola hipermediar-se e de os educadores aceitarem o byte-cafezinho dos escritores que gentilmente mostram, nas tradicionais prateleiras, seus livros publicados.

Notas
1) ZILBERMAN, Regina. Como e Porque Ler Literatura Infantil Brasileira. São Paulo: Objetiva, 2005. p. 162.
2) Idem. Ibidem. p. 162.
3) LAGO, Angela. O códice, o livro de imagem para criança e as novas mídias. Disponível em http://www.angela-lago.com.br/codice.html. Acesso em: 31 de outubro 2007.
4) LAGO. A. O computador e o livro. Disponível em <http://www.angela-lago.com.br/aulaComput.html>. Acesso em: 31 de outubro de 2007

Referências
ZILBELMAN, Regina. Como e Porque Ler Literatura Infantil Brasileira. São Paulo: Objetiva, 2005.
LAGO, Angela. Chiquita Bacana e as Outras Pequetitas. Editora Lê, Belo Horizonte, 1986.
www.angela-lago.com.br

 

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