Volume 4 número 115.11.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434

Volume 4 número 1


Poesia em cena

Elizaberth d’Angelo Serra

Hélen Queiroz nasceu em Minas Gerais, em 1971, e vive no Rio de Janeiro desde 2004. É mestranda em Educação na UFRJ, atua como professora ministrando oficinas literárias para crianças e adolescentes, ministra cursos para professores, é poeta e contista. Professora há 23 anos, trabalhou, em Minas Gerais, em escolas municipais, estaduais e particulares e, no Rio de Janeiro, lecionou na Escola Parque de 2004 a 2009. Atualmente, ministra oficinas poéticas em escolas públicas de Maceió, AL, e promove o “Sarau Aberto”, para crianças e adolescentes no Rio de Janeiro, RJ.

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“ Todo homem bem de saúde pode passar
sem comer durante dois dias –
sem poesia, jamais.”
Charles Baudelaire

 

Há décadas, a poesia tem sido minha vertente literária preferida e também importante aliada no exercício do magistério, pois além de se fazer presente em meu ofício cotidiano da escrita, tem sido instrumento importante nas aulas de literatura que ministro para crianças, adolescentes e professores em formação continuada.


Seja em Minas Gerais, no Rio de Janeiro ou Alagoas, ela é sempre meu melhor trunfo para sensibilizar alunos ou professores e aproximá-los do universo literário. Como a poesia é uma possibilidade de “voar fora da asa”, como afirma o poeta Manoel de Barros, ela pode levar seus leitores a lugares ainda não visitados. Conhecer o país através de seus grandes poetas é uma viagem irresistível para aqueles que, por diversos motivos, não tiveram acesso a esse gênero literário nem sempre privilegiado na escola ou pelos meios de comunicação mais próximos da população, como a televisão, por exemplo.


Em Minas Gerais, no início dos anos 1990, quando aos 20 anos me descobri capaz de tecer versos para expressar opiniões, desejos e vivências, percebi que a poesia poderia ajudar não só na alfabetização dos meus alunos, como já defendiam alguns autores importantes da época, como também seria elemento fundamental para fazer com que meus alunos gostassem de ler!


Por ser o poema um texto lúdico, que brinca com a sonoridade, a forma e imagens metafóricas, ele é apreciado pelo público infantil e possibilita momentos de leitura em sala de aula bastante divertidos e envolventes. Quando constatei que a estratégia de levar poemas de autores brasileiros que se dedicaram ao universo infantil funcionava (e muito!), passei a organizar saraus e eventos de poesia nas escolas onde trabalhei em minha pequena cidade de Minas, Carangola.

Roda de Poesia em Maceió, AL.
Escola Municipal
Aduval Amélio
Roda de Poesia em Maceió, AL.
Escola Municipal
Aduval Amélio


E não foi diferente quando, em 2004, cheguei ao Rio de Janeiro para compor o corpo docente da Escola Parque, primeiro na Barra e depois na Gávea, onde por muitos anos, fui professora de turmas de 4º e 5º anos. Por ser uma escola que privilegia o trabalho com a literatura, não foi difícil realizar lá projetos literários. Em um evento chamado Feira do Livro a produção literária das crianças era apresentada em forma de livros coletivos das turmas. Entre contos de encantamento, suspense e aventura, fiz com que os livros de poemas estivessem sempre presentes nesse grande evento. Para complementar o trabalho, preparava um sarau com os alunos para ser apresentado aos pais e visitantes que se encantavam com as crianças entre 9 e 11 anos lendo poesia. Além de lerem autores consagrados também apresentavam seus poemas escritos durante as aulas de literatura e expostos nos livros durante a feira.


Atualmente, tenho viajado ao nordeste para realizar oficinas poéticas com crianças e professores de escolas públicas em Maceió, um projeto que tem o apoio do Tribunal de Justiça de Alagoas. Experiência rica e transformadora para todos nós envolvidos no processo. Os professores, além de vivenciarem todas as etapas das oficinas poéticas realizadas com os alunos, recebem também informações teóricas que poderão ajudá-los no planejamento de um projeto pedagógico voltado para a poesia. Alguns teóricos da literatura infantil brasileira e pesquisadores sobre a questão da leitura literária na escola são apresentados e discutidos com o grupo docente.


Sarau para crianças -
Livraria Da Conde, Leblon
Rio de Janeiro

No trabalho com poesia em sala de aula, além de aproximar as crianças do universo poético levando para eles autores brasileiros como Cecília Meireles,Vinícius de Morais, Mario Quintana, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes, Elias José, Sérgio Caparelli, Roseana Murray, Leo Cunha, entre tantos outros, procuro viabilizar experiências com a poesia que vão além da leitura e apreciação. Explorar forma, rimas, aliterações, temas, metáforas, para depois, a partir de referências significativas, propor uma produção escrita coletiva ou individual, em duplas, trios ou grupos maiores, é uma das metas do trabalho. Os alunos ficam envolvidos com a possibilidade de escrever seus próprios poemas e isso os mobiliza para um trabalho coletivo. Trabalho este que viabiliza e sublinha a importância de aliar arte, ética e estética como nos aponta o filósofo russo Mikhail Bakhtin em seu livro “Estética da criação verbal”.


A publicação da produção dos alunos é também outra parte indispensável no trabalho com literatura; seja em livro artesanal ou em murais pela escola, pois se propomos a eles que escrevam é importante que sejam publicados e lidos. E, para que isso seja possível, um longo processo - que envolve produção escrita, revisão, edição dos textos, ensaios para o sarau e montagem do evento – deverá ser percorrido pelos alunos e professores envolvidos no projeto.



Escolhendo poemas para leitura...
Sarau para crianças, Leblon, Rio de Janeiro

Essas experiências bem sucedidas com poesia, ao longo de mais de 20 anos de magistério, levaram-me a pensar em algo fora dos muros da escola. Na tentativa de unir grupos sociais distintos através da literatura, venho promovendo, desde setembro de 2009, sarau para crianças e adolescentes em uma livraria da zona sul carioca. A proposta é reuni-los para dizer poemas, mas a música, companheira ancestral da poesia, também faz-se presente nos acordes dos violões e flautas das crianças que comparecem ao sarau. Inicialmente, apenas meus ex-alunos participavam dos encontros, mas, rapidamente, outros agregados e convidados especiais foram chegando, como os meninos e meninas coristas de uma comunidade de Vargem Pequena, zona oeste do Rio de Janeiro, que, vez em quando, aparecem para completar a nossa festa poética. Nos últimos encontros, propus uma campanha de doação de livros para montarmos uma biblioteca para essas crianças que são atendidas por uma associação espírita do bairro onde moram. Com sucesso, já arrecadamos muitos livros que, em breve, serão levados pelas crianças da zona sul à comunidade da zona oeste. A ideia é fazer com que, através da poesia, essas crianças tornem-se mais sensíveis à questões sociais como , por exemplo, a democratização de bens culturais.


Por acreditar na força transformadora da arte, tento levar a bandeira da poesia a quantos territórios forem possíveis. Seja na zona sul carioca, seja no sertão alagoano, seja entre as montanhas azuis de Minas, ou em qualquer outro lugar. Como Neruda, acredito que “a poesia é sempre um ato de paz”.




Bibliografia

BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BANDEIRA, Manoel. Berimbau e outros poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1994.
BELINKY, Tatiana. Um caldeirão de Poemas.São Paulo:Companhia das Letrinhas, 2003.
BARROS, Manoel. Poeminhas pescados na fala de João. Rio de Janeiro: Record, 2001.
CAPPARELLI, Sérgio. 111 poemas para crianças. Porto alegre: L&PM,2003.
CUNHA, Leo. Cantigamente. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.
COLASANTI, Marina. Minha ilha maravilha. São Paulo: Ática, 2007.
JOSÉ, Elias. Lua no brejo, Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
LIMA, Ricardo da Cunha. De cabeça pra baixo. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000.
LISBOA, Henriqueta. O menino poeta. Porto alegre:Mercado Aberto, 1984.
MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1990.
MORAES, Vinícius. A arca de Noé. Rio de Janeiro: José Opympio, 1975.
MURRAY, Roseana. Caixinha de música. Rio de Janeiro: Manati, 2004.
MURRAY, Roseana. Classificados poéticos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2004.
NEVES, André. A caligrafia de Dona Sofia. São Paulo: Paulinas, 2007.
PAES, José Paulo. Poemas para brincar. São Paulo: Ática, 1990.
PARREIRAS, Ninfa. Coisas que chegam, coisas que partem. São Paulo: Cortez, 2008.
PARREIRAS, Ninfa. Poemas do tempo. São Paulo: Paulinas.2009.
QUINTANA, Mario. Lili inventa o mundo. São Paulo: Global, 2005.
ROSA, Sônia. Palavras encantadas. Rio de Janeiro: Zit, 2005.
SOUZA, Angela Leite de. Três gotas de poesia. São Paulo: Moderna, 1996.
SOUZA, Angela Leite de. Meus Rios. Belo Horizonte: Formato, 2000.
SOUZA, Angela Leite de. Palavras são pássaros. São Paulo: Salesiana, 2006.
SOUZA, Angela Leite de. Um verso a cada passo. Belo Horizonte: Autêntica. 2009.
ZILBERMAM, Regina. A literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

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Contribui com discussões sobre o fazer poético mais amplo, em que a ilustração ou design se institui enquanto uma das vozes importantes da interlocução entre autor e leitor. O espelho apresentará autores ou ilustradores nacionais e estrangeiros, falando sobre seu trabalho, em entrevistas ou depoimentos. Editora: Annete Baldi

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