Volume 3 Número 215.03.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434




Da telenovela para os blogs: a construção de nova interface para o pensar literário

Jandi Fabian Barbosa, mestrando em Letras-UPF

O texto de Jandi Barbosa analisa as possíveis relações que podem ser estabelecidas entre os blogs e as textualidades literárias. Na combinação desse binômio, entre o que se representa, de um lado, como uma interface aberta de leitura e escrita e, de outro, o que é um produto esteticamente refinado, o autor introduz esta espécie de patrimônio cultural tão peculiar ao Brasil: a telenovela. Nessa perspectiva, lança algumas idéias de como poderia a literatura ser trabalhada em sala de aula, quando relacionada a contribuições do universo da informática de convergência e do que ainda se chama de comunicação de massa.

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“Por vezes à noite há um rosto
Que nos olha do fundo de um espelho.
E a arte deve ser como esse espelho
Que nos mostra o nosso próprio rosto”

Jorge Luis Borges

 

As novas tecnologias relacionadas com o mundo eletrônico apresentam constantes desafios para o educador. Conhecer de maneira apropriada o mundo dos jovens estudantes bem como suas formas de entretenimento, aquilo que lhes prendem a atenção, pode, com certeza, colaborar para um melhor rendimento dos alunos e ainda promover o interesse deles pelas aulas.


É imprescindível que o professor utilize-se dos recursos que as novas mídias, em especial a internet, oferecem para enriquecer as aulas, para que assim o conhecimento se torne mais prazeroso aos estudantes e mais próximo de suas realidades; uma vez que essas ferramentas multimidiais os jovens estudantes conseguem manusear com satisfação e facilidade.


Com o intuito de possibilitar essa interatividade buscou-se, neste trabalho, refletir sobre o fenômeno dos “Blogs”, os quais surgiram com a função de diário e, hoje, adquiriram um espaço bastante considerável dentro da rede e somam outras diversas funções dentro do plano social. Quando se fala em sociedade, mais precisamente “dos jovens" buscou-se mostrar o uso do blog como ferramenta para o conhecimento literário partindo da premissa do gosto do brasileiro por telenovelas. Assim, usaremos o caso do personagem “Tarso” da telenovela “global” Caminho das Índias, que sofre de esquizofrenia. A representação é feita pelo ator Bruno Gagliasso que utilizou de seu blog para levantar discussões sobre a doença em questão e para chamar a atenção para relação entre arte e loucura, colocando em sua página poemas e artigos de autores renomados da literatura. Essa interatividade entre literatura, internet e telenovela no blog permite a formação de uma grande rede de troca de informações e experiências que evidenciam o papel social da televisão, da internet e da arte.



O brasileiro e a telenovela


É realmente interessante como a TV brasileira ganhou terreno na vida e no cotidiano da nação nos últimos anos, advento esse impulsionado pelo crescimento do gosto pelas telenovelas.


O papel central que a TV assume no sistema cultural brasileiro é indissociável de seu principal produto: a telenovela – formato que agrega o maior número de telespectadores e é o negócio mais rentável da TV brasileira atual, além de ser responsável pela nacionalização da produção televisiva veiculada no horário nobre. (Reimão, 2000, p.524)



Reimão (2000) em seu ensaio “Telenovelas Adaptadas de Romances Brasileiros e seus Materiais Publicitários” apresenta um fator que vem ao encontro de uma reportagem que o ator Bruno Gagliasso coloca em seu blog para iniciar uma rede de debates. O ator apresenta em seu blog uma pesquisa, retirada do jornal Washington Post1 , a qual mostra um estudo sobre como as telenovelas alteram os costumes do brasileiro. Tal pesquisa teve uma parte traduzida pelo Jornal Folha de São Paulo, substituindo a nomenclatura mais específica “telenovela”, pela popular e genérica palavra “novela”


As novelas criam moda no Brasil. Depois de ’O Clone’, atração gravada no Brasil e em Marrocos que foi ao ar em 2001, a dança do ventre virou febre. As mulheres brasileiras começaram a usar flores amarelas nos cabelos após uma personagem aparecer assim na novela ’Quatro por Quatro’, diz o texto, completando que a atual novela das 20h exibida pela Globo, "Caminho das Índias", tornou os costumes indianos populares no Brasil.

A reportagem do "Washington Post"¹ entrevistou o professor da Universidade do Texas, Antonio La Pastina, afirma que as telenovelas tornaram-se parte importante na formação do brasileiro e seria difícil imaginar o Brasil sem levar em consideração as telenovelas. Já Luis Erlanger, diretor de comunicação da Rede Globo, chamou de antidemocrático o posicionamento dos pesquisadores dizendo que se os brasileiros seguissem tudo que as telenovelas mostram estariam diminuindo a capacidade de livre arbítrio do povo.

É inegável, contudo, que as telenovelas globais estão intimamente ligadas ao desenvolver da vida do brasileiro, mas é ainda mais surpreendente como essa harmonia, atrelada ao constante uso de temas “ousados”, causa grande interesse nos jovens estudantes. Em particular tem-se o caso do jovem Tarso, da telenovela Caminho Das Índias , o qual foi alvo, no período de veiculação da telenovela, entre janeiro e setembro de 2009, de intensas discussões entre essa juventude virtualizada. Perante esse fenômeno, pode, então, o educador, como se verá a seguir, tomando por base esse mútuo interesse entre o blog e o gosto pelas telenovelas, atrelar o conhecimento literário e o conhecimento virtual mostrando como a arte esta literalmente ligada a nossas vidas e sem dúvida é expressão do conjunto social a que estamos inseridos.



Blog, telenovela e literatura


Um dos objetivos primordiais que orientam essa proposta de reflexão consiste em demonstrar como o educador pode utilizar o blog em sala de aula para desenvolver um melhor ambiente de ensino e aprendizagem. Para tanto, utilizou-se como suporte não somente os posts do autor do blog, mas também, as diversas mensagens de respostas dos leitores do blog, postadas na interface. Com objetivo de proporcionar melhor clareza e compreensão aos alunos, esse trabalho preocupou-se ainda em promover para o educador uma reflexão sobre os desafios que a educação contemporânea oferece, e com base nesses apontamentos reforça a necessidade de o educador estar em contato com as novas tecnologias.

O blog do ator Bruno Gagliasso apresenta um tópico com o título “Arte e Loucura” sendo iniciado com um texto de Jorge Luis Borges, que abre a introdução deste trabalho. O poema faz referência às funções da arte e do espelho colocando-os como semelhantes na função de mostrar como somos. Logo a reflexão sobre o poema levanta a questão da possível identificação de todo grande artista a algum tipo de “transtorno mental”. Para melhor ilustração Gagliasso transcreve um trecho da obra que colaborou na realização “Certo Van Gogh”:


Van Gogh está em todos que um dia já se sentiram inadequados. Forçados pela sociedade a fazer algo. Forçados a se transformar em algo que não são. Fernando Pessoa disse que o coração, se pensasse, pararia. E Vincent, só coração, não parou nem por um segundo. Ou talvez só no último segundo – quando pensou.


O educador para um melhor rendimento pode aqui apresentar o blog para os alunos, fazendo um rápido conhecimento sobre o que ele oferece, e logo selecionar o texto, promover uma reflexão com a turma de maneira a instigar os comentários, levando os estudantes a se depararem com as mais diversas opiniões que possam surgir em sala de aula. Também pode fazer o mesmo questionamento que o autor do blog coloca: “Gostaria muito da opinião de vocês sobre a relação entre a arte e os transtornos mentais, e o papel que a arte pode ter na vida de todos que de alguma forma já se sentiram inadequados ou excluídos da lógica do nosso mundo.”

O estudante já teve oportunidade de conhecer texto de Borges, citação de Fernando Pessoa e manifestar seus apontamentos sobre arte e loucura. Dessa forma pode o educador realizar uma discussão tendo por base os comentários feitos pelos diversos usuários que freqüentam a página, como o que segue:


Mais com certeza a arte é uma forma ideal para fugir na lógica do mundo, muitas pessoas que estão depressivas e encontra na arte a maneira de se sentir feliz livre e realizada, sem precisar seguir os estigmas que esta sociedade hipócrita ordena. (Marlon Tadeu Souza)².


Essa forma de manifestação sem dúvida instiga o aluno a refletir, a concordar e até mesmo a formar uma opinião crítica a respeito das reflexões levantadas sobre o texto analisado em sala. E a todo o momento pode o professor, por meio de outros comentários, realizar pontes, proporcionar ao aluno um momento particular com a arte, uma visão diferenciada, um encontro consigo mesmo, com mostra o comentário de uma usuária do blog:


A arte tal como qualquer coisa que uma pessoa goste de fazer é uma forma de acalmar de tranqüilizar aquilo que mais nos atormenta quando nos olhamos ao espelho e vemos o nosso reflexo daquilo que somos, mas que talvez não gostássemos de ser…quanto de nós não lutou diariamente contra si mesmo contra os seus conflitos internos a espera que algo vos liberte ou desse trabalho monótono que tem e já não agüentam mais ou de uma relação que dava tudo para ser perfeita mas na realidade não o é…(Vera)³.


Os usuários em questão fazem seus comentários manifestam suas opiniões de maneira livre, rápida e aberta, para todos, sobre o devido tema. Da mesma forma o professor, pode, então, juntamente com a classe, incentivar o aluno a também realizar sua participação tecendo seus apontamentos e colaborando para uma melhor compreensão do assunto. Essa dinâmica permite a continuidade da discussão e a criação de novas interfaces, que são apresentadas no estudo “As tecnologias da Inteligência” de Levy (1990), o qual entende que:


A noção de interface pode estender-se ainda para além do domínio dos artefatos. Essa é, por sinal, sua vocação, já que interface é uma superfície de contato, de tradução, de articulação entre dois espaços, duas espécies, duas ordens de realidades diferentes: de um código para outro, do analógico para o digital do mecânico para o humano... Tudo aquilo que é tradução, transformação, passagem, é da ordem das interfaces. (LÉVY, 1990)


Para Levy o que passa por uma interface é outra interface que estão dobradas embutidas, mas que, no entanto, são deformadas umas pelas outras, pois se desviam de sua finalidade inicial. Quando o usuário tem oportunidade de questionar levantar apontamentos acerca do tema principalmente em um suporte que permite tantos participantes, o desvio do caminho inicialmente sugerido é inevitável, no entanto é esta dinamicidade que provoca e aguça os sentidos dos jovens.

Os desvios na leitura são proposições mesmo de quem escreve um blog. Ao acompanhar o processo de escrita do ator Bruno Gagliasso , o leitor se depara com uma apresentação sobre o renomado autor de nossa literatura Ferreira Gullar. Gagliasso coloca um texto produzido por Gullar que trata sobre o tema em questão e instiga o usuário a participar das reflexões. Impressiona, sobretudo, como o blog em interface com a telenovela consegue promover a aproximação de uma figura altamente reconhecida no meio literário, Ferreira Gullar, com a sociedade a qual ela tanto retrata em seus escritos. É o que se percebe no comentário que segue, já não mais dirigido ao ator Bruno Gagliasso, mas ao poeta:

Prezado Ferreira Gullar
Certa vez você escreveu assim:
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Quero acreditar que quem escreveu a coluna deste domingo de páscoa tenha sido apenas uma parte de você. Uma parte que não conhece os enormes avanços que a Reforma Psiquiátrica Brasileira e a lei (à qual você se refere como idiota), puderam fazer na vida e na história dos milhares de familiares e usuários com os quais lidamos no nosso dia-a-dia de trabalhadores da Saúde Mental. (Rita de Cássia)4

Um momento como esse possibilita ao educador apresentar para a turma, as características do autor sua trajetória dentro da literatura, e caminhar junto com os alunos para o entendimento do poema transcrito. E assim, questionar os apontamentos da usuária “Vera Lucia” ou, quem sabe, apresentar outros argumentos e reforçar a idéia já defendida. O que fica evidente é que a forma de encarar a arte e claro de passar a diante os conhecimentos sobre a literatura assumiram horizontes antes nunca visualizados. Pode-se ressaltar como, pelo blog, passa a ser comum a presença da arte no dia-a-dia, e que essa nova interface propiciou algo que muda em grande escala a interação escritor-leitor, leitor que nesse novo suporte pode inclusive tornar-se um dos possíveis autores de um texto multiautoral ou, no mínimo, o criador de novos textos compostos por fragmentos deslocados de outros textos (CHARTIER, pg.28). O blog permite então essa aproximação entre autor e leitor(usuário) nunca antes prevista pelo texto impresso.

Tal mudança no suporte físico da escrita da escrita força o leitor a ter novas atitudes e aprender novas práticas intelectuais. A passagem dos textos do livre impresso para a tela do computador é uma mudança tão grande quanto à passagem do rolo para o codéx durante os primeiros séculos da Era Cristã. Isso desfia a ordem dos livros familiares aos leitores e dita novos caminhos de literatura que superaram as limitações tradicionais impostas pelos objetos impressos. (Chartier, 1999.)


Fica evidente que as maneiras de criar e aproximar o estudante da literatura assumiram caminhos bem diferentes de todos anteriormente utilizados e suportes textuais como a página na internet, o blog, do ator Bruno Gagliasso, que abordam temas que façam pontes com o conhecimento da arte, mas precisamente da literatura, é agora mais um suporte, ou seja, uma ferramenta de grande utilidade e altamente atrativa que possibilita a junção de diferentes suportes e a criação de novas interfaces que conquistam e encantam a juventude com o conhecimento literário.



Considerações finais


É por meio de um blog como esse; interativo, em que se mesclam o fascínio do jovem pela internet e o conhecimento literário, manuseando recursos modernos, com uma linguagem rápida e de livre expressão, que o estudante, instigado pelo professor ao levantar problemas que fazem parte de seu convívio que são por eles visualizados e discutidos, se depara com momentos de intensa reflexão e maravilhosas descobertas. Tais momentos podem ser direcionados pelo educador levando os estudantes após suas reflexões ficarem diante de outro texto que se encontra na página ao navegar.

Vale ressaltar ainda a presença no blog do poema “Auto-Retrato” o qual apresenta um eu-lírico na tentativa de se descrever, em desencontro com o meio social que está inserido, indeciso refletindo sobre as possibilidades de se encontrar. Esse poema é atrelado a duas imagens que teriam sido realizadas pelo personagem “Tarso” em um de seus momentos de criação:

O Auto-Retrato

No retrato que me faço
traço a traço
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…

e, desta lida, em que busco
pouco a pouco
minha eterna semelhança,

no final que restará?
um desenho de criança…
corrigido por um louco!

Mario Quintana


E quando o autor do blog questiona o usuário quanto sua percepção em relação às proximidades das duas obras, acaba por encontrar nas respostas dos outros usuários do blog algo fascinante, ou seja, a utilização de poemas de autores canonizados da literatura brasileira como recurso para demonstrar seu posicionamento como:


Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Mario Quintana



De Borges, a página de Bruno Gagliasso proporcionou aos jovens conhecer Ferreira Gullar e Mario Quintana, partindo de um tema “ousado”, abordado por uma telenovela de horário nobre em nossa televisão. Acaba por apresentar para a sociedade, para a educação escolar, para o educador uma nova forma de evidenciar e transmitir o conhecimento, completamente veloz e instigante capaz de criar um ambiente, em que o valor da literatura seja reproduzido com amplitude e prazer, uma interface que soma e favorece o conhecimento de nova maneira do pensar literário.

 

Notas
[1] The Washington Post (literalmente "o Correio de Washington"), mais conhecido por Washington Post, ou até mesmo por Post, é um dos maiores e talvez o mais velho jornal em Washington, a capital dos Estados Unidos da América, localizada no Distrito de Colúmbia, entre os estados de Maryland e Virginia. 
 
2 Usuária do blog.

3 Usuária do blog.

4. Usuária do blog

 



Bibliografia


CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora Unesp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999.
GAGLIASSO, Bruno. Blog Reflexo e Reflexões. Disponível em: <http://www.gagliassoblog.com>. Acesso em 20 jul. 2009.
LÉVY, P. (1990). As tecnologias da inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1993.
REIMAO, S. Telenovelas adaptadas de romances brasileiros e seus materiais publicitários. In: Marcia Abreu. (Org.). Leitura, história e história da leitura. 1 ed. Campinas: Mercado de Letras - ALB - FAPESP, 2000, v. único, p. 505-525.
"WASHINGTON POST" diz que novelas alteram costumes no Brasil. São Paulo: Folhaonline,2009.Disponívelem:<http//www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u581116.shtml>. Acesso em: 16 jun 2009.

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