Volume 3 Número 2 – 15.03.2010 Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman ISSN 1982-9434
Na sala de aula com Pedro Bandeira
Marisa Lajolo, Mackenzie/UNICAMP
A menina danadinha, história que Pedro Bandeira lançou em 2007 (Editora Moderna) faz um sucesso incrível! Todos se encantam com Ritinha, a danadinha que dá nome à história. Esse encanto talvez venha do fato de ela manifestar comportamentos tipicamente infantis aos quais, no entanto, no dia a dia, não costumamos prestar muita atenção. Imprimir o texto
Vamos, então, aproveitar uma das vantagens da literatura – fazer os leitores observarem de forma diferente situações cotidianas – e olhar mais de perto esta Ritinha. Olhar,não : melhor ouvir uma conversa da menina com um adulto, o homem sorridente de malinha na mão.
CONVERSA 01¹
– Dlim-dlom!
– Bom dia! – cumprimentou um homem sorridente, de malinha na mão.
– Boa dia! – respondeu Ritinha.
O homem achou graça, puxou um pigarro e sorriu, meio sem jeito.
– Sua mãe está, menina?
– Está. Mas está tomanda banha.
O homem puxou outro pigarro, sorriu de novo, ainda sem jeitíssimo.
– Ora, menina, eu estava dizendo...
– Não. O senhor é homem. Por isso, o senhor estavo dizendo. Quem estava dizenda era eu, que sou menina. Eu estava dizenda que a mamãe está tomanda banha.
O homem não agüentava mais de tanto pigarrear, sem saber como continuar a conversa.
– Menina, sabe? ... Não é assim que se fala. Tem palavras que não são nem masculinas nem femininas...
– Sei. Tem palavros masculinos e palavras femininas. Assim como tem menino e menina, gato e gata.
– Mas...
A conversa continuou por aí afora, cada vez mais animada, entre Ritinha e o homem de malinha na mão.
A mãe da Ritinha demorou no banho. Demorou mas acabou saindo e (...)
Com certeza você se riu da Ritinha, não é mesmo? Ou pelo menos sorriu, concordando com o autor do livro que ela é mesmo uma danadinha .
Pensando sobre as razões do seu sorriso, você vai perceber que ele se deve ao jeito da Ritinha falar : ela alterna masculino e feminino – na realidade, terminações em O e em A - em situações nas quais a língua portuguesa não pede flexão de gênero.
Observe algumas passagens em que isso ocorre:
– Boa dia! – respondeu Ritinha.
.............................................
(...) Mas minha mãe está tomanda banha.
...................................................
(...) o senhor estavo dizendo
......................................
Eu estava dizenda (...)
.........................................
Tem palavros masculinos e palavras femininas
Não é preciso saber ler nem escrever para dar risada das confusões que Ritinha apronta, nem para perceber que, apesar das confusões, ninguém deixa de entender a conversa dela com o homem da malinha. Nem todos sabem, porém, explicar porque fica tão engraçado o jeito de Ritinha falar.
Nós, professores, no entanto, sabemos...E porque sabemos, podemos usar a história da Ritinha para uma aula divertida e eficiente .
A personagem Ritinha fala bem a língua portuguesa, isto é, consegue expressar em palavras e frases de diferentes tamanhos e distintos graus de complexidade o que lhe passa pela cabeça e consegue entender, também a partir de frases e palavras, o que quer o homem com quem ela está conversando .
O que é divertido é o modo pelo qual Ritinha usa os conhecimentos que tem de nossa língua. Ela sabe, por exemplo, que o Português é uma língua que flexiona algumas palavras em masculino e feminino . Ela sabe que se diz aquela gata é branca, mas que é preciso dizer este cachorro é cinzento . Ela sabe isso muito bem, e os leitores de Bandeira também sabem. A história fica engraçada porque Ritinha aplica a regra da flexão de gênero a situações às quais a regra não se aplica: masculino e feminino são categorias que se aplicam apenas a artigos, substantivos, adjetivos e alguns pronomes.
Alguns substantivos que se flexionam em masculino e feminino têm uma vaga relação com sexo biológico como gato e gata, rato e rata. Mas outros substantivos são masculinos ou são femininos por mera convenção, talvez pela origem da palavra: mar, por exemplo, é masculino por quê? E sorte também é feminino sem razão alguma. Mapa e tapa são substantivos masculinos e moto e foto são substantivos femininos, embora terminem,respectivamente, com A e com O, terminações que geralmente marcam o gênero feminino e o masculino.
O que torna engraçadas as falas de Ritinha, é que ela criou um sofisticado sistema de flexão de gênero, onde verbos vão para o masculino ou o feminino dependendo do sujeito da ação expressa por eles (a menina estava dizenda, e o homem estavo dizendo, a mãe estava tomanda banha) . À medida que a conversa prossegue, vamos percebendo mais normas completamente inesperadas da gramática especialíssima de Ritinha .
- Veja lá: qual regra pede flexão de palavras (em palavros masculinos) ou em boa dia? Você e seus botões podem divertir-se muito deduzindo as regras destas curiosas e divertidas flexões masculino-feminino e talvez pedindo que seus alunos inventem outras regras .
Mas, deixando de lado questões de gênero, vamos a um outro fragmento do mesmo livro. Agora sem visitantes batendo à porta nem tocando a campainha, aquela mesma mãe que, na conversa anterior tomava banha chega em casa:
CONVERSA 02 ²
A mãe voltou das compras com um presente especial para a filha: uma galinha de chocolate!
Uma galinha pequena, mas linda como ela só, toda dourada de papel-alumínio, com fita vermelha no pescoço e tudo.
Vendo Ritinha toda feliz com o presente, a mãe foi logo perguntando:
– Gostou da galinhazinha, minha filha?
– Gostei, mãe. Só que não se diz galinhazinha.
– Não? Por quê?
– Porque galinha já quer dizer que é um bicho pequeno. Quando tem inha atrás, quer dizer que a coisa é pequena.
– Ah, é? E se a galinha fosse maior, como é que era pra falar?
– Era pra falar gala, é claro! A mulher do galo é a gala, a namorado do galinho é a galinha, a sogra do galão é a galona. É que nem cachorro. Quando a cara dele é pequena, a gente diz focinho. Quando é mais ou menos, é foço. Quando a cara é grande, é foção. Não é fácil?
– Ora, Ritinha!
– Que nem a tia Adalgisa. Todo mundo diz que ela é a minha madrinha. Mas ela é gorda como ela só: só pode ser madrona! É como vizinho. O Calico, que ainda chupa chupeta, é vizinho mesmo. Mas o pai dele, com aquela barriga toda, é um vizão, dos legítimos! A mulher dele, que é mais ou menos, é viza só.
A mãe percebeu que (...)
Nesta nova situação, Ritinha continua a valer-se do que sabe do sistema de nossa língua. Mas o uso que ela faz do que sabe sobre a língua portuguesa, mais uma vez cria situações nas quais nos rimos. De novo nos rimos, como aconteceu com as pessoalíssimas regras de flexão de gênero inventadas por Ritinha, porque ela exagera e extrapola na aplicação de regras do Português. Ritinha exagera, mas os exageros que comete estão de acordo com o sistema da língua, e ocorrem partindo sempre de sua experiência como falante nativa de Português.
Observe a segurança com que ela enuncia a regra que justifica o disparate: Quando tem “inha” atrás, quer dizer que a coisa é pequena. Ela tem razão. A regra do inha atrás vale para casinha, bolsinha, formiguinha . E a regra do inho vale para cavalinho, sapatinho e até para galinho.
Mas nem inha nem inho indicam diminutivo em galinha, focinho, madrinha, vizinho . Por isso nos rimos da conversa de Ritinha com a mãe. E, talvez, ela mesma se ria, não é mesmo?
Estas travessuras de Ritinha com a linguagem são muito sugestivas: podem inspirar atividades para uma classe que tenha um professor competente e criativo (como você!) .
- Desafie seus alunos, transformando-os temporariamente em Ritinhas: que outras regras de nossa língua podem gerar confusões divertidas quando aplicadas para além do campo em que vigem?
- Que tal pensar numa reflexão criativa – à maneira da Ritinha- sobre a regra de aumentativos a partir de um período meio esquisito como O capitão Sebastião, que levava para o barracão um pão e um melão escorregou no sabão e deu de cara no chão . Mas, como era São João, tinha muito rojão e ninguém ouviu o pedido de socorro do Sebastião.
- Que tal propor que seus alunos recontem a mesma cena do homem da maleta batendo na porta da casa da Ritinha (CONVERSA 01) bem no dia em que ela estava experimentando as regras de plural?
A palavra experimentando do parágrafo acima foi intencional: crianças aprendem a falar experimentando . Deduzindo, a partir do que ouvem, regras de funcionamento da língua, e testando. Testando as hipóteses que constroem a partir do que observam. Os adultos à volta delas funcionam como referências, oferecendo oportunidades de testarem o acerto, o erro ou a extensão da regra que depreendem e põem em prática.
Em outras passagens de outras obras de Bandeira questões de linguagem também se colocam de forma interessante . No livro de estréia da turma dos Karas – A droga da obediência, Chumbinho deixa uma mensagem para os companheiros em Código Morse, isto é, em um código que representa as letras do alfabeto através de pontos e de traços. Mais pra frente, em outro ponto decisivo da história dos Karas contra os seqüestradores de crianças, os meninos se valem de códigos mais sofisticados, capazes de gerar mensagens aparentemente incompreensíveis como
Dsenterginis dinis Enterbomberdaisômberlcaisinis:
Tombersaisgenter! Inis chinisvomber ómber
Minissaisufterr Cinisrtómbersaisdomberr.
A decifração do texto exige superposição de códigos: num primeiro momento, é preciso substituir as vogais por certas seqüências e, depois, substituir certas letras por outras, num sofisticado trabalho de leitura .
Os códigos dos Karas e as confusões de Ritinha criam oportunidades interessantes para um trabalho lúdico com a linguagem, no que ela tem de sistemático e de regular. LIBRAS e Braile são também códigos que circulam na sociedade e que podem enriquecer muito este trabalho com códigos, linguagens, regularidades, hipóteses ...E podem ainda trazer para sua classe, de forma verdadeira e inventiva, o projeto de inclusão de sua escola.
O caso é que literatura é trabalho com a linguagem, invenção de novas formas de dizer e de escrever; e, se invenção é ruptura da norma e infração voluntária de regras, a literatura só pode ocorrer de forma plena, quando se tem domínio do idioma, das regras que o regem. Pois a linguagem é o material do escritor, como tela e tinta o são do pintor e o som o é do compositor.
Assim, inventar linguagens secretas e decifrar códigos supõe sempre competência plena da língua que falamos, no que ela tem de sistemático, de normativo, de regular e de irregular.
- Quem sabe, então, não vale a pena criar uma gramática do Código Vermelho dos Karas? A consulta a uma boa gramática escolar pode familiarizar seus alunos com o gênero regra gramatical . Quem sabe não é interessante expandir o Código Tênis Polar? ou fazer de conta que se está escrevendo um verbete da enciclopédia (eletrônica, cheia de links?) que descreva seu funcionamento?
Esta forma pela qual Bandeira cria em suas páginas personagens – crianças e jovens- extremamente competentes em diferentes usos de diferentes linguagens lembra algumas situações que podemos observar a propósito de filhos, sobrinhos, alunos.
O escritor Monteiro Lobato, por exemplo, relata uma passagem da vida de sua filha caçula Ruth, que apresenta uma similar capacidade de dedução de regras de linguagem e imediata aplicação delas. Ruth e Rita!
A cena se passa nas primeiras décadas do século XX, com a filha do escritor folhando uma revista :
 |
O pé-galo... A cabecinha da Ruth vive povoada de seres fantásticos, um dos quais curiosíssimo – o pé-galo. Haverá naturalista que adivinhe que animal é este? Ela, entretanto, dissertará meia hora, na sua encantadora linguagem cheia de movimentos de mãozinhas explicativas, sobre a família dos pé-galos, maridos das pé-galinhas, as quais botam pé-ovos, donde saem pé-pintos.
Tudo vem dum anúncio americano de remédio para calo, cuja marca de fábrica figura pé humano encimado por uma cabeça de galo. Ruth gostava de abrir os jornais no chão e, estendida sobre eles de barriga, examinar, comentando uma por uma, todas as gravuras ou vinhetas – as cruzes das missas, o homem de picareta às costas do Biotônico, o peixe da Emulsão de Scott, os naviozinhos de Royal Mail. |
Certo dia deu com o pé cristudo do Gets-It, o tal remédio para calos. Franziu a testa e veiu incontinenti saber o que era aquilo.
Expliquei pachorrentamente:– É o pé-galo, uma ave que existe nos Estados Unidos.
Ruth ficou a cismar longo tempo, de olhos presos no estranho bicho.
Mais tarde, em vésperas de seu dia de anos, perguntei-lhe o que queria. Não vacilou:
– Quero um pé-galo!
– Para quê?
– Para criar aqui no quintal. Um pé-galo e uma pé-galinha também. Há pé-galinha?
– Como não? E há ainda pé-ovo e pé-pinto,acrescentei.
– Quero! Quero! Quero tudo! E batia palmas, radiante a imaginar a linda criação que se desenvolveria no quintal.
– Fingi que fiz a encomenda; está custando a chegar; enquanto isso Ruth derrama-se em projetos.
Dou para vovô um pé-pinto. Outro para a Marta – você quer, Marta, um pé-pintinho?
– E começa o sonho, na rede, aos balanços cada vez mais fortes.
–Sabe? Calço uma botinha velha no pé-galo. Coitado! Tem tanto caco de vidro no quintal... E todos os sábados corto a unha dele. E...
E não acaba mais a encantadora improvisação daquele mundinho fantástico...
Como se vê, de novo entram em cena galinhas ... aves agora, não mais envolvidas em questões de diminutivos pouco ortodoxos, porém, transformadas em segundo termo de um substantivo composto e parte de uma fauna maravilhosa e fantástica, criada a partir de um anúncio farmacêutico .
Importa, aqui, observar o papel do adulto, parceiro da criança no desenvolvimento da fantasia . E importa também observar como a criação das aves imaginadas por Ruth constitui uma família sistematicamente nomeada pela anteposição de “pé de ...” a todos os elementos imaginários, derivados de frangos.
- Se seus alunos abrissem uma lanchonete que comercializasse produtos feitos com carne e ovos desta criação lobatiana, como é que se chamaria a omelete? E as coxinhas? e a canja?
- Junte com as histórias da Ritinha e da Ruth histórias de crianças que você conhece. Ou – ainda melhor- peça que seus alunos observem, relatem e comentem situações de linguagem que – como as inventadas por Pedro Bandeira e a relatada por Monteiro Lobato – sejam pretexto para uma bela reflexão sobre a natureza da linguagem e das línguas humanas como matéria de criação.
Seus alunos decidem e talvez decidam também convidar Ritinha e os Karas para uma festa. Não seria esta uma excelente forma de prolongar a presença de um escritor como Pedro Bandeira em sua sala de aula? O convite da festa deve evidentemente ser escrito sob medida para estas personagens de Bandeira que, com tanta competência e inventividade navegam pelas águas da língua portuguesa . E a presença de Lobato, neste rabinho de seção, é mais uma homenagem a Pedro Bandeira que conta que, na infância, lia, re-lia e tornava a ler a obra Lobato.
¹ Bandeira, Pedro. A menina danadinha. São Paulo: Editora Moderna
² Bandeira, Pedro. A menina danadinha. São Paulo: Editora Moderna. Voltar ao sumário
|
|
Último Número
Quem Somos
Arquivos
Contribuições
Cartas
Cadastro
Nossas publicações acontecerão no dia 15 de novembro, 15 de março e 15 julho de cada ano. Se você quiser receber um lembrete a cada nova edição, preencha, sem qualquer custo, o formulário abaixo.
Tigre inquieto
Publica artigos sobre algum aspecto particular da poesia para crianças. Editores: Sérgio Capparelli, Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini.
Tigre ao espelho
Contribui com discussões sobre o fazer poético mais amplo, em que a ilustração ou design se institui enquanto uma das vozes importantes da interlocução entre autor e leitor. O espelho apresentará autores ou ilustradores nacionais e estrangeiros, falando sobre seu trabalho, em entrevistas ou depoimentos. Editora: Annete Baldi
Tigre em movimento
Propõe o relato de trabalhos práticos com poesia infantil em qualquer nível educacional. Editora: Elizabeth D'Angelo Serra
Tigre digital
Ocupa-se de poéticas digitais para crianças, com descrição ou críticas de sites de poesia infantil no Brasil e no exterior. Editor: Miguel Rettenmaier.
Tigre à mesa
Apresenta ou publica críticas à produção editorial do período, dentro da área, tanto em relação a textos de reflexão como a livros, produtos ou espaços de poesia para crianças. Editor: Sérgio Capparelli.
Conselho Editorial
O Tigre Albino tem um Conselho Editorial integrado pelas seguintes pessoas:
Blanca Roig da USC e da LIJMI, Espanha;
Ezequiel Theodoro da Silva, da UNICAMP e da ALB, Brasil;
Isabel Mociño Gonzáles, da USC e da LIJMI, Espanha;
Laura Sandroni, da FNLIJ, Brasil;
Maria Antonieta Cunha, da PUC-MG, Brasil;
Marisa Lajolo, da UNICAMP e Mackenzie, Brasil;
Silvia Castrillon, da Asolectura, Colômbia;
Virgilio López Lemus, do ILL, FAyLUH e AChttp://fayl.uh.cu e ACC, de Cuba.
|