Volume 3 Número 215.03.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434




Posições sobre a poesia para crianças¹

Maria Antonieta Cunha, da PUCMG

Maria Antonieta Cunha é uma grande especialista brasileira de Leitura e de Literatura Infantil. Doutora em Letras e professora da PUC, de Minas Gerais, publicou Literatura Infantil – Teoria e Prática, entre outros. Neste texto, ela discute o lugar da poesia dentro da sala de aula. Começar com quê? Poemas épicos? Ela acha que não. Considera que exatamente a poesia lírica é capaz de ligar poeta e leitor na mesma sintonia. E depois de discorrer sobre a posição do autor na produção de livros destinados às crianças, vai além, e discute a qualidade da poesia. Para isso Maria Antonieta analisa versões de um mesmo poema de Cecília Meireles, utilizando ferramentas literárias que tem a sua disposição e maneja bem.

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Julgamos oportuno discutir algumas opiniões de grandes entendidos da literatura infantil, antes de apresentarmos nossa própria posição sobre a poesia na escola.

Inicialmente gostaríamos de trazer a posição de Jesualdo, na sua excelente obra La Literatura Infantil. Para ele, somente num estágio adiantado a criança se interessa pela poesia lírica ou épica. A princípio, ainda segundo o grande Autor, deve-se levar à criança o poema narrativo, como a fábula, além das composições folclóricas, com que a infância está desde cedo acostumada.

Concordamos perfeitamente com Jesualdo com relação à épica, realmente inacessível para a criança, uma vez que a linguagem do poema épico é grandiloquente, inflamada, indireta, com uma elaboração distante da experiência dos alunos.

Conhecemos também o interesse da criança pela fábula – o que por si só a recomenda como leitura infantil. Contudo, acreditamos que esse gênero importa pouco enquanto poesia. O fundamental na fábula é o caso, a narrativa: estar apresentada em verso não implica obrigatoriamente em poesia – quer dizer, uma estrutura especial para expressão de sentimentos e capaz de criar emoções. Por isso mesmo, não estamos de acordo com Jesualdo no que se refere à poesia lírica.

Consideramos poesia exatamente a lírica, aquela capaz de ligar poeta e leitor (ou ouvinte) na mesma sintonia, refeita a vibração do poeta na do recebedor. Julgamos que é exatamente a lírica que mostra uma identificação da criança e do poeta: prova isso a composição infantil, em geral lírica.

É lógico que nem todo tema lírico será adequado para a infância (questões metafísicas, a condição humana, várias formas de amor). Mas todo gênero levado à infância exige novas condições: a narrativa e o teatro, por exemplo.

Justamente por isso não podemos concordar com a opinião de Renato de Almeida, exposta no cap. 54, "Literatura Infantil", do vol. VI de A Literatura no Brasil. Depois de elogiar alguns poetas que escreveram para crianças, em especial Olavo Bilac, afirma o Autor:




Os nossos poetas não têm sentido grande pendor pela poesia infantil e, salvo casos raros, como Olegário Mariano, Tangará Conta Histórias; Guilherme de Almeida, O Sonho de Marina e adaptação dos livros de Wilhelm Bush, Murilo Araújo, A Estrela Azul, e de poesias esparsas de um ou outro poeta, como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, a poesia infantil na maioria das vezes se limita a contar estórias, como acontece, por exemplo, nos livros de Alceu Masson, Gastão Nogueira, Elisa de Rezende, Manuel Vitor de Azevedo, Bastos Tigre e outros mais. Os exemplos de José Correa Júnior, Presciliano de Almeida, Martins d’ Álvares e poucos mais, que fizeram poesias para crianças pelo valor delas e não como meio de histórias, mostra como é pequena nossa vocação poética para o gênero. Assim, a poesia infantil brasileira é demasiadamente pobre e de interesse secundário, exceção dos pontos altos acima indicados. Curioso é que mesmo grandes poetas preferem a prosa, como foi o caso de Jorge de Lima, se têm de falar as crianças.2 


Diríamos, ao contrário, que felizmente temos poucos poetas ocupados em escrever especialmente para a infância.

Consideramos como das mais saudáveis a ideia de que não há limite exato entre literatura infantil e de adulto: essa distinção, contudo, é ainda mais tênue no caso da poesia. O homem adulto está muito mais próximo da criança no sentimento do que na inteligência. Por isso, as narrativas (porque mais intelectuais) do adulto e da criança terão um distanciamento muito maior do que o existente entre a poesia endereçada a um e a outro.

A melhor poesia para a infância está, pois, nas obras poéticas de nossos grandes escritores, independentemente do endereço para a alma infantil. Primeiro, porque a linguagem lírica une os dois. Segundo, porque, não escrevendo especificamente para crianças, o poeta fica mais longe dos dois pontos negativos da obra dirigida aos pequenos: o tom moralizador e a puerilidade.

Realmente somente poetas excepcionais conseguem falar às crianças sem se deixar levar pela tentação do conselho ou da facilidade excessiva. (Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles estão entre esses privilegiados).3 

Para provar a tendência ao aproveitamento pedagógico do poema, basta lembrar a grande quantidade de educadores que tentam o caminho da poesia.

Essa preocupação de escrever poemas para crianças já supõe um programa, uma "acomodação" limitadora da expressão lírica.

Ainda tendo em vista esses argumentos, achamos discutível a antologia poética apresentada por Bárbara Vasconce¬los de Carvalho, no seu livro – muito sério, aliás – Compêndio de Literatura Infantil.


Predominam nessa antologia os poemas circunstanciais (feitos especialmente para determinada criança) ou didáticos: Grandes Escritores Brasileiros, por exemplo, dá informações so¬bre literatos brasileiros; Hino à Criança procura mostrar o valor da criança – e parece endereçado ao adulto.

Por outro lado, a Autora separa os poemas por idades, a partir de 4 anos. Para 4-5 anos, uma trova indicada é essa:



Mamãe e Papai
Há no meu coraçãozinho
dois lugares de eleição,
onde com todo carinho
Mamãe e Papai estão.4



Não cremos ter essa divisão uma razão justa: nossa experiência com crianças mesmo de Jardim de Infância nos tem mostrado que a criança tem amplas condições de apreciar (entusiasmar-se, mas sem comentários) poemas mais elaborados.

A verdade é que tendemos a subestimar as possibilidades de nossas crianças, além da propensão muito nossa e muito estranha de "superproteção" dos alunos.

É claro que muitas crianças aceitam esse texto extremamente fácil, quase sempre sem poesia, e isso nos parece mais uma responsabilidade nossa: é o que levamos à criança, e ela vai deteriorando seu gosto.

Esses textos confirmam a ideia bastante difundida de que escrever para crianças é tarefa simples. Seria preciso viver a ideia, muitas vezes anunciada teoricamente, de que a literatura infantil exige mais do artista, porque às condições e dificuldades da arte acrescentam-se novos cuidados, decorrentes das características infantis que deverão estar atendidas.

Exatamente isso se verifica com os maiores poetas, quando escrevem para crianças. Gabriela Mistral não se cansava de policiar-se, de reelaborar cuidadosamente seus poemas infantis. Entre nós, comove-nos a atitude de Cecília Meireles: tendo feito um bom poema, superior aos que normalmente exploramos com a criança, procurou em nova versão torná-lo ótimo.

Fazemos questão de estudar esse caso concreto.

Um dos poemas abaixo não foi incluído por Cecília Meireles, na edição de Ou Isto ou Aquilo, feita em vida da autora. Posteriormente à sua morte, a Edições Melhoramentos publicou Poesias (Ou Isto ou Aquilo & Inéditos), incluindo o que certamente foi uma versão anterior do poema definitivo.
Pedimos aos leitores fazerem a experiência: ler os dois poemas e decidir qual deles é melhor.

 

                                                                           

SONHO DA MENINA

 

A flor com que a menina sonha
                          está no sonho?
                            ou na fronha?
                              
                                   Sonho
                        5           risonho:
 
                   O vento sozinho
                    no seu carrinho.
 
 
                 De que tamanho
                 seria o rebanho?
 
10                     A vizinha
                            apanha
                   a sombrinha
           de teia de aranha...
 
 
         Na lua há um ninho
15        de passarinho.
 
A lua com que a menina sonha
                  é o linho do sonho?
                  ou a lua da fronha?

                                                                          

O SONHO E A FRONHA

 

     Sonho risonho
 Na fronha de linho.
 Na fronha de linho,
A flor sem espinho.
 
5      Apanho a lenha
        para o vizinho.
E encontro o ninho
        de passarinho .
 
 
    De que tamanho
                    10      seria o rebanho?
 
                      Não há quem venha
     pela montanha
                com a minha sombrinha
de teia de aranha?
 
                15 Sonho o meu sonho.
                       A flor sem espinho
também sonha
      na fronha.
 

Na fronha de linho.

                                                                      

MEIRELES, Cecília. Poesias (Ou isto ou aquilo & Inéditos).
São Paulo: Melhoramentos, 1969. p.32-33.



Observamos, na estrutura dos poemas, que ambos têm 7 estrofes, construídas, no entanto, muito diferentemente. No primeiro, nenhum verso se repete; no segundo, o verso "na fronha de linho" aparece 3 vezes, e "A flor sem espinho" é usado 2 vezes.

A estrofe

Sonho
risonho:5

é um verso no segundo poema.

Absolutamente igual nas duas versões, só uma estrofe:

De que tamanho
seria o rebanho?

O primeiro poema tem versos bastante desiguais, metricamente: vão de 1 sílaba ("Sonho") a 9 ("A lua com que a menina sonha"), com grande variação de acentos. Ritmo muito variado.

O segundo poema tem versos de 4 a 5 sílabas, com acento na segunda e na quarta ou quinta sílabas. Ritmo bastante uniforme.

É muito diferente o esquema de rima das duas composições, embora nas duas baseado em palatais /nh/, com variação das vogais tônicas e finais (possivelmente para sugerir o ambiente do sono, o ressonar da criança):

 

 

A
B
A
B
B
C
C
D
D
E
F
E
F
C
C
A
B
A
A
B
B
B
C
B
B
B
D
D
C
E
F
E
A
B
G
G
B




O primeiro é mais regular: nas estrofes de 2 versos, a rima é paralela (BB, CC, DD); nas de 3 e 4 versos, a rima é alternada (ABA, EFEF). Tem 6 rimas diferentes.

O segundo tem o esquema rítmico bastante irregular: as 4 estrofes de 4 versos têm 3 variações de rima, enquanto as de 2 têm uma variação (CB, BB, DD). Tem 7 rimas diferentes.

Tiremos do que foi dito algumas conclusões: o primeiro poema é mais contido, mais sintético – tem 1 verso a menos, apesar de "Sonho risonho" do 2º. ser 2 versos no primeiro texto.

O primeiro, apesar de mais regular no aspecto rima, é muito mais dinâmico do que o segundo, exatamente por causa da irregularidade rítmica que o caracteriza, ao que se alia o próprio aspecto gráfico.

Por esses motivos, parece-nos mais feliz o primeiro poema para retratar a irregularidade, a rapidez, o dinamismo dos sonhos (e da vida?) da criança.

No primeiro texto o poeta apresenta-nos a menina e seus sonhos: o poema é construído na 3ª. pessoa.

No segundo, a própria menina é que nos descreve seus sonhos. Os verbos estão na 1.a pessoa, assim como os pronomes. Além de mais aceitável, verossímil (é estranho a criança mesma contar seu sonho – e no momento mesmo do sonho), o primeiro parece-nos mais poético: o adulto se enternece diante do sonho da menina, tenta desvendá-lo mas esse mundo lhe é inacessível. Daí o poema começar e terminar com a frase interrogativa, em estrofes quase iguais, sinal de que a dúvida inicial persiste, e ainda mais forte. Tão profunda a dúvida, que no final há uma inversão, de efeito excelente:



A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?



O linho da fronha (realidade) e a lua do sonho (fantasia), confundidos no mundo infantil, são reunidos no poema, na última tentativa de entender o sonho risonho, tentativa já ensaiada na descrição imaginada, nas estrofes 3, 4, 5 e 6.

O clima de fantasia domina essa descrição: o vento no carrinho, o rebanho, a sombrinha de teia de aranha, o passarinho na lua. Estamos no campo do irreal, onde as palavras se ligam no plano da conotação.

No segundo poema, a linguagem é muito mais denotativa – ligada ao real, à lógica.

Nele aparece o passarinho, mas achado pela criança, como ocorre na realidade. Do mesmo modo, a criança apanha, não uma sombrinha de teia de aranha, como no primeiro: apanha lenha para o vizinho. Novamente, o lógico.6

A própria "fronha de linho" (3 vezes citada!) do segundo poema existe no primeiro, mas está desmembrada na imagem final já comentada.

E a flor, nas 2 composições está desenhada na fronha. A diferença é que no 2o texto, mais uma vez, o fato vem explicitado, enquanto no primeiro está implícito na interrogativa da 1ª. estrofe. A própria flor parece-nos sem espinhos nos 2 poemas: o que se apresenta claro num texto está sugerido no outro.

Assim também a teia de aranha, no 2º. texto, é apenas imaginada – objeto de uma pergunta – enquanto no primeiro poema o "impossível" é visto: a vizinha apanha a sombrinha de teia de aranha.


Podemos concluir que no primeiro texto há uma depuração: os elementos do segundo estão presentes no outro – sugeridos, ou deslocados numa linguagem poética (não referencial).

Essa depuração, aliada às outras características já apresentadas neste estudo, leva-nos a estabelecer Sonhos de Menina como último texto: O Sonho e a Fronha serviu-lhe de base, é uma versão primitiva que Cecília Meireles, ela mesma, não escolheu para figurar no Ou Isto ou Aquilo. Profunda conhecedora da alma e do gosto infantil, procurou tirar do poema inicial exatamente o que ele tinha de evidente, de "compreensível" para aumentar-lhe a fantasia, a imprecisão. E é essa atitude de Cecília Meireles, com relação a seus poemas, que nos faz considerar inadequados procedimentos como a "leitura lógica", sugerida pela Profa. Nelly Novaes Coelho, na sua importante obra O Ensino da Literatura. Explica ela:7




Após a compreensão do sentido literal, pedir a leitura lógica do soneto, sua leitura na ordem direta, para que nenhuma dúvida paire no espírito do aluno.

Visões, mortais visões! que o céu do exílio infunde na alma! O azul cruel fuzila... O Níger, basilisco de ouro, ondeia, ondeando... Leões de loura juba bramem ... 8




Parece-nos que, se poema exige essa tradução, de estrutura e de termos, está inadequado para o aluno: é muito difícil – e o procedimento não salvará o texto. O poema passará, talvez, a ser entendido, mas possivelmente não apreciado.

Pode ocorrer, por outro lado, que o aluno entenda o poema, já na leitura lúdica (primeiro contato com o texto, para Nelly Coelho). Então o procedimento se torna desnecessário.

A quase totalidade dos manuais de Comunicação e Expressão vão mais longe: só fazem perguntas de compreensão do texto poético – o que consideramos desastroso.

Todos os enganos analisados neste capítulo surgem da tentativa de fazer a aproximação da criança à poesia. Parece-nos, contudo, que os meios de se conseguir isso não são tão difíceis –  e mereceriam, no seu devido tempo, uma maior reflexão.

Referências


CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Poesia na escola. São Paulo: Discubra, 1976. p.31-41.

2 ALMEIDA, Renato de. Literatura Infantil. In: A literatura no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Editorial SuI Americana, 1971. v. 6. p. 190.

3 Mesmo assim nem sempre podemos garantir que os poemas ditos "infantis" foram escritos para crianças. Muitos poemas da obra "para adultos" de Cecília Meireles poderiam figurar em Ou Isto ou Aquilo, de poemas infantis. Sabemos que os poemas com motivos infantis, de extraordinária delicadeza, reunidos por Henriqueta Lisboa em O Menino Poeta não foram escritos para crianças.

4 CARVALHO, Bárbara Vasconcelos de. Compêndio de literatura infantil. 3. ed. ampl. São Paulo: IBEP, s.d. p. 99.

5 É evidente que os termos têm valor diferente, nos dois casos. Em versos diferentes, o adjetivo se destaca do substantivo, e assim são duas as informações que o leitor recebe. No mesmo verso, o conjunto é que impressiona.

6 Convém ressaltar que a sequência constituída pelas estrofes 2 e 3 nos parece ligeiramente moralizadora: o "E encontro o ninho/ de passarinho” surge como recompensa da boa ação da estrofe anterior. A conjunção adquire valor consecutivo. No primeiro poema, cada estrofe – um quadro diferente do sonho - é independente das outras, sugerindo a desconexão dos sonhos.


7 A Autora está exemplificando com Banzo, de Raimundo Correia, como explorar poemas em classe. Após a leitura lúdica, sugere o "Esclarecimento lógico do texto" (levantamento do vocabulário desconhecido), e segue-se a leitura lógica.

8 COELHO, Nelly Novaes. O ensino da literatura. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasilia: INL, 1973. p. 144. Transcrevemos apenas a "tradução" do primeiro quarteto.

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