Volume 4 número 115.11.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434

Volume 4 número 1


Zoo Loco, de Maria Elena Walsh:
algumas questões sobre a sua tradução


Gláucia de Souza

Certa vez, li num dos boletins da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil sobre autores que haviam sido premiados com o Hans Christian Andersen e que nunca haviam sido traduzidos para a Língua Portuguesa. Na lista, constava o nome de María Elena Walsh. Fiquei muito curiosa em conhecer a obra dessa autora e, inicialmente, descobri que escrevia muitos poemas endereçados à infância. Aos poucos, também descobri que era a autora de uma canção da qual gostava muito e que ouvia na voz de Mercedes Sosa.

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Como la Cigarra:
Tantas veces me mataron
tantas veces me morí
sin embargo estoy aqui
resucitando.
Gracias doy a la desgracia
y a la mano com puñal
porque me mato tan mal
y seguí cantando.
(Walsh, 1994, p. 112)

Descobri, também, que ela tinha canções para crianças; que trazia em sua obra referências da cultura popular argentina; e que era, enfim, a grande dama da Literatura Infantil nesse país. Aproveitando a visita de colegas e de amigos à Argentina, encomendei livros de María Elena, pedi que conseguissem informações sobre ela. Conheci várias de suas personagens, muitas delas animais: Manuelita e Dailan Kifki. Em relação à sua biografia, soube de sua origem inglesa por parte de pai, que surge em vários de seus poemas endereçados à infância, através de um nonsense primoroso.

Até que conheci Zoo Loco. Publicado na década de 60, esse livro traz uma coleção de limericks em que vários animais aparecem em situações insólitas. A forma limericks também é uma herança da origem inglesa de María Elena.

Tal forma curta, ao que tudo indica, é de origem popular. Antes de Edward Lear a consagrar, os limericks foram publicados pela primeira vez através dos versos de um anônimo, no livro The History of Sixteen Wonderful Old Women, illustrated by as many engravings: exhibiting their Principal Eccentricities and Amusements, em 1820, por John Harris and Son.


É dessa coletânea de limericks o poema que se segue:
OLD WOMAN OF LYNN




There liv’d an Old Woman at Lynn,
Whose Nose very near touch’d her chin,
You may easy suppose,
She had plenty of Beaux;
This charming Old Woman of Lynn.

(Disponível em http://www.nonsenselit.org/Lear/limbooks/wow04.html,

acesso em 29 de abril de 2006)





Os limericks tornaram-se uma forma poética estabelecida no século XIX na Inglaterra, em virtude de ser a preferida de Edward Lear. São desse autor os que se seguem:


Era uma vez um velho e seu nariz
que sempre advertia: “Se você me diz
que o meu nariz é comprido,
é porque vive iludido!”,
o velho orgulhoso com seu nariz”
(LEAR, 2003, p. 9


No comprido nariz desse senhor,
passarinhos adoravam se pôr;
mas iam todos embora
quando achavam que era hora,
aliviando o nariz desse senhor.
(LEAR, 2003, p. 45)

Pela mesma ocasião em que ouvia falar de María Elena Walsh pela primeira vez, conheci o livro Sem cabeça nem pé, com limericks de Lear, traduzidos por José Paulo Paes e publicados pela Editora Ática. Paes, em suas traduções de Lear, soube recontextualizar para crianças brasileiras o nonsense dos versos de Lear. Desde então, procurei mais e mais textos de Lear e mais e mais traduções de José Paulo Paes.

Traduzir poemas é mesmo muito difícil! Aquele que vai fazer a tradução precisa respeitar as características de um poema: o ritmo, a rima, a sonoridade das palavras, o tamanho dos versos. Tudo isso tentando se aproximar dos leitores da língua para que se esteja traduzindo, sem se afastar muito da língua em que o autor traduzido escreveu.


Desde que conheci Zoo Loco e A book of nonsense, primeiramente através de tradução de José Paulo Paes, não só comecei a ser leitora da obra de María Elena e de Edward Lear, como comecei a sonhar em traduzir Zoo Loco. Minha tarefa iniciou-se tranquila, entretanto, aos poucos, percebi que toda a toponímia utilizada por María Elena no livro era real. No Zoo Loco, a maestria da autora a fez construir um passeio poético por muitas localidades da Argentina. A maioria dos lugares que compõem os limericks encontra-se na Argentina. Como ficaria difícil “traduzir” esses nomes de lugares, eu os troquei por nomes de lugares do Brasil, na maioria das vezes, quer em função da rima, ou quer para que o leitor brasileiro tivesse maior compreensão do limerick. Aprendi isso na tradução que Paes fez dos versos de Lear. Cada escolha de localidade brasileira foi precedida de pesquisa sobre a localidade argentina presente no original. São exemplos Neuquén, Buenos Aires, Lobería e Santiago Del Estero:

Si una Tortuga llega de Neuquén
a Buenos Aires en un santiamén,
lo más probable es que
no haya viajado a pie.
Seguro que fué en ómnibus o en tren.
(Walsh, 1993, p.2)

Se uma Tartaruga vem dos Abrolhos
até Brasília num piscar de olhos,
o mais provável é
que não tenha vindo a pé.
Veio de ônibus ou em galé.

Señores, en Santiago del Estero
un Quirquincho se pasa el año entero
sentadito en su cueva
esperando que llueva,
que caiga una gota en el sombrero.
(Walsh, 1993, p.24)

Senhores, lá pras bandas de Xexéu,
um Tatu passa o ano inteiro ao léu,
sentado em sua toca,
esperando que chova
ou caia um pingo no seu chapéu.


Un Lobo en la ciudad de Lobería
Una vez se metió en la heladería
a comprar un helado
de pollito guisado.
Por suerte le dijeron que no había.
(Walsh, 1993, p.28)

Um Lobo, na cidade de Vacaria,
foi uma vez até a sorveteria
pra comprar um picolé
de ensopado de garnizé.
Por sorte lhe disseram que não havia.


Outra dificuldade adveio da impossibilidade de, por vezes, manter a métrica exata dos limericks, bem como as rimas correspondentes, a saber, AABBA. Nesses momentos, optei por uma aproximação ao original, no que diz respeito ao sentido contido nos poemas em Espanhol, bem como por uma aproximação sonora, que resultou algumas vezes em rimas toantes ou quase rimas.


Por fim, como traduzir o último limerick, que traz uma surpresa de María Elena Walsh para seus leitores? O livro encerra-se com um poema escrito em Vesre, o jeito de falar do Espanhol rio-platense em que as palavras são ditas com as silabas invertidas... Como traduzi-lo mantendo o ritmo próprio ao limerick, bem como as rimas e os animais (pelo menos alguns) citados por María Elena? Depois de muito pensar na ludicidade do Vesre, lembrei-me de minha infância e optei por transcriar o poema na língua do pê, conforme conheci quando era pequena:

Un Nogüipín, un Greti, un Lodricoco.
un Toquimos, un Mapu, una Rratoco.
Una Faraji, un Toga,
un Rrope, una Tavioga,
um Llobaca, un Norrizo y un Teyoco.)

(Umpum Pimpinguimpim, umpum Tipigrepê,
umpum Cãopão, umpum Coipoiopotepê,
umpum Loupouropô,
umpum Gapatopô
epê maispais umpum Japacaparepé.)

Traduzir poemas é um risco e uma doidice!... Mas gosto tanto da maestria dos versos de María Elena Walsh que resolvi arriscar e correr esse doido risco... Um risco doido para o nonsense de um Zoo genialmente Loco!


(Zoo Louco tem lançamento confirmado para o dia 12 de outubro de 2011, pela Editora Projeto, com ilustraçõe sde Angela Lago.)



Referências bibliográficas
LEAR, Edward. Adeus ponta do meu nariz!. São Paulo: Hedra, 2003.
WALSH, María Elena. Las canciones. Buenos Aires: Seix Barral, 1994.
WALSH, María Elena. Zoo loco. Buenos Aires: Sudamericana, 1993.

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