Volume 4 número 115.11.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434

Volume 4 número 1


A relação entre imagem e texto
na ilustração de poesia infantil


Luís Camargo

Luís Camargo é escritor e ilustrador, com mestrado pela Universidade de Campinas. Nasceu em São Paulo em 1954, onde trabalha até hoje no mercado editorial. Ele mesmo escreve e ilustra seus livros e, aqui, ele reflete sobre essas duas formas de expressão. O texto aborda as funções da imagem, os significados denotativos e conotativos da imagem e a presença de algumas figuras de linguagem na linguagem visual. Propõe o conceito de coerência intersemiótica para o estudo das relações entre imagem e texto na ilustração de poesia infantil, exemplificando as três graus de coerência – convergência, desvio e contradição – com três ilustrações para o poema "O Mosquito Escreve" de Cecília Meireles.

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Atribuem-se usualmente à ilustração as funções de ornar ou elucidar o texto junto ao qual ela aparece. No entanto, a ilustração pode ter várias outras funções: representativa, descritiva, narrativa, simbólica, expressiva, estética, lúdica, conativa, metalingüística, fática e pontuação. 2
A imagem tem função representativa quando imita a aparência do ser ao qual se refere; função descritiva, quando detalha essa aparência; função narrativa, quando situa o ser representado em devir, através de transformações (no estado do ser representado) ou ações (por ele realizadas); função simbólica, quando sugere significados sobrepostos ao seu referente, mesmo que arbitrariamente, como é o caso das bandeiras nacionais; função expressiva, quando revela sentimentos e valores do produtor da imagem, bem como quando ressalta as emoções e sentimentos do ser representado; função estética, quando enfatiza a forma da mensagem visual, ou seja, sua configuração visual; função lúdica, quando orientada para o jogo, incluindo-se o humor como modalidade de jogo; função conativa, quando orientada para o destinatário, visando influenciar seu comportamento, através de procedimentos persuasivos ou normativos; função metalingüística, quando o referente da imagem é a linguagem visual ou a ela diretamente relacionado, como citação de imagens etc.; função fática, quando a imagem enfatiza o papel de seu próprio suporte; função de pontuação, quando orientada para o texto junto ao qual está inserida, sinalizando seu início, seu fim ou suas partes, nele criando pausas ou destacando alguns de seus elementos.
Muito mais do que apenas ornar ou elucidar o texto, a ilustração pode, assim, representar, descrever, narrar, simbolizar, expressar, brincar, persuadir, normatizar, pontuar, além de enfatizar sua própria configuração, chamar atenção para o seu suporte ou para a linguagem visual. É importante ressaltar que raramente a imagem desempenha uma única função, mas, da mesma forma como ocorre com a linguagem verbal, as funções organizam-se hierarquicamente em relação a uma função dominante.
 
O par denotação/conotação
A significação global de uma imagem abrange significados denotativos e conotativos: os primeiros referem-se ao ser que a imagem representa, enquanto os significados conotativos referem-se a associações sugeridas pela imagem. Os significados denotativos decorrem principalmente da função representativa, enquanto os significados conotativos resultam principalmente do como a imagem representa, ou seja, da função estética. A análise da ilustração precisa, portanto, focalizar os pólos denotativo e conotativo, ou seja, os significados que decorrem não só de o que a imagem representa mas também de como ela o faz.
Retórica visual
As figuras de linguagem são procedimentos que alteram ou enfatizam o sentido das palavras. Algumas dessas figuras parecem possuir correspondentes bastante similares na linguagem visual, como a hipérbole, a metáfora, a metonímia e a personificação.
Na linguagem visual, a hipérbole abrange os procedimentos de exageração, que ocorrem, por exemplo, na caricatura; a metáfora corresponde a transformações na imagem – ou em seu significado – através de relações de similaridade, por exemplo, na imagem de um pimentão na praia, em anúncio de protetor solar, para sugerir a idéia de "ficar vermelho como um pimentão"; a metonímia corresponde aos casos em que um ser é representado por uma imagem estreitamente ligada a ele, ou seja, em que existe uma relação objetiva entre a imagem e o ser representado, como, por exemplo, na representação de parte de um determinado ser para referir-se ao ser inteiro, como as fotografias para documentos, que são interpretadas como referindo-se a pessoas inteiras e não a cabeças decapitadas; a personificação é a atribuição de características humanas a seres de outros reinos (animais, árvores, pedras etc.), bem como a idéias abstratas, como as figuras alegóricas representando a justiça, a liberdade etc.
Relação entre ilustração e texto: a coerência intersemiótica
Se entendemos que a ilustração é uma imagem que acompanha um texto, então, é preciso reconhecer que a ilustração não tem função isoladamente, mas só em relação a um texto. Não estou me referindo, aqui, ao livro de imagem (sem texto), mas ao livro ilustrado. A relação entre ilustração e texto pode ser denominada coerência intersemiótica, denominação essa que toma de empréstimo e amplia o conceito de coerência textual. Pode-se entender a coerência intersemiótica como a relação de coerência, quer dizer, de convergência ou não-contradição entre os significados denotativos e conotativos da ilustração e do texto. Como essa convergência só ocorre nos casos ideais, pode-se falar em três graus de coerência: a convergência, o desvio e a contradição. Avaliar, portanto, a coerência entre uma determinada ilustração e um determinado texto significa avaliar em que medida a ilustração converge para os significados do texto, deles se desvia ou os contradiz.

Vejamos um exemplo desses três graus de coerência em três ilustrações para um poema infantil de Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 1901-1964), "O Mosquito Escreve".Essa comparação será possível porque o livro ao qual o poema pertence, Ou isto ou aquilo, teve cinco diferentes edições (além de inúmeras reimpressões), sendo ilustrado por cinco diferentes ilustradoras. Mas, para mostrar os graus de coerência entre ilustração e texto, três edições serão suficientes.

 

O Mosquito Escreve
O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.
O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U e faz um I.
Esse mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.
 
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
E ele está com muita fome.
 
O poema "O Mosquito Escreve" narra uma cena explicitada já no título: um pernilongo escreve seu nome, a palavra MOSQUITO. A narração tem a agilidade de um desenho animado, pela ênfase na ação, que se traduz gramaticalmente pela quantidade de formas verbais. Há uma alusão à caligrafia: o pernilongo faz um O bastante oblongo e, em seguida, outro O,/mais bonito, podendo entender-se este mais bonito como mais redondo, pois o pernilongo se arredonda para fazer o segundo O. Aliás, o primeiro O não é apenas oblongo, mas bastante oblongo, o que enfatiza o contraste com o capricho na caligrafia do segundo O. O pernilongo recebe características humanas, já que ele escreve seu nome, o que o conota positivamente, além de sugerir o pernilongo como mímico e a cena como uma pantomima.
Dirigido à criança, o que é explicitado pelo vocativo na penúltima estrofe – não é, criança? – , o poema procura despertar sua simpatia pelo pernilongo. A conotação positiva do pernilongo não visa, obviamente, a destruir noções de higiene e saúde, por exemplo, o pernilongo como transmissor de doenças, mas a acentuar o caráter lúdico da escrita.
 
Ilustração de Maria Bonomi 3
A ilustração de Maria Bonomi para o poema "O Mosquito Escreve" (MEIRELES, 1964), uma xilogravura em amarelo sobre preto, ocupa uma página inteira. A ilustração representa oito pernilongos, distribuídos em duplas, em quatro linhas, formando com seus corpos e patas as letras MO, SQ, UI e TO, ou seja, MOSQUITO.
Os pernilongos são representados com economia e dinamismo. As patas foram reduzidas a duas, o que, com a postura vertical, conota as duas patas como pernas e os traços nas extremidades como pés, personificando os pernilongos.
A maior parte dos pernilongos está de frente. Os que formam as letras S e T estão de perfil. Dois deles estão de cabeça para baixo: os que formam as letras U e I. A distribuição dos pernilongos pela página, a variação de posições e a sua estilização criam uma atmosfera lúdica. A distribuição das letras quebra a leitura horizontal, transformando a leitura em jogo, o que é mais um elemento lúdico.
A ilustração também narra uma cena, a pantomima de um pernilongo que escreve com o corpo a palavra MOSQUITO, o que parece diverti-lo, sugerindo que escrever pode ser uma divertida brincadeira.
 
Ilustração de Eleonora Affonso
A ilustração de Eleonora Affonso e o poema "O Mosquito Escreve" dividem uma página (MEIRELES, 1977, p.35): na metade direita, o poema; na metade esquerda, a ilustração, que representa um pernilongo em sentido diagonal na página, apresentando duas licenças poéticas: o pernilongo é azul e tem apenas um par de asas e não dois, como seria correto. Ao contrário do que ocorre com a redução do número de patas na ilustração de Maria Bonomi, esta redução não parece ter função semântica.
A estilização cromática, ou seja, o uso de uma cor não-referencial, se prolonga na estilização das formas: há uma certa geometrização que, entretanto, não elimina as irregularidades próprias do desenho à mão livre. A função estética se prolonga na ênfase no ritmo visual: linear, formal e cromático. Linear, nas linhas que divergem do corpo para as extremidades das asas. Formal, na simetria das manchas semicirculares nas asas e dos pontinhos distribuídos à esquerda e à direita ao longo da parte superior do corpo. Cromático, na alternância de tons de azul no corpo (faixas alternativamente claras e escuras) e simetria de tons nas asas, ou seja, azul claro junto ao corpo e quase transparente nas extremidades.
As patas anteriores (superiores em relação às margens do papel) parecem formar um O, não totalmente fechado e uma das patas posteriores (a inferior direita, ainda em relação às margens do papel) forma uma espécie de Z, o que sugere um pernilongo dançarino. O pernilongo está mais próximo da margem superior do que da inferior, assim, a inclinação e a altura sugerem vôo e, por isso, um pernilongo que voa dançando. Na ilustração de Maria Bonomi, a verticalidade do pernilongo sugeria o apoio sobre uma linha de terra implícita e, dessa forma, pantomima, e não vôo.
A cor do pernilongo, azul, cor fria, sugere profundidade, introversão, calma, imaginação etc. A cor azul conota, assim, o pernilongo como inseto imaginário.
 
Ilustração de Beatriz Berman
A ilustração de Beatriz Berman (MEIRELES, 1990, p.21) é uma vinheta no canto superior direito, representando um pernilongo paralelo à margem lateral, pousado sobre – e picando – uma letra Q. A representação do pernilongo é bastante descritiva. O descritivismo, entretanto, é mal-sucedido, não se percebendo, por exemplo, se o pernilongo tem seis ou cinco patas.
A ilustração apresenta um leve traço narrativo: as ações de pousar e picar que, no entanto, ficam muito aquém da narratividade do poema. Observe-se, ainda, que pousar e, portanto, parar, contradiz a atividade (narrada) e a agilidade (enfatizada) no poema e que, nele, picar é uma ação secundária. Dessa forma, além de valorizar o secundário, a ilustração contradiz denotações e conotações do poema.
 
Relações entre o poema "O Mosquito Escreve" e suas ilustrações
A ilustração de Maria Bonomi é a que apresenta maior convergência com o poema: a seqüência narrativa, a agilidade, a personificação do pernilongo, o jogo com a escrita e a reiteração de linhas, formas e cores, que cumpre função homóloga à reiteração fônica, lexical e sintática no poema. Dentre as três ilustrações, é a única que enfatiza o ludismo, convergindo, portanto, para a função dominante no poema.
A ilustração de Eleonora Affonso sugere um pernilongo dançarino, o que converge para a conotação de pernilongo-mímico no poema. A movimentação das patas sugere a formação de letras, evitando explicitar a narração do poema, o que pode instigar a imaginação do leitor. A função estética na representação do pernilongo converge para a função poética no poema. No entanto, o azul – na ilustração – conota calma e devaneio, em contradição com a agilidade e o ludismo extrovertido do poema. A ilustração, portanto, converge para os significados do poema mas, a partir de certo ponto, se desvia deles.
A ilustração de Beatriz Berman, com seu descritivismo, tem uma conotação entomológica, na contramão do poema.
Resumindo, entre o poema "O Mosquito Escreve" e a ilustração de Maria Bonomi há uma relação de convergência; entre a ilustração de Eleonora Affonso e o poema ocorre um desvio; a ilustração de Beatriz Berman está em contradição com o poema.
 
Conclusão
A ilustração estabelece uma relação semântica com o texto. Nos casos ideais, uma relação de coerência, aqui denominada coerência intersemiótica pelo fato de articular dois sistemas semióticos: as linguagens verbal e visual. Entre a contradição e o desvio não há diferença de natureza, mas variação de intensidade, cujo limite é difícil de estabelecer com precisão. A convergência nunca é uma equivalência absoluta, em razão das diferenças entre as linguagens verbal e visual. Por isso, não se pedirá que a ilustração represente tudo o que é denotado no texto, pois ela pode estabelecer uma relação metonímica com o texto que pode, inclusive, ser mais instigante do que a minúcia referencial. Nem se pedirá que a ilustração traduza todas as conotações do texto, já que isso é inviável, devido às diferenças das duas linguagens, o que ocorre mesmo na tradução de um texto de uma língua para outra.
Se entendemos que a ilustração é uma imagem que acompanha um texto e não seu substituto; e se entendemos que a relação entre ilustração e texto não é de paráfrase ou tradução, mas de coerência, então, abre-se para o ilustrador um amplo leque de possibilidades de convergência com o texto, convergência essa que não limita a exploração da linguagem visual, mas, ao contrário, pode incentivá-la.
Referências bibliográficas
MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Il. Maria Bonomi. São Paulo: Giroflé, 1964.
_____. _____. Il. Eleonora Affonso. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
_____. _____. Org. Walmir Ayala. Il. Beatriz Berman. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

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