Volume 3 Número 215.03.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434




Nunca é cedo para ler: promoção da leitura na primeira infância

Gislaine Marins, Centro Cultural Brasil-Itália, de Roma

Gislaine Marins vive em Roma, trabalhando e pesquisando no Centro Cultural Brasil-Itália. Em seu artigo, descreve o projeto de promoção da leitura Nati per Leggere (NPL) realizado na Itália com bebês a partir dos seis meses ao longo de todo o período de pré-letramento. O projeto completará dez anos de existência em fevereiro de 2010, e envolve aproximadamente cinco mil educadores e bibliotecários,além de mil pediatras. Nati per Leggere alcança mais de duzentas mil crianças italianas (dados do relatório NPL 2008), compreendendo o equivalente a 24% da população na faixa etária-alvo.

 

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Nati per Leggere (Nasceu para Ler) inspira-se nas experiências americanas Born to Read e Reach Out and Read e a inglesa Bookstart, surgidas nos anos noventa do século XX. Born to Read é promovido pela Associação Americana de Bibliotecas, enquanto Reach Out and Read recebe uma abordagem mais ligada ao desenvolvimento saudável da criança, sendo promovido por pediatras e enfermeiros. Por fim, o projeto inglês Bookstart tem por peculiaridade o foco nas classes menos favorecidas. NPL absorve as diferentes perspectivas e caracteriza-se justamente pela presença de uma rede de coordenação composta pela Associação Cultural de Pediatras, a Associação Italiana de Bibliotecas e o Centro para a Saúde da Criança. O objetivo do projeto não é apenas promover a leitura, mas estimular as funções cognitivas e monitorar o seu desenvolvimento através de um quesito a mais nas consultas pediátricas periódicas de controle que as crianças fazem como praxe por meio de sistema de saúde nacional.

As particularidades metodológicas de NPL são um elemento fundamental para o êxito do projeto. Partindo da escolha rigorosa dos livros a serem oferecidos às crianças, passando por um ritual de leitura em voz alta que deve respeitar algumas regras básicas, até o controle do desenvolvimento da criança e a análise dos efeitos de longo prazo em termos de competências linguísticas, NPL tem capturado a atenção de profissionais em outros países, que sob a supervisão da coordenação do projeto, introduziram NPL na Croácia, Espanha, Alemanha, Suíça e, a partir de dezembro de 2009, no Brasil, na cidade de Goiás.

Atividades ligadas à realização do projeto


Os objetivos do projeto são perseguidos através da sensibilização dos pais sobre a importância da leitura para o desenvolvimento da criança desde os primeiros meses de vida e da assistência à formação de um repertório qualificado de leituras a compartilhar com os filhos. Além dessas atividades de informação dadas aos pais, o projeto realiza-se também em creches, através de educadoras especializadas, que não só leem para os bebês, mas ensinam os pais a lerem para os filhos em casa.

O trabalho de sensibilização realiza-se através de encontros com os operadores (nas consultas pediátricas e contato com educadores) e do guia para os pais, no qual se informa fase por fase o que o bebê é capaz de fazer em relação à leitura, a fim de circunscrever o que se entende por “leitura” em uma fase de pré-letramento. De acordo com as indicações apresentadas pela coordenação do projeto, com um mês de vida, o bebê já é capaz de reconhecer as canções de ninar, sugerindo-se que não se excluam as canções em dialeto ou língua materna diferente da língua oficial do país. A partir dos seis meses, entra em jogo o aspecto visual, de modo que as crianças querem tocar e levar à boca os livros. Por isso, é importante que as propostas sejam feitas levando em consideração a resistência e atoxidade do material impresso. Com doze meses o bebê já é capaz de segurar o livro e virar várias páginas de cada vez. As figuras preferidas (e consequentemente as histórias) referem-se à vida cotidiana (comer, dormir, brincar). Com quinze meses, a criança reconhece se uma face está virada para baixo e começa a sentir gosto com histórias compostas por frases breves e fáceis, que possa memorizar e antecipar. Com dezoito meses, já pode completar as frases das histórias de que gosta, além de antecipar as frases. Aos vinte e quatro meses os livros fazem parte de seu contexto de jogo, e a criança coloca-se no papel de leitor, inventando ou recontando as histórias às bonecas ou animais de estimação. Aos trinta meses, as crianças apreciam histórias que tematizam o cotidiano, mas começam a descobrir temas fantásticos e fábulas. Escolhem as histórias e pedem que lhes contem várias vezes. Crescendo, as crianças adquirem sempre maior autonomia de escolha e mais habilidades de leitura, mas reencontram sempre o prazer de ouvir os pais lendo em voz alta, o que se verifica mesmo quando aprendem a ler sozinhas na escola.

As informações sobre as habilidades infantis compiladas no guia para pais são resultado de observações dos educadores e dos médicos, mas o êxito do trabalho está essencialmente ligado às técnicas empregadas para a realização das leituras: o livro escolhido, o momento, o espaço destinado para a realização da atividade e a qualidade da recitação são fatores decisivos. Os livros escolhidos devem ter quatro características: qualidades físicas que garantam segurança, higiene e fácil manuseio por parte das crianças; qualidade de imagem caracterizada pela legibilidade, posicionamento do objeto figurada em um fundo uniforme, essencialidade e relação com o texto; qualidade de linguagem, marcada pela precisão, ritmo, riqueza de sonoridades, simplicidade adequada às disponibilidades das crianças em cada faixa etária. Por fim, é indispensável considerar a qualidade da história, que deve ter um conteúdo envolvente, relacionado às experiências de quem escuta. Devem ser compreensíveis nas suas facetas emotivas, tratando temas relevantes para as crianças, como as amizades, as dificuldades, os medos. Não menos importante é a necessária presença de estratégias para tratar os temas, como o uso do humorismo, a concatenação entre causa e efeito, a verossimilhança e a logicidade.

A escolha do material para a leitura, uma vez compreendidas as características que os livros devem possuir, fica a critério da pessoa que irá trabalhar com as crianças (pais ou educadores), mas a coordenação nacional do projeto publica anualmente uma lista com os livros selecionados para o projeto, de modo a orientar pais, bibliotecários e educadores que desejem pôr em prática a atividade.

Quanto ao momento dedicado para a atividade de leitura propriamente dita, é importante criar o hábito, reservando um momento fixo e especial para a sua realização. Em relação ao espaço, este deve possuir uma estante proporcional ao tamanho dos pequenos leitores; o leitor deverá colocar-se em uma posição tal que as crianças possam ver e tocar o livro, sem criar obstáculos ou favorecer uma movimentação que distraia da leitura. O ambiente deve ser o mais possível silencioso.

A qualidade da recitação deve caracterizar-se pela participação do leitor que interpreta a história, com a impostação da voz para as diferentes personagens, uso de mímica, variação do ritmo de leitura e disponibilidade para repetir a leitura quantas vezes as crianças pedirem. É importante que durante a leitura as crianças sejam estimuladas a indicar as figuras que marcam alguns momentos da história, que se fale das figuras e repitam-se as palavras mais usadas, que se façam perguntas e permitam-se perguntas das crianças e que se peça para as crianças contarem com as suas palavras as histórias ouvidas.

Estudo de caso


No catálogo de livros indicados para o projeto em 2009, encontra-se Un nido di filastroche (Um ninho de versinhos), de Janna Carioli, ilustrações de Rachele Lo Piano, proposto para a faixa etária de 12 meses. O livro é composto por 45 páginas de 14 x 14 cm, que as crianças podem pegar com facilidade sem deixar cair. Publicado inicialmente em 2004 em formato álbum, em 2006 o livro foi reeditado no formato atual com uma versão musicada dos poemas em cd que acompanha o livro. Em termos de imagem, destaca-se o fato de haver uma figura que representa o sujeito lírico, que reaparece em várias páginas, ilustrando os poemas em primeira pessoa ou aqueles em que a criança é a personagem.

Os textos têm por tema o cotidiano de uma criança que frequenta a creche (“nido” em italiano também é um termo usado para indicar o “berçário” das escolas maternas). Começa com o poema em que o sujeito lírico saúda o pai e fecha-se com o texto em que encontra a mãe. Os poemas incluídos dentro dessa moldura da despedida e do reencontro com os pais tratam de tarefas diárias como lavar as mãos, contar os dedos das mãos, comer, escovar os cabelos, dormir, brincar, compartilhar os brinquedos com outras crianças. Não são poemas em que se entreveja uma função didática ou moralizante predominante. Prevalece o cuidado com a linguagem e a exploração de suas várias qualidades. Eis alguns exemplos de recursos poéticos empregados (a tradução não é literal, mas tenta recriar os efeitos líricos do texto original. Além disso, pretende ilustrar o tipo de tema proposto em cada texto):

Plano fonético:

a) rima rica de um aumentativo com um substantivo (manone/mãozonas – magone/amargor)

Ciao papà

Fammi ciao con le manone
Manda um bacio col magone
manda un bacio col magone
daí, non piangere papà
con le tate resto qua.
 
                                              

 Tchau, papai

Com a mãozona dá tchauzinho
e um beijo engasgado com carinho
papai, não vá chorar, vamos lá,
eu fico aqui com a babá
 

                                                          



b) rima rica de um diminutivo com um substantivo (cicciotta/gorducha – ricotta/ricota)
La pancia

 

La pancia

Pancia cicciotta
budino e ricotta
buccia d'arancia
ghiri ghiri sulla pancia!
 
                                                    

 A barriga

A barriga gorducha
pudinzinho, puxa-puxa
casca de tangerina
blim-blim-blim na barriga! 
                                                  




c) rima rica de um verbo com um substantivo (anulare/anular – contare/contar - festa/festa – resta/resta)

Le dita

Pollice indice medio anulare
fino a quattro puoi contare
ma se in cinque vuoi far festa
serve il mignolo che resta.
 
                                                   
Os dedos

Polegar, indicador, médio, anular
até quatro podes contar
mas se com cinco queres fazer festa
precisas do minguinho que resta.

                                                          

 

d) repetição de encontros consonantais que criam o efeito de trava-língua

Mi sporco le mani

Spiaccico, sfrego, stringo,
tutto di terra mi tingo.
Spappolo, sporco, spingo
che bello giocare col fango!
Emporcalho as mãos
 
                                                     
Emporcalho as mãos

Estreito, esfrego, espicho
todo de terra me pinto.
Espapaço, empurro, emporcalho,
que legal brincar com o barro! 
                                                        



e) uso de repetições que geram o efeito lúdico de onomatopéia

 
Mi lavo le mani

Tu-tuff con le mani
nell'acqua cascata
cia-ciac fa la panna
della saponata
scia-sciaquo per bene
anche l'ultimo dito...
pli-plican le gocce
e il gioco è finito!
 
                                                  
 Lavo as mãos

Tchu-tchuf com as mãos
na água em cascata
chac-chac faz a espuma
toda ensaboada
enxá-enxáguo bem
até o último dedo...
pin-pingam as gotas
e o jogo está feito!
 
                                                 



Plano morfológico:

a) deslocamento de sentido a partir do desmembramento de palavras compostas

Pesci

Pescecane le posate morderà
pesce sega taglia il tavolo a metà
pesce palla salta il piatto e se ne va
ma il merluzzo nella pancia finirà!
 
                                                            
 Peixes

Peixe-cachorro morde os talheres
peixe-serra corta a mesa pelo meio
baiacu-espinho estoura e vai pelos ares
mas o bacalhau vai para a pança em cheio

                                                                      



Plano semântico:

a) paródia de estrofes do repertório popular


Naso campana

L’occhietto e suo fratello
l’orecchia e sua sorella
la bocca e la linguaccia...
Tira il naso campanaccia!
Din don, din don
 
                                                           
Nariz sino

Olhinho janelinha
orelhinha alçapão
língua para fora, portinha...
Nariz sininho!
Sim-não, sim-não
 
                                                    



Neste caso trata-se de uma paródia da estrofe popular em italiano questo è l’occhio bello/ questo è suo fratello/ questa è l’orecchia bella/ questa è sua sorella/ questa è la chiesina/ questo è il campanello/ che fa din-din-din (Este é o olho belo/ este é o seu irmão/ esta é a orelha bela/ esta é a sua irmã/ esta é a igrejinha/ este é o sininho/ que faz din-din-din).


b) uso de metáfora

Treno

I vagoni del trenino
hanno tutti il grembiulino
tieni stretto non mollare
pronti a camminare! 
                                 
 Trem

Os vagões do trenzinho
têm todos o uniformezinho
agarra forte, não podes soltar
pronto, caminhar!
 
                             





Nesses poucos exemplos deu-se mais ênfase a alguns aspectos fonológicos, que se evidenciam na leitura em voz alta e que, para a faixa etária a que se destina, prestam-se ao trabalho voltado para o desenvolvimento da capacidade de escuta atenta das crianças. Não seria possível neste breve artigo dar conta de outros elementos igualmente importantes, como os aspectos sintáticos. Não se levou em consideração, portanto, as questões ligadas à concatenação de ideias, às disposições inusitadas das palavras nos versos em relação ao uso prosaico da língua ou às variações de frases provavelmente já incorporadas ao repertório da criança, para ficar apenas em alguns elementos que os poemas apresentam e que evidenciam a sua qualidade literária.

Assim, evocando somente os elementos mais evidentes na recitação, convém lembrar que esta deve ir muito além da ênfase no ritmo, na rima ou das aliterações presentes, de forma que o leitor (adulto) deve fazer emergir os signos que os poemas contêm, considerando todas as suas dimensões, do plano fonético ao lexical, da sintaxe à semântica. Não é excessivo recordar essas categorias de análise, nem exagerado tomá-las em consideração no momento da leitura para crianças de apenas 12 meses (no caso do texto utilizado como exemplo), caso se pense que aos 24 meses a estrutura da língua já está bastante consolidada, sendo a criança mesma capaz de inventar pequenas histórias ou colocar-se no papel de suas personagens preferidas. A qualidade da linguagem empregada nos textos é fundamental para o sucesso do projeto tanto quanto a consciência do adulto em relação às qualidades mesmas do texto, pois é através da sua interpretação oral que a criança terá mais ou menos oportunidades de experimentar as diversas facetas que os textos oferecem.

No projeto observado, que empregou o livro descrito, além de a história ter sido proposta várias vezes (em diferentes encontros) e de terem sido disponibilizadas as versões musicadas dos poemas, as crianças também eram estimuladas a fazer a interpretação mímica dos textos, acompanhando uma coreografia muito simples que a educadora preparou para cada poema. Assim, além de ver, ouvir e tocar os livros, as crianças experimentavam a história com suas próprias mãos e com o corpo. Todo o trabalho era antecedido pela “ginástica” para ler, que consistia no “alongamento” das orelhas (que as crianças puxavam com as mãos para ouvir melhor), abrir e fechar de olhos (para ver melhor) e o jogo da imobilidade do corpo (para se concentrar melhor). Ao final do encontro, as próprias crianças ajudavam a repor os livros usados na “aula” dentro da mala (adaptada para os deslocamentos, mas com a função de estante), que continuaria a viajar por outras turmas e outras creches, enquanto as crianças aguardavam a próxima lição.

As crianças do projeto observado ainda estão em fase de pré-letramento, contudo, um primeiro resultado no grupo observado já foi obtido: o desenvolvimento do gosto pela leitura e a concentração. Após quinze meses de trabalho, as crianças eram capazes de ouvir até 5 cinco livros durante uma aula, em completo silêncio e demonstrando atenção. Sugeriam elas mesmas as histórias que queriam ouvir no intervalo entre um livro e outro: pois já tinham se apropriado das histórias, que agora eram suas.

 

Textos de referência sobre o projeto Nati per Leggere:

MERLETTI, RitaValentino; DAL GOBBO, Angela (Orgs.). Nati per leggere: catalogo dei libri per i progetti locali (última edição 2009). Roma/Trieste: s/e, 2009.

www.natiperleggere.it .(informações e atos de seminários disponibilizados pelo site).

Nota:
O projeto observado realizou-se durante os anos de 2008 e 2009 em uma creche municipal de Roma.

 

 

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