Volume 3 Número 1 – 15.11.2009 Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman ISSN 1982-9434
Uma sala de aula nas asas da borboleta
Elizabeth D’Angelo Serra
Convidada pela editora de Tigre em Movimento , Mari Regina Rigo relata aqui um trabalho que vem desenvolvendo dentro de sala de aula, com estudantes de 7 a 12 anos, da 1ª à 4ª série do Ensino Fundamental.da E.M.E.F. Castelo Branco, de Canoas. Mari é graduada em Letras pela UNILASALLE e fundadora e organizadora da Biblioeca Comunitária da AMORJI II – Espaço Cecília Meireles, além de primeira secretária do Conselho de Cultura e do comitê PROLER, também de Canoas. O trabalho que ela faz com poesia em sala de aula em origem em um projeto maior, chamado “Nas asas da poesia”, que organiza e execua junto com Ancila Dani Marins, e Maria Arlete Kayser dos Santos. As três oferecem oficinas poéticas para professores e alunos de escolas abrangidas pelo Projeto Educação de Jovens e Adultos- EJA, da Secretaria de Educação Municipal de Canoas – RS. Imprimir o texto
A proposta de trabalho desenvolvida na E.M.E.F. Castelo Branco foi realizada a partir do Projeto Piloto “Nas asas da poesia” e adaptado para alunos de 1º à 4ª série do Ensino Fundamental.
A afirmação de Bordini: “a exposição ao gênero poético ajuda a construir esquemas mentais capazes de imaginar, criar, ressignificar” pode ser constatada em sala de aula. Além de oportunizar o desenvolvimento dessas habilidades na criança, a poesia remete ao lúdico por tratar dos assuntos em geral em forma de jogo de palavras, ritmos, repetições e sentidos múltiplos.
O texto poético permite aos pequenos a incursão no mundo da linguagem com sons e rimas. Mesmo antes de entrar na escola a criança em geral é embalada por canções de ninar. Mais tarde por meio da leitura de poemas ela pode perceber os diferentes sentidos das palavras e sua musicalidade poética.
Realizo atividades envolvendo a poesia durante o ano todo. A poesia é explorada desde a hora da entrada na sala de aula e ao abordar temas como socialização, identidade, escola, livro, família (mãe, pai, irmão e os demais parentes), festas juninas, pátria, brinquedos, corpo humano, meio ambiente, talentos de cada um, natal e outros.
Apresento aos alunos textos poéticos de diferentes autores sempre contando a sua biografia. Além da leitura, declamação e ilustração podem também reescrever poemas ou criar outros.
Os alunos observam as características dos poemas como: os versos, as rimas, as estrofes, o ritmo, os sentidos os vocábulos novos, as figuras de linguagem e depois sabem identificar os acrósticos, os haicais, os sonetos, as canções e cantigas de roda e de cordel.
Inicio as aulas com uma música que aprendi no meu tempo de escola acompanhada de gestos:
Alô, bom dia !
Oh, como vai você ?
Um olhar bem amigo,
Um claro sorriso,
um aperto de mão.
E a gente sem saber
Como e por que
Se sente feliz
E sai a cantar
Alegre canção.
Bom dia, nada custa
Ao nosso coração
A Deus se deve amar
Amar com distinção
Alô, bom dia, irmão!
O sapo não lava o pé
Não lava porque não quer
Ele mora na lagoa
Não lava o pé
Porque não quer.
O ...................não lava o pé
Acrescenta o nome de cada um
No lugar do sapo e o resto canta
Igual.
IDENTIDADE
Quando eu era nenê
Eu era assim 3x
Gesto de bebê nos braços
Quando eu era menino
Eu era assim 3x
Gesto jogando bola.
Quando eu era rapaz
Eu era assim 3 x
Gesto marchando.
Quando eu era papai
Eu era assim 3x
Gesto dirigindo.
Quando eu era vovô
Eu era assim.3x
Gesto de vovô com bengala.
Quando eu era menina
Eu era assim 3x
Gesto de pular corda.
Quando eu era mocinha
Eu era assim 3x
Gesto de se maquiar.
Quando eu era mamãe
Eu era assim 3x
Gesto de varrer a casa
Quando eu era vovó
Eu era assim 3x
Gesto de andar de bengala
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Nas asas da poesia
No mês de março em comemoração ao dia da poesia utilizo a obra de Mário Quintana:
Quem faz um poema
Abre uma janela.
Respira, tu que estás
Numa cela abafada,
Esse ar que entra
Por ela.
Por isso é que
Os poemas têm ritmo
Para que possas
Profundamente respirar.
Quem faz um poema
Salva um afogado.
E ambém rabalho o livro de Ricardo Azevedo: 19 poemas desengonçados.
No mês de abril com os poemas Caixa mágica de surpresa,de Elias José e a música do Sítio do Picapau-Amarelo relembrando que dia 18 de abril é dia do livro infantil em homenagem a Monteiro Lobato.
No mês de maio os alunos produzem acrósticos em homenagem às mães e relembro Mário Quintana:
Mãe! São três letras apenas
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais...
E nelas cabe o infinito.
E palavra tão pequena
- confessam mesmo os ateus –
É do tamanho do Céu!
E apenas menor que Deus...
Em junho comemoramos o aniversário da cidade de Canoas e canto com eles o Hino de Canoas:
Canoas minha terra
Município de valor
Coração que dentro encerra
Tanta bravura e tanto amor.
Também nesse mês eles se preparam para as apresentações das festas juninas utilizando as rimas folclóricas.
Gosto de morar no alto
Porque do alto enxergo bem
A casinha do meu sogro
E a janela do meu bem.
Eu sou um espinho
Que ninguém bota a mão
Minha mãe é uma rosa
Meu pai é um botão.
Em julho ilustram provérbios e trava-línguas.
Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Filho de peixe, peixinho é.
A fruta não cai longe do pé.
É de pequeno que se torce o pepino.
Trava-língua:
O rato roeu a roupa do Rei de Roma.
A Rainha de raiva roeu o resto.
Exploro também a obra de Vinicius de Moraes que é muito rica em musica e poesia e também porque a biblioteca da escola tem esse nome.
O Pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou no poleiro
No pé do cavalo
.........................
Tantas fez o moço
Que foi pra panela.
No mês de agosto fazem acrósticos para o papai e estudam o folclore. Utilizando a musica Festa das nações é feito uma coreografia apresentada para as outras turmas.
Na Semana da Pátria, em setembro, ilustram o Hino Nacional e cantam diariamente.
No mês de outubro é brincadeira de todos os jeitos. Com o poema de Elias José “A casa e seu dono”.
Essa casa é de caco
Quem mora nela é o ............................. (macaco)
Essa casa tão bonita
Quem mora nela é a ............................. (cabrita)
Essa casa é de cimento
Quem mora nela é o ............................. (jumento)
Essa casa é de telha
Quem mora nela é a ............................. (abelha)
Essa casa é de lata
Quem mora nela é a .............................. (barata)
Essa casa é elegante
Quem mora nela é o ............................. (elefante)
E descobri de repente
Que não falei em casa de....................... (gente)
No mês de novembro há Mostra de Talentos na nossa escola onde as crianças que se destacaram durante o ano com a produção de textos são escolhidas para serem os escritores mirins. Destaco então os poemas feitos pelas alunas Laura, Vitória e Roberto.
Arte
Laura Koenig Schmith
Arte é escultura
Tela com pintura
Mesmo sem moldura
Cinema e televisão
Tudo pura emoção
Musicas e tecidos
Também são arte
E para o artista
Isto nele faz parte
Dança acompanhada
Mesmo quando improvisada
Da Vinci teve reconhecimento
Só depois de morrer
Mas de lá pra cá
Só começou a crescer
Arte tem que ter inspiração
E depois de pronta
É pura emoção.
Canoas que te quero
Laura Koenig Schmith
A cidade onde eu moro se chama Canoas
Lá tem muitas historias boas!
A terra dada à família Pinto Bandeira
Hoje tem muitos centros,
Lojas, bairros e feiras.
Cidade de povo trabalhador
Que só assim se torna conquistador
De nome belo Canoas
Me recorda muitas lembranças boas.
Esse poema foi feito em dupla por duas alunas da 4ª série a partir da poesia de Mário Quintana “Batalhão das Letras”.
Versos do ABC
Vitória Flores e Roberta Millarch
A
A árvore brota a vida
E a flor a alegria
De todo o dia
A árvore brota o ar, pra respirar
E o amor, para amar.
B
A Borboleta voa sem parar
E desperta e sua beleza
Colorida pelo ar.
C
Coração a moradia dos sentimentos
Não importa o lugar
Não importa o momento
Ele é lindo até por dentro.
*O restante desses versos foram enviados à Luiz Raul Machado depois da sua visita a nossa escola.
No mês de dezembro são feitos cartões e poemas de Natal.
É necessário salientar que a medida que são ministradas as oficinas são acrescentadas atividades variadas diante da criatividade das crianças exploradas em desenhos, teatro, musica e produção de textos. Fica evidente que para as crianças as oficinas são encaradas como brincadeira e encantamento no jogo de palavras e retratando o seu mundo.
Para finalizar, cito Mário Quintana:
“Os livros de poema devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientes claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos – gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas – que passarão também a fazer parte dos poemas...”
Referências Bibliográficas
AGUIAR, Vera Teixeira de e BORDINI, Maria da Glória.. Literatura – A Formação do Leitor – Alternativas Metodológicas. 2 ed,. Porto Alegre: Mercado Aberto 1983.
GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Tradutora Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002.
QUINTANA, Mário. Lili inventa o mundo. São Paulo: Global, 2005. (Coleção Mário Quintana)
ANDRADE, Carlos Drumond de, Simplesmente Drumond. Rio de Janeiro: Record, 2002 Literatura em minha casa.
PIRATA, Mário. O fazedor de balões. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2001.
BANDEIRA, Pedro. Cavalgando o arco-íris. São Paulo: Moderna, 2002.
Nas Asas da Poesia
O Projeto “Nas asas da poesia” consiste na realização de Oficinas de Poesia com Professores e alunos das Escolas que desenvolvem o Projeto Educação de Jovens e Adultos- EJA, da Secretaria Municipal de Educação, do município de Canoas(RS). Nesta primeira edição, decidiu-se por trabalho voluntário da Casa do Poeta, no intuito de divulgar a entidade literária; os poemas das nossas Coletâneas (2003 E 2005); e especialmente para rememorar Mario Quintana, no ano do centenário do seu nascimento, apresentar aos participantes das oficinas noções básicas da arte poética e a releitura do maior número possível de obras, ilustrações e poemas deste consagrado poeta gaúcho.
Objetivos
*Desenvolver a sensibilidade e a observação.
*Perceber o belo e a harmonia da natureza como um todo.
*Estimular o gosto pela leitura de poesias .
*Utilizar a linguagem poética para expressar sentimentos, experiências e idéias.
*Conhecer a vida e a obra de Mario Quintana.
*Oportunizar tempo para produção de poesias.
*Reunir as poesias dos participantes da oficina para editá-las num livro.
Observação: Este projeto foi desenvolvido em 2006 ,entretanto , foi utilizado nos anos seguintes com pequenas adaptações como o estudo da obra de diferentes escritores e as atividades adequadas ao nível escolar do aluno bem como a presença do escritor na escola quando possível.
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Nossas publicações acontecerão no dia 15 de novembro, 15 de março e 15 julho de cada ano. Se você quiser receber um lembrete a cada nova edição, preencha, sem qualquer custo, o formulário abaixo.
Tigre inquieto
Publica artigos sobre algum aspecto particular da poesia para crianças. Editores: Sérgio Capparelli, Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini.
Tigre ao espelho
Contribui com discussões sobre o fazer poético mais amplo, em que a ilustração ou design se institui enquanto uma das vozes importantes da interlocução entre autor e leitor. O espelho apresentará autores ou ilustradores nacionais e estrangeiros, falando sobre seu trabalho, em entrevistas ou depoimentos. Editora: Annete Baldi
Tigre em movimento
Propõe o relato de trabalhos práticos com poesia infantil em qualquer nível educacional. Editora: Elizabeth D'Angelo Serra
Tigre digital
Ocupa-se de poéticas digitais para crianças, com descrição ou críticas de sites de poesia infantil no Brasil e no exterior. Editor: Miguel Rettenmaier.
Tigre à mesa
Apresenta ou publica críticas à produção editorial do período, dentro da área, tanto em relação a textos de reflexão como a livros, produtos ou espaços de poesia para crianças. Editor: Sérgio Capparelli.
Conselho Editorial
O Tigre Albino tem um Conselho Editorial integrado pelas seguintes pessoas:
Blanca Roig da USC e da LIJMI, Espanha;
Ezequiel Theodoro da Silva, da UNICAMP e da ALB, Brasil;
Isabel Mociño Gonzáles, da USC e da LIJMI, Espanha;
Laura Sandroni, da FNLIJ, Brasil;
Maria Antonieta Cunha, da PUC-MG, Brasil;
Marisa Lajolo, da UNICAMP e Mackenzie, Brasil;
Silvia Castrillon, da Asolectura, Colômbia;
Virgilio López Lemus, do ILL, FAyLUH e AChttp://fayl.uh.cu e ACC, de Cuba.
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