Volume 4 número 115.11.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434

Volume 4 número 1


O livro e a busca de um conceito
estético de literatura infantil


Annete Baldi

A editora Annete Baldi entrevista Guto Lins, escritor, designer e professor da PUC-Rio. Para ele, descobrir a linguagem adequada para que exista comunicação é importante na criação de um conceito estético do livro infantil. Mas diz não ter receios de novas tecnologias, considerando que esses novos formatos constituem apenas suportes diferentes da leitura, inclusive enriquecendo o ato de ler. Entre os livros de Guto Lins estão Torpedo,  A Hora H, Cadê, Caderno de Viagens, Lá em Casa tem um Bebê, Manual de Boas maneiras: para Crianças de todas as Idades, O Enigma do Camaleão. Como designer, ele também está atento às exigências ou não de ilustrações em livros para crianças.

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Tigre ao Espelho - A criança de hoje vê o mundo de uma forma diferente do que nós, adultos, pois ela já nasceu na era da internet, das imagens digitais e das informações rápidas. De que maneira o designer de um livro para crianças lida com esse perfil de leitor?

Guto Lins - A criança de todos os tempos sempre enxergou o mundo diferente do que os adultos. Ainda bem!

Sempre utilizo uma analogia: é possível contar a mesma piada para uma criança de 8 e para um idoso de 80. Para cada um deles, procura-se o vocabulário, o tempo e o volume da voz adequados. Ou seja, cada ’público alvo’ tem seus códigos e o meu barato é descobrir esses códigos, é tentar me comunicar de todas as maneiras.
Virtualmente também e não somente para a literatura.

Descobrir a linguagem adequada para que a comunicação se estabeleça, grosso modo, é um vetor criativo e estimulante tanto na criação de um conceito estético para um livro infantil quanto para solucionar um cartaz para cinema ou uma revista para adultos.

TE - Que função tu achas que o livro infantil cumpre hoje, ou deveria cumprir, para contribuir com a formação de leitor dessa criança de hoje?

GL - O livro é um veículo de informações. Ponto. Ok, muitas dessas informações são subjetivas, sensoriais, imensuráveis, mas existem outros veículos capazes e muitos ainda serão inventados. Em termos físicos e óticos, um livro/texto, em breve, poderá até ser lido mais confortavelmente no formato eletrônico. O formato eletrônico também possibilita imagens em movimento e narrativas paralelas, coisas que o livro físico não suporta. Em contrapartida o livro físico possibilita experiências lúdicas exclusivas, que só fazem sentido quando vivenciadas fisicamente. Tudo ao mesmo tempo, agora.

Tentando responder melhor, o livro, seja ele em que formato ou suporte for, tem o poder de transformar, de abrir portas, quebrar barreiras e deveria fazer parte do dia a dia e não do dever de casa. Assim como ir ao cinema, ao teatro e conversar em volta de uma fogueira. Mesmo que seja uma fogueira metafórica.

TE - Além de ilustrador e escritor, tu és professor no curso de design. Em tuas aulas da universidade trabalhas também com a literatura infantil?

GL - Como citei lá em cima, o livro infantil, enquanto objeto e veículo de informações, é pela ótica do design tão projetável quanto uma revista que trate de economia. Realmente tenho, nos últimos anos, orientado alguns projetos de conclusão do curso de design gráfico na Puc Rio, voltados para o público infantil. A maioria deles projetos literários, mas também alguns jogos, projetos multimídia e suportes pedagógicos. A orientação sempre é forçar a pesquisa aprofundada e focar sempre no ótimo. Ajudando o aluno na busca da melhor solução. Sempre.

TE - Como é teu processo de criação do design de um livro em geral? É diferente quando o texto é também teu?

GL - É até engraçado, mas acaba rolando uma certa linha de montagem. Grosso modo, a hierarquia é TEXTO > PROJETO EDITORIAL > PROJETO GRÁFICO > ILUSTRAÇÕES.

Brinco que quando o texto é meu posso me dar ao luxo de mudá-lo para favorecer a diagramação, mas o texto é o início de tudo. Respeito absoluto. Quando trabalho com textos de colegas, faço seguidas leituras, quase até o ponto de me sentir um pouquinho dono do texto também. Esta ’familiaridade’ faz bem. Nos meus livros, tudo se mistura mais ainda. Um exemplo: em 2001 fiz um livrinho para a minha mãe no dia das mães. Quando estava fazendo percebi que aquilo podia ’dar samba’. E deu. Escrevi mais 2 na sequência FILHO e PAI e hoje a Coleção Família já tem 10 volumes. Todos permeados com textos e imagens bem familiares pra mim. Agora, como disse lá em cima, existe uma hierarquia e a ilustração que não ’funcionar’ vai pro lixo sem pena. Tudo sempre mirando no livro perfeito.

TE - Disseste em Livro infantil? (Rosari, 2002) que cada livro “pede” uma solução específica. Como tu descobres qual é a melhor solução?

GL - A leitura subjetiva e objetiva do texto e do produto livro que dele surgirá gera um padrão estético que, por sua vez, pede, exige um estilo para as ilustrações. Assim cada livro acaba tendo uma solução exclusiva. Tenho livros com ilustrações feitas à mão com pastel a óleo, outras feitas totalmente no computador, algumas sendo solucionadas com fotografias e até tipograficamente. Vale tudo na busca da melhor linguagem.
Às vezes a encontramos e em outras não, mas a busca continua.

TE - Como foi tua relação com os livros, com a leitura e com a poesia na infância e na adolescência?

GL - Tem uma imagem que gosto de resgatar. Quando criança, passava todos os natais em Vitória (ES). Éramos 27 primos e tínhamos uma brincadeira familiar chamada de ’camoneboi" (com esta grafia fica mais fácil entender nossa pronúncia). Meu avô era da Academia Espírito Santense e sua biblioteca era o melhor esconderijo da casa. Me lembro muito de após ser ’camoneado’ o consequente acender de luzes revelava livros diversos. E livros didáticos de minhas tias se misturavam com clássicos gregos numa boa. Portanto acho que descobri desde cedo que livros podem ser ótimos esconderijos e acendem luzes para outros e outros...

TE – Qual tua relação com a leitura hoje?

GL - Leio de tudo. Quer dizer, evito best sellers e uso os de auto-ajuda como peso de papéis ou para dar prumo em mesas mancas. Sou daqueles que leva pras férias na praia todos os livros acumulados durante o ano e acaba não lendo nem 1/3 deles. Além disso tudo, tenho que ler, e muito, profissionalmente. Leio um livro para fazer sua capa, uma peça para fazer seu cartaz.

TE - Ao escrever um poema para uma criança bem pequena como em É o maior (O Elefante é o maior,/ é um bicho da pesada./ Só não é bom motorista:/ ele dá muita trombada.), ou para os leitores maiores como em Torpedo (Entre confetes e serpentinas, linda menina caiu prisioneira com fantasia e tudo e o Zorro ficou mudo quando o verde invadiu seus olhos, queimando tudo,/ Queimando a máscara./ Queimando os nós.../ E a prisioneira virou algoz.), em que tu pensas primeiro: no significado ou na sonoridade? De imediato já pensas em como vais ilustrar o texto?

GL -Não existe uma regra. Acho que ambos são frutos da mesma necessidade primal de comunicação. Mal comparando, estruturas, métricas e rimas são ferramentas semelhantes ao photoshop, à aquarela ou ao carvão. Descobrir a ferramenta certa, a palavra exata, o traço mais adequado ou o melhor padrão cromático são peças de um quebra-cabeças e cada livro é um jogo diferente.

Nos exemplos específicos. Escrevi inicialmente uns 3 ou 4 (poemas) e pensei em comercializar como postais. Foi ficando na gaveta. Tempos depois me ligaram perguntando se eu tinha algum projeto inédito. Me lembrei da gaveta e sai escrevendo que nem louco. Aí o desafio foi exatamente a métrica, já que todos os candidatos tem direito ao mesmo espaço. A métrica da poesia é totalmente democrática e foi resultado de muita transpiração.

O Torpedo é um exercício de outra linguagem. É um livro para um público mais graúdo, adolescente, e usa e abusa de recursos gráficos e linguagens variadas. Mas, com todas as diferenças, em ambos tem a busca de entender e de ser entendido.

TE - A maioria de teus livros apresenta uma profusão de imagens que se associam ao texto de uma forma bem particular, criando um encadeamento surpreendente, uma mescla, uma fusão. Fala mais como esse “textoimagem” que propões ao leitor (que já virou uma marca...) é arquitetado?

GL - É ’tudo ao mesmo tempo agora’, mas existem hierarquias. Na verdade, tudo depende do texto. O texto ’pede’ as imagens. O texto pede inclusive pra ser tratado como imagem também. Em alguns livros (como o citado É o maior) o texto é comportadíssimo e obedece uma mancha gráfica bem definida. Creio que, na verdade, o diferencial está em minha formação em design. O designer tenta atender a inquietude e a necessidade de fazer a comunicação acontecer.

TE - Em contrapartida, no livro Torpedo Amores e Relâmpagos (Dimensão, 2006) tu intercalas os blocos de textoimagem com poemas e outros textos menos ilustrados. Para o poema “Sangue Bom”, por exemplo, a imagem é mínima. Como funciona na tua balança o peso para o texto e o peso para a imagem?

GL - O barato desse livro (e de outros 2 da mesma coleção: A Hora H e Caderno de Viagens) é exatamente a variação de linguagens. O livro trata de histórias de amor, de encontros e desencontros. Para um coração apaixonado um pequeno bilhete pode ter a força de uma bomba atômica e, às vezes, uma imagem pode valer por mil palavras.

TE - Tu és autor, ilustrador e designer. Consegues separar essa tríade de criação?

GL - Normalmente faço projetos simultâneos, assim consigo intercalar as tarefas (e ainda sou professor, pai, marido…) e os desafios. O segredo é tentar se divertir com todas elas.

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Tigre inquieto

Publica artigos sobre algum aspecto particular da poesia para crianças. Editores: Sérgio Capparelli, Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini.

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Contribui com discussões sobre o fazer poético mais amplo, em que a ilustração ou design se institui enquanto uma das vozes importantes da interlocução entre autor e leitor. O espelho apresentará autores ou ilustradores nacionais e estrangeiros, falando sobre seu trabalho, em entrevistas ou depoimentos. Editora: Annete Baldi

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