Volume 3 Número 215.03.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434




Poesia para crianças: Pablo Neruda

Sérgio Capparelli

Dizer que os poemas de Pablo Neruda podem ser endereçados às crianças é temerário. De que maneira as crianças conseguiriam fruir uma criação literária cheia de metáforas complexas, com temas normalmente ausentes da cultura infantil? Difícil responder. A resposta requer, de início, uma análise do caminho sinuoso, percorrido por alguns poemas de Neruda  até o seu público, e também as voltas e voltas que as crianças dão até cair em seus poemas. A verdade é que Neruda se soma a numerosos poetas de primeira linha, que vão de Lorca a Brecht, de Prévert a Apollinaire, que criam aqueles poemas sem idade, apreciados por um público adulto ou infantil. Não o Neruda do Cadernos de Temuco, cujos poemas foram escritos quando ele tinha 15 anos. Mas sim os poemas da fase madura, quando a linguagem fica mais simples e cria uma atmosfera de intimidade com todo tipo de leitor.

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Os caminhos dos poemas até as crianças


Ao consultar coletâneas de poesia destinadas ao público infantil de diversos países, você encontra com frequência Basho, Apollinaire, Walter de la Mare, Prévert, Josef Guggenmos, Maria Elena Walsh, Maurice Carême, Garcia Lorca, Lewis Carrol, Lear, Brecht e mais recentemente Emily Dickinson, Ted Hughes. Entre nós, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Mário Quintana, Manoel de Barros, José Paulo Paes e mais recentemente Marina Colasanti, Maria Valéria, Roseana Murray ou Bartolomeu Campos de Queirós.

Essa lista não pretende ser representativa e serve apenas de exemplo quanto aos diversos caminhos de um poema até seu público infantil. Vamos ver, por exemplo, como a produção de determinado poeta tem um encaminhamento comum aos pequenos leitores. Por exemplo, na lista acima, muitos autores escreveram para adultos e mais tarde o aparelho escolar, os críticos e, claro, as editoras, endereçaram às crianças (Basho, Apollinaire, Prévert, Lorca, Lear Emily Dickinson Manuel Bandeira). Há também aqueles que têm uma obra predominantemente destinada aos adultos, mas em algum momento escreveram livros endereçados ao público infantil (Brecht,Ted Hugues, Cecília Meireles, Vinícus de Moraes, Mário Quintana, José Paulo Paes, Marina Colasanti). E finalmente, alguns poetas têm uma obra predominantemente destinada às crianças (Lewis, Guggenmos, Maria Elena Walsh, Maurice Carême, Roseana Murray, Maria Valéria, Leo Cunha e Barolomeu Campos de Queirós).


A partir desses diversos caminhos dos poemas até as crianças poderemos concluir que numerosas forças atuam na sua aceitação ou não sua legitimidade como um poema para crianças. Existe um jogo de forças, em suma, no e ao redor do poema. No poema, porque ele deve ter qualidades literárias, ou seja, carregados de significação.Mas ao mesmo tempo deve vir numa linguagem acessível às crianças, não só quanto ao vocabulário utilizado como também à complexidade de figuras de linguagem, especialmente quanto ao uso de metáforas. Deve ter um tema que interesse às crianças, conforme sua idade. Poemas de amor chamam mais a atenção dos adolescentes do que de crianças na idade pré-escolar. E poemas com todas essas características assinalados são encontrados na produção poética de William Blake ou Goethe, em Octavio Paz ou D.H. Lawrence.


Os caminhos das crianças até o poeta


Pode parecer estranho falar em William Blake ou Emily Dickinson para crianças. Essa estranheza desaparece quando estudamos a compatibilidade dos versos desses dois poetas uma atenção especial para os caminhos de uma criança até a poesia. Porque os poemas são construções culturais de uma determinada época, o mesmo podendo se dizer da criança, que não existia até bem pouco tempo na história da humanidade. Mas, ainda hoje, nunca o conceito de criança foi tão relativo.

Veja a criança brasileira, por exemplo. Ela não existe enquanto um conceito único, de norte ao sul com as mesmas características. Existem, sim, crianças brasileiras, no plural. Além disso, essas crianças, brasileiras ou não, são categorias criadas pela sociedade para abranger determinado ciclo vital, geralmente em oposição, ou melhor, anteposto ao ciclo da vida adulta. E na maior parte dos países esse primeiro ciclo vai até os 18 anos. Mas dependendo do gênero, classe, história e mesmo ciclo vital esse primeiro ciclo se subdivide em muitos outros, até por que uma “criança” de 17 anos tem pouco a ver com uma criança de 4 anos. No caso de uma criança de17 anos acontecem o que Bob Franklin chama anomalias: ele,”criança”, pode ser mãe de crianças, trabalhar, sustentar um lar e votar. Ele diz:

Na verdade, definições de crianças, assim com as diversas infâncias de que as crianças têm experiência, são construções sociais formados por um range de fatores sociais, históricos e culturais. Ser criança não é uma experiência universal de qualquer duração fixa, mas é construída, expressando de maneira diferente, características de gênero, classe ou situações étnicas ou históricas (Franklin, 1995:7).

Em outras palavras, uma criança de três, cinco ou oito anos pode percorrer um caminho no qual está ausente Pablo Neruda, visto que esse autor exige um maior nível de compreensão. Por outro lado, um jovem a partir da pré-adolescência percorrerá sozinho esse mundo fascinante e misterioso do poeta chileno, inclusive saboreando alguns de seus poemas mais sensíveis, como os 20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada.


Os caminhos do poetas até seus poemas

Ezra Pound diz que o fato do crítico se interessar mais pelo autor do que pela obra é sinal de que sua crítica pode bailar na curva. Porém, como aqui não se trata de crítica mas de apresentação, é indispensável um retrato de Pablo Neruda, mesmo que seja três por quatro. Assim, como uma legenda de foto que não existe: Pablo Neruda (1904-1974) prêmio Nobel de Literatura, associou a criação poética a um simples troca de presentes em sua infância. Ele escreve em 1954, em sua casa, na Isla Negra:

“Una vez, buscando los pequeños objetos y los minúsculos seres de mi mundo en el fondo de mi casa en Temuco, encontré un agujero en una tabla del cercado. Miré a través del hueco y vi un terreno igual al de mi casa, baldío y silvestre. Me retiré unos pasos, porque vagamente supe que iba a pasar algo.


De pronto apareció una mano. Era la mano pequeñita de un niño de mi misma edad. Cuando acudí no estaba la mano porque en lugar de ella había una maravillosa oveja blanca. Era una oveja de lana desteñida. Las ruedas se habían escapado. Todo esto la hacía más verdadera. Nunca había visto yo una oveja tan linda. Miré por el agujero, pero el niño había desaparecido. Fui a mi casa y volví con un tesoro que le dejé en el mismo sitio: una piña de pino, entreabierta, olorosa y balsámica, que yo adoraba. La dejé en el mismo sitio y me fui con la oveja. Nunca más vi la mano ni el nino” (Neruda, 2010).

Ao relatar, ele diz que essa história sugere que oferecer nossa amizade para alguém que não conhecemos, fortalecemos nosso vínculo fraterno com toda a humanidade. Ele estava falando também sobre solidariedade e poesia, pois, segundo ele, esse pequeno intercâmbio misterioso permaneceu talvez tenha se depositado como um sedimento indestrutível em seu coração, acendendo minha poesia.

Neruda escreveu essas lembranças em 1954. Ele havia nascido Ricardo Reyes Basoalto,mas havia se inspirado no poeta tcheco Jan Neruda para escolher o pseudônimo Pablo Neruda, em 1920, com que assinava seus livros. Mais tarde ele adota oficialmente esse nome. Quando relata a história ocorrida no fundo do quintal de sua casa em Temuco tem 50 anos. Havia publicado alguns de seus livros mais importantes, Crepusculario (1923) Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924) , havia sido cônsul na Birmânia (1927) no Ceilão (1928), em Java (1930), em Cingapura (1931). Publica Residencia en la tierra (1933). É nomeado cônsul em Barcelona (1934), cônsul em Madri (1935) e Cônsul em Paris (1939). É eleito Senador da República do Chile (1945), seguindo para o exílio em 1949. Publica Canto geral (1950) e Versos do Capitão (1952), Cem Sonetos de Amor (1959), Odes elementares (1954), Novas odes elementares (1955),Terceiro livro de odes (1957), Memorial da Ilha Negra (1964) e Barcarola (1967), Livro das perguntas (1974).

Interessante observar os ritmos temporais e criativos de Neruda. Só em 1996, os originais dos primeiros poemas de Neruda, escritos quando ele tinha 15 anos, foram publicados. Dois anos depois essas poesias da juventude saíram no Brasil pela BCD União de Editoras, do Rio de Janeiro. No entanto, um livro escrito por um poeta aos 15 anos não significa uma aceitação pelos leitores da mesma idade. Mais do que isso: visivelmente os versos não eram endereçados aos jovens, mas a um leitor imaginário adulto. Além do mais, Neruda ainda não tinha a mestria, a musicalidade e as inovações técnicas dos poemas que viriam depois.

Os Cadernos de Temuco, de Neftalí Reyes, não tem a poderosa força alada que se ergue sonora das paginas que durante quase meio século iria escrever Pablo Neruda. Eles são como as pedras fundamentais sobre as quais se elevou o iluminado monumento que é hoje, para quem ama a poesia em qualquer lugar deste mundo, a obra do vate chileno (Thiago de Melo, 1998:15).

Só mais tarde Neruda vai adquirir o domínio da espontaneidade e simplicidade nos versos que criava. Não é à toa que os poemas preferidos por crianças e jovens pertencem ao período de maturidade do poeta, especialmente os retirados de suas Odes Elementares (1954) e o Livro das Perguntas (1974). Da fase inicial do poeta, citaremos apenas Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, que desde sua composição e publicação em 1924, quando o autor tinha 20 anos, continua a encantar jovens e não tão jovens.

Oda al gato

Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere. 
                                                                                            
 Ode ao gato

Os animais foram
Imperfeitos
Compridos rabos, tristes
De cabeça
Pouco a pouco foram
Se compondo
Fazendo-se paisagem,
Adquirindo manchas, graça, vôo.
O gato,
Só o gato
Apareceu completo
E orgulhoso:
Nasceu completamente terminado,
Caminha só e sabe o que quer. 
                                                                                     
El libro de las preguntas – XLIV
Donde está el niño que yo fui



Dónde está el niño que yo fui,
sigue adentro de mí o se fue?

Sabe que no lo quise nunca
y que tampoco me quería?

Por qué anduvimos tanto tiempo
creciendo para separarnos?

Por qué no morimos los dos
cuando mi infancia se murió?

Y si el alma se me cayó
por qué me sigue el esqueleto?
O livro das perguntas - XLIV
Onde está o menino que eu fui



Onde está o menino que eu fui
Continua dentro de mim ou se foi?

Sabe que nunca o quis
E que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
Crescendo para nos separar?

Por que não morremos os dois,
Quando minha infância morreu?

E se a alma caiu-me
Por que me segue o esqueleto?

Oda a la manzana

A ti, manzana,
quiero
celebrarte
llenándome
con tu nombre
la boca,
comiéndote.
quiero ver
a toda
la población
del mundo
unida, reunida,
en el acto más simple de la tierra:
mordiendo una manzana. 
                                                                                            
 Ode à maçã

A ti, mnaçã,
Quero
Celebrar-te
Enchendo-me
Com teu nome
A boca,
Comendo-te;
Quero ver
Toda
a população
Do mundo
Unida, reunida,
No ato mais simples da terra:
Mordendo uma maçã. 
                                                                                    
Oda a la tristeza

TRISTEZA, escarabajo
de siete patas rotas,
huevo de telaraña,
rata descalabrada,
esqueleto de perra:
Aquí no entras.
No pasas.
Ándate.
Vuelve
al Sur con tu paraguas,
vuelve
al Norte con tus dientes de culebra.
Aquí vive un poeta.
Ode à tristeza

Tristeza, escaravelho
De sete patas quebradas
Ovo de teia de aranha
Ratazana arruinada,
Esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Vai-te.
Volta
Ao Sul com teu guarda-chuva,
Volta
Ao Norte com teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.

Poema  20                                                                        

 

Poema 20                                                                                   

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche esta estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

                                                                                             

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
E tiritam, azuis, os astros, na distância”.
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a amei, e às vezes ela também me amou.
Em noites como esta a tive em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob este céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no campo o rocio.
Que importa que meu amor não a pode guardar.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Na distância alguém canta. Na distância.
Minha alma não se conforma de tê-la perdido.
Como para reaproxima-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura e ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de outrora, já não somos os mesmos.
Eu não a amo mais, é certo, mas quanto a amei.
Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Eu não a amo mais, é certo, mas talvez a ame.
É tão curto o amor e tão grande o olvido.
Porque em noites como esta a tive em meus braços,
Minha alma não se conforma de havê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
E estes sejam os últimos versos que lhe tenho escrito.

 

 

 Flores amarelas

Contra el azul moviendo sus azules,
el mar, y contra el cielo,
unas flores amarillas.

Octubre llega. 
                                                                                           
Flores amarelas

Contra o azul, movendo seus azuis,
O mar, e contra o céu,
flores amarelas.

Chega outubro. 
                                                                                                     
La mimosa

Andavo da San Jeronimo
verso il porto
quasi addormentato
quando
dall’inverno
una montagna
di luce gialla
una torre fiorita
spuntò sulla strada e tutto
si riempì di profumo.
Era una mimosa.
A mimosa

Vinha de São Jerônimo
Rumo ao porto
Quase adormecido
Quando
Do inverno
Uma montanha
de luz amarela
uma torre florida
despontou sobre a estrada e tudo
encheu-se de perfume.
Era uma mimosa.

 



Os caminhos da solidariedade

A poesia de Neruda é uma busca do que é básico e elementar do ser humano. Toda a sua poesia, e não apenas as que ele mesmo intitulou Odes elementares. A busca de uma poesia objetiva, próxima do ser humano. Básicas. A começar pelo amor, dos 20 poemas de amor e uma canção desesperada.

Lembro-me de que aos 18 anos li esse livro e repeti a leitura tantas vezes, que pouco depois sabia alguns poemas de cor. Um deles era o poema 20, acima traduzido para o português, e que confundi durante muito tempo com a canção desesperada.

Muito tempo depois, ao reler o poema 20, me dei conta de que ele não era a canção desesperada. Assim mesmo continuei a considerar o poema 20 mais desesperado do que a canção. E descobri que o motivo era simples: no poema desesperado, não existe subterfúgios de linguagem e, assim, o desespero é claro e exato. No poema 20, existia paixão misturada com dor e perda, algo que se rompia, deixando o poeta em um jogo de espelhos. Ele sabe que ela não está com ele. Que ela o amou um dia e que ele a quis. E que já não a quer, é certo, mas talvez a queira. Até concluir que os dois, os de antes, já não são os mesmos.

Mais do que a certeza, me tocou forte naquela época, a dúvida do amor infinito que parte sem ir embora. E então, o maior desespero.

Os outros poemas escolhidos tratam também de coisas elementares. Neruda vai trazer uma celebração das coisas simples, principalmente objetos do cotidiano. Quando eu relia as Odes Elementares, me lembrei de Guillevic que anos antes utilizara o mesmo impulso poético, voltando-se para as coisas ao seu redor.

A França estava talvez cansada do dadaísmo e procurava situar-se no “velho sonho de Rimbaud de uma poesia “objetiva” (oposta por Rimbaud à “subjetividade” romântica ou à moda de Verlaine, a uma arte da efusão e da confidência (Borel, 1968:7). Ele fala que este ano de 1942 marca o acontecimento importante do objeto dentro da poesia e da literatura. Francis Ponge escreve pouco depois Le parti pris des choses, no que se convencionou chamar poemas-coisas. E Guillevic tem um poema sobre a maçã que pode ser comparado à Ode à Maçã, de Neruda, acima traduzido. O de Guillevic é assim:



O que existe então
de mais redondo do que a maçã?

Se você diz: redondo,
e verdadeiramente é redondo que queres dizer,
então a bola de jogar
é mais redonda do que a maçã.

Mas se quando dizes: redondo
é pleno que queres dizer
pleno de redondês
e redondo de plenitude,

então não há nada
de mais redondo que a maçã.

(Guillevic, 1963:45).

Nesse mesmo caminho, com igual insistência e acuidade poética, Neruda fala sobre maçãs, sobre as peculiaridades do gato em relação aos outros bichos, sobre a tristeza, sobre flores amarelas e sobre mimosas. Ou sobre a ovelhinha branca, que ele tinha ganho tanto tempo antes, no quintal de Temuco. Ao escrever sobre aquela troca, tantos anos antes, ele conta que em sua vida sempre sua atenção era despertada quando passava por uma loja de brinquedos. Mesmo sabendo que nunca reencontraria uma ovelhinha como aquela, olhava, procurava, e seguia adiante. Por isso ele passou a vida deixando suas palavras na porta de muitos desconhecidos, de muitos prisioneiros, de muitos solitários, de muitos perseguidos. Talvez tenha sido apenas um jogo: “Mas essa pequena troca misteriosa ficou talvez depositado como um sedimento indelével em meu coração, acendendo minha poesia” (MECTA, 2010).




Bibliografia

BISUTTI, D. L´albero delle parole. Grandi poeti di tutto il mondo per i bambini. Milão, Feltrinelli, 2006.
BOREL, J. Introdução a Terraqué, suivi de Exécutoire, de Guillevic. Paris, Gallimard, 1968.
FRANKLIN, BOB (org). The handbook of children´s rights. Londres, Routledge, 1995.
GUILLEVIC. Sphère, suivi de Carnac. Paris, Gallimard, 1963.
MELLO, Thiago de. Introdução aos Cadernos de Temuco, de Pablo Neruda. Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 1998.
NERUDA, P. Defeitos escolhidos. Porto Alegre, LPM, 1974.
------ ---- A rosa separada. Porto Alegre, LPM, 1981.
------ ----- Elegia. Porto Alegre, LPM, 1981.
------ ---- Últimos poemas. O mar e os sinos. Porto Alegre, LPM, 1983.
-------- ----- Cadernos de Temuco. Rio, Bertrand Brasil, 1998.
------ --- Livro das perguntas. Porto Alegre, LPM, 2004.
------ ---- Crepusculário. Porto Alegre, LPM, 2004
------ ---- Cantos cerimoniais. Porto Alegre, LPM, 2005.
------ ----. In Ministerio de la Educación, Ciência y Tecnologia de la Republica Argentina (MECTRA), Internet, valores y comunicación, documento virtual acessado em em 28 de fevereiro de 2010, no endereço eletrônico http://coleccion.educ.ar/coleccion/CD4/contenidos/capacitacion/modulo-4/cd_apuntes6.html

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