Volume 3 Número 215.03.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434




Em busca do leitor juvenil: Laozi, Liezi, Zhuangzi e Li Bai

Sérgio Capparelli

Aos poucos a China vai encontrando seu lugar no mapa da infância. Seja nos telejornais, com notícias diárias sobre o efeito China ou sua ascensão como país que mais exporta no mundo, seja nas imagens das Olimpíadas de Pequim. Agora, a China entra também no campo editorial, como objeto de estudo de estudiosos brasileiros.

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O interesse pela China apareceu com sua ascensão como potência econômica. De repente, muitos queriam saber sobre o que acontecia nessa parte do mundo. Daí exemplos, como Em busca da China Moderna, de Jonathan Spence, pela Cia. de Letras, ou China, uma nova história, de John Fairbank e M. Goldman, pela LPM, apenas para dar dois exemplos. Ou Cisnes Selvagens, de Ju Chang, passando por A montanha da alma, de Gao Xingjian, Viver, de Yu Hua , Bombons Chineses, de Mian Mian e A Jogadora de Go, de Shan Sa.

 

Poesia, contos e lendas

chinesas para crianças



Mais recentemente são publicadas contos, lendas e, mais raramente, poesias para o público infantil, tendência reforçada por editoras que criam coleções de lendas ou contos de outros países, dentro da idéia do multiculturalismo. O Imperador Amarelo, de Heloisa Prieto, lançado pela Moderna, segue essa tendência.


O título refere-se a personagem mitológica da história chinesa, Huang Di - Huang em chinês significa amarelo e Di, imperador. Esse Imperador Amarelo teria vivido em tempos imemoriais, sendo responsável pela primeira unificação da China. Mas essa figura mitológica apenas inaugura o eixo principal do livro, com “fábulas, lendas e ensinamentos dos antigos mestres chineses”. E nos leva a perguntar sobre a adequação de ensinamentos taoístas ao público infantil.

A dificuldade de endereçamento está no termo público infantil, levando-nos a imaginar crianças pequenas. Mas a infância vai mais longe, até a pré-adolescência ou adolescência. E o livro destina-se a essas duas últimas faixas etárias, pondo o jovem em contato com outras formas de expressão. Hora de discorrermos então sobre os autores e textos de O Imperador Amarelo, a começar pela poesia, a fim de nos enquadramos nos objetivos do Tigre Albino.

Antes mesmo da primeira história adaptada por Heloisa Prieto, o livro abre-se com um poema de Laozi:

Quem fica na ponta dos pés não tem equilíbrio.
Quem mantém as pernas esticadas não pode andar.
Quem se põe em evidência permanece escuro.
Quem está satisfeito consigo mesmo não é amado.
Quem se vangloria não tem mérito.
Quem se orgulha de se pára de crescer.

Neste caso, Heloisa Prieto está voltando atrás, na história da China, trazendo para o jovem brasileiro alguns versos do autor de Dao de Jing, considerado o texto mais antigo do pensamento chinês. Dao, do título, é caminho, mais comumente transliterado em português como tao. Tao, de Taoísmo. E Liezi, onde ela busca grande parte dos textos da edição, é considerado o principal seguidor de Laozi, junto com Zhuangzi, que comparece com diversas histórias. Estes três sábios (Lao significa sábio e Zi, professor, velho professor, portanto) escreveram metade das histórias. Outros, como Cao Guojiu e contos de tradição oral, de autoria desconhecida, também seguem a tradição taoísta.

Ao escolher poetas chineses para oferecer aos jovens em O Imperador Amarelo, a autora teve a sensibilidade – e conhecimento – de preferir Li Bai a Du Fu ou Wang Wei, considerados os poetas mais importantes da época clássica, todos eles vivendo no período da Dinastia Tang (618-907). Du Fu é confucionista, Wang Wei, monge budista depois de se afastar da Corte, e Li Bai, taoísta, a se julgar pela sua poesia. Poeta andarilho, bêbado a maior parte do tempo, ele vivia o presente. Talvez por não ter conseguido passar nos exames imperiais, detestava os intelectuais. Mas os taoístas em geral detestam os intelectuais (ver O homem que tentava mover montanhas, de Liezi, página 47 a 49), preferindo a vida simples, o permanente contato com a natureza. O Enigma da Montanha, de Li Bai, vai nessa direção:

Ontem me perguntaram
por que moro no alto da mais verde das montanhas.
Eu ri e não disse nada.
Meu coração, naturalmente em paz,
sabendo que as flores do mal de mim se afastaram, como levadas por um fio d´água.
Aqui é todo um outro mundo,
diferente do mundo dos homens.


Para esses taoístas de primeira água, todo conhecimento era relativo, dependendo da perspectiva de quem analisa a realidade (ver Zhuangzi e o sonho da borboleta, na página 95). Por isso mesmo, dando importância ao presente e recusando o caráter universal do conhecimento, o taoísmo está muito próximo do relativismo atual e, principalmente, da maneira que os jovens veem e se situam no mundo.

Os dois textos de Pu Songling (1640-1715), como não podia deixar de ser, exploram o veio sobrenatural. Apesar de ter renovado a narrativa sobrenatural, com histórias maravilhosas, algumas engraçadas, outras eróticas, ele recria muitas de suas histórias de Gan Bao, que viveu durante a Dinastia Jin (317-420) . Gan Bao foi um compilador de casos de assombração da época, reunindo centenas delas, séculos mais tarde traduzidos para o inglês e publicados com o título Anecdotes about spirits and immortals. Pu Songling retrabalha um desses casos de assombração com grande habilidade, transformada por Heloisa Prieto em "A lição do mestre", em que “o sábio distribui as frutas do fazendeiro avarento e planta a árvore para que todo o povo se alimente” (página 37/39), pois se trata da história de uma pereira mágica.

As ilustrações de O Imperador Amarelo são de Janaina Tokitaka, que recria um ambiente de rara sensibilidade, seguindo a viagem Tao, página por página do livro. Mas nem todo enigma pode revelado. Como diz O Imperador Amarelo contado por Liezi: “Se meu espírito retorna pelo portão por onde entrou e meus ossos voltam para o lugar de onde vieram, onde então o Ego continua a existir?” Claro, agora não se trata mais do livro de Heloisa Prieto, mas de uma tradução e de uma pergunta de Liezi, feita por Lionel Giles, em 1912.

(S. C.)

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