Volume 3 Número 2 – 15.03.2010 Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman ISSN 1982-9434
Poesia: semente de Literatura
Ana Maria Machado
Como poucos, Ana Maria Machado consegue receber a teoria literária, desembrulhá-la, trinchá-la com lâmina afiada, reconstruí-la e por fim devolvê-la ao leitor com um sorriso. E o leitor também dá um sorriso e comenta: se eu soubesse que era assim, teria me dedicado mais. Porque esse leitor tem diante de si um texto que é teórico e sensível ao mesmo tempo, daqueles que provocam diálogos: de que parte você gostou mais? Gostei mais do momento em que aparece a metáfora e avista a árvore do pôr-do-sol. E você? O interlocutor fica encabulado. Para não perder o jogo, diz: eu prefiro quando desabrocha uma flor de sol da fogueira que ela planta. Imprimir o texto
Tudo indica que a literatura começou em forma de poesia. Muito antes que existisse a escrita. Quer dizer, garantir mesmo não se pode, porque não sobrou ninguém para contar. Como ainda não se tinha descoberto o alfabeto, não ficou um registro escrito confiável. Mas é realmente muito provável.
Os estudiosos se baseiam principalmente em três argumentos para defender essa ideia. Em primeiro lugar, porque em geral os exemplos mais antigos de literatura em todos os povos são de poemas. Em segundo, porque em matéria de linguagem se pode considerar que a história de cada ser humano repete um pouco o que aconteceu com toda a humanidade - e a primeira ligação das crianças com o que se poderia considerar uso literário da linguagem tem a ver com poesia: jogos de palavras, cantigas, parlendas, quadrinhas, ou histórias bem simples que usam recursos poéticos, como rima e repetições. Além disso, é bem lógico imaginar que, se ainda não existia escrita e o autor de uma obra queria que ela não fosse esquecida, tinha que procurar um jeito de que fosse mais leve aprendê-la de cor. E é claro que é muito mais fácil decorar poesia do que prosa. Ainda mais se houver o apoio da música para acompanhar, como acontecia com muita frequência até o século XV. Na Grécia antiga, essa sustentação podia ser ao som da lira - de onde vem a palavra lirismo, que hoje designa a literatura em que predomina uma linguagem emotiva. Na Europa medieval, os trovadores tocavam o alaúde para apoiar seus poemas. No nordeste do Brasil, até hoje, a tradição popular dos cantadores sempre utilizou instrumentos musicais como a viola e a rabeca.
O fato inegável é que, com ou sem música, desde os tempos mais antigos os homens celebraram Deus em versos, os apaixonados sempre tentaram conquistar suas amadas com poemas de amor, as mães embalaram os filhos com acalantos carinhosos, os poderosos preferiram que sua glória fosse louvada por poetas. E os artistas da palavra, quando queriam expressar o que estavam sentindo (em poemas líricos), ou então impressionar os outros contando histórias que imaginavam ou grandes feitos de heróis (em poemas chamados de épicos), tratavam de usar a linguagem de uma forma um pouco diferente de seu uso de todos os dias, e apelar para os recursos da poesia.
Que recursos são esses? Muitos são formais, quer dizer, têm a ver com a forma de escrever ou arrumar a linguagem na hora de falar ou escrever.É o caso da rima, por exemplo, quando se usam palavras que terminam de forma parecida, quase sempre no final dos versos - aliás, é bom lembrar que verso é o nome de cada linha num poema. Ou ainda, pode ser o caso das aliterações e assonâncias, em que a repetição de sons iguais ou semelhantes em várias palavras faz com que elas funcionem como um eco umas das outras, de um modo bonito. Ou da métrica - o número de sílabas de cada linha ou verso obedecendo a regras. E também da acentuação tônica, ou seja, os intervalos entre sílabas fortes e fracas. Todos esses recursos ajudam a marcar um ritmo, como se fosse uma bateria numa música, batendo com certa regularidade. Com esse ritmo, se cria uma beleza muito especial, alem de ficar mais fácil de lembrar o texto. Veja só como o poeta brasileiro Casimiro de Abreu, que viveu no século XIX, começa um poema que se chama A Valsa, e dá a sensação do próprio ritmo da dança.
Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co’as faces
Em rosas
Formosas
De vivo
Lascivo
Carmim...
E assim por diante, no um-dois-três de um par girando no salão. Muito diferente, por exemplo, do ritmo de outro poeta da mesma época, Gonçalves Dias, que cria a ilusão de tambores batendo na mata para o ritmo do seu personagem índio, em Canção do Tamoio ou em outro poema em que também quem fala é um indígena:
Meu canto de morte,
guerreiros, ouvi,
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci,
Guerreiros, descendo
da tribo tupi.
Outro recurso formal muito empregado na poesia são as repetições. Podem ser uma espécie de estribilho ou refrão, como se usa muito em letra de música. Mas também podem ser paralelismos, em que se repete alguma coisa com pequenas diferenças. Temos um belo exemplo desse recurso, também de Gonçalves Dias, na Canção do exílio.
Mas poesia não é só aquilo que rima, tem sílabas contadas, musicalidade ou um esquema definido de composição. Grande parte da poesia moderna, por exemplo, é bem mais livre em relação a todos esses procedimentos. E nem por isso deixa de ser poesia. É que não é só a forma que importa, mas principalmente a maneira de ver as coisas. Um modo diferente do comum. Como se o mundo estivesse sendo visto pela primeira vez, de um modo novo. Nesse sentido, os poetas muitas vezes fazem a gente se lembrar de crianças brincando e descobrindo as coisas. Como se a própria linguagem fosse um brinquedo e as palavras pudessem ser reviradas pelo avesso, para que lágrimas vire milagres, por exemplo. Ou para que os contrários se atraiam (num processo que se chama antítese) e surja uma beleza nova, como fez o grande poeta português Luís de Camões (do século XVI), quando começa um soneto assim:
Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
O modo poético de ver o mundo, deslumbrado e inventador de novidades, acaba muitas vezes comparando uma coisa com outra. A gente bem que pode imaginar como isso foi acontecendo, com os primeiros poetas.
Vamos fazer de conta que estamos numa viagem no tempo, para ver como a poesia ia surgindo. Imaginemos, por exemplo, que um homem primitivo sai para caçar, vai parar num lugar da floresta em que nunca tinha estado e lá descansa debaixo de uma árvore desconhecida, toda coberta de flores alaranjadas e avermelhadas,. Ele pode ficar olhando, achar lindo, e pensar que aquelas cores lembram um por-do-sol. Então, volta para a tribo e, de noite, conversando com os amigos, faz uma comparação e conta aos outros: Vi uma árvore colorida como o céu quando o sol se põe. Mas no dia seguinte, resolve convidar alguém para ir com ele até lá, e chama para ver de perto a árvore do por-do-sol. Nesse caso, ele já não está mais comparando e dizendo que é parecido, ou que uma coisa é como a outra, mas já usa uma imagem, utilizando a linguagem de um modo muito mais direto e econômico. Porém ainda pode ir mais além e depois contar uma história ou fazer uma canção em que diga que se sentou à sombra do por-do sol, ou que o sol pousou no alto da floresta para descansar antes de ir embora. Ou se desviar ainda mais e dizer que a fogueira, em torno da qual todos se reúnem à noite, é uma flor do sol brotada do chão. E nesses casos, nosso amigo só estará falando da impressão que a planta lhe deu, mas já nem se preocupa mais com aquele objeto real que ele viu -- a árvore nem está sendo mencionada de forma direta na frase. Desse modo, ele já está em pleno território poético, já deixou para trás a comparação e a imagem e está usando um outro recurso da linguagem que se chama metáfora. Quer dizer, transportou o sentido de um objeto concreto para um simbólico e só se ocupa do símbolo. Para muita gente, esse mecanismo imaginário da metáfora é a verdadeira marca registrada da poesia. Alguém que consiga criar boas metáforas já tem meio caminho andado para ser um poeta. Não precisa nem rimar e contar as sílabas -- se viver numa época que não faça questão dessas coisas.
Como a língua portuguesa é muito doce e musical, com grande variedade de vogais (abertas e fechadas, orais e nasais) e sem muitos sons consonantais duros que pareçam arranhar a garganta, a nossa poesia em geral tem uma musicalidade muito forte. Mesmo quando não tem rima, ou quando a métrica dos versos pode ser bem flexível, como acontece com alguns dos poemas.
Mas nem sempre se aceitou toda essa liberdade em poesia. Por isso, vale a pena a gente tentar entender como eram as idéias sobre literatura no tempo em que alguns poetas viveram. Proponho que façamos uma visita `as obras de alguns deles, todos brasileiros mas bem diferentes entre si.
O mais antigo pode ser Gonçalves Dias, que viveu no começo do século XIX. Esse tempo ficou conhecido como Romantismo. Valorizava muito a liberdade, a espontaneidade, os sentimentos, e isso era uma verdadeira revolução em relação à literatura dos tempos anteriores, muito cheia de regras. No Romantismo, a ideia de lutar pela liberdade e derrubar o autoritarismo era muito forte, e esse momento coincide justamente com a independência das antigas colônias européias na América, entre elas o Brasil. Para isso, a linguagem precisava ser mais simples do que antes, e conseguir atingir o público para discutir com ele todas essas ideias sociais e políticas - como a abolição da escravatura que vai ser o principal assunto de Castro Alves, um grande poeta romântico. Essa época punha o coração em primeiro plano, falando com intensidade das emoções individuais, muitas vezes idealizadas. Além disso, num país que começava, como era o nosso, a literatura buscava valorizar a paisagem da nossa terra, os costumes e personagens nacionais - como os índios, por exemplo, que estavam aqui antes dos portugueses chegarem e eram os verdadeiros donos do Brasil. A época romântica trouxe para nossa literatura um tema que até hoje continua sendo muito importante para nós: o que é ser brasileiro?
Mais para o final do século XIX -- a partir de 1880, mais ou menos -- alguns poetas foram começando a achar que tudo isso tinha ficado muito exagerado e se afastado do que deveriam ser as verdadeiras qualidades da poesia. Começaram a propor algo diferente, mais universal, racional, objetivo, com emoções controladas. Em vez de buscar uma linguagem simples e popular, queriam um vocabulário elevado, em versos de grande perfeição formal. Achavam que a poesia devia ser equilibrada e superior como tinha sido na Grécia antiga, em vez de ficar falando de problemas sociais contemporâneos ou perdendo tempo com o sentimentalismo de um indivíduo. Esse movimento ficou conhecido pelo nome de Parnasianismo, porque Parnaso era o nome do monte consagrado a Apolo e às musas, inspiradoras das artes, segundo as lendas da Grécia antiga. O poeta Olavo Bilac, nossa próxima escala nesta viagem poética, viveu nessa época e era chamado de “o príncipe dos poetas parnasianos”, porque foi o melhor e mais perfeito deles.
Como ninguém aguentava todas essas regras e esse artificialismo por muito tempo, houve depois uma reação muito forte contra esse movimento, com o Modernismo, no século XX, que iniciou um tipo de literatura totalmente diferente. Com uma liberdade como jamais se vira na história da arte. Mesmo não sendo representantes dos primeiros modernistas que inauguraram essas idéias no Brasil, ao fazer um escândalo público em 1922 em São Paulo com um evento que se chamou a Semana de Arte Moderna, as nossas duas paradas seguintes - Henriqueta Lisboa e Carlos Drummond de Andrade se situam no período moderno. Um período em que os versos ficaram livres, não precisavam mais rimar, nem ter métrica fixa. A linguagem ficou sintética (muitas vezes entrecortada e fragmentada) e qualquer palavra passou a poder entrar num poema, seguindo ou não uma pontuação. Voltou a ser importante valorizar a linguagem falada no Brasil, em vez de seguir modelos eruditos portugueses. Aliás, com o Modernismo, tudo do Brasil ficou sendo essencial, mais uma vez -- os temas, a realidade quotidiana, nosso passado histórico e cultural. Até mesmo nosso senso de humor, nossa maneira de rir e fazer piada, entrou com força total na poesia. Uma poesia cada vez mais urbana e ligada às cidades que se desenvolveram enormemente no país no decorrer do século XX. Com uma enorme variedade de vozes e tendências, uma das características mais notáveis dessa época que incorporou à literatura brasileira escritores e poetas de todas as partes do Brasil, de diferentes histórias e vivências pessoais.
Até hoje estamos ligados à conquistas dos modernistas e somos seus herdeiros, mesmo com algumas modificações trazidas depois pelas gerações seguintes, que preferiram se definir como apenas modernas ou pósmodernas. Na poesia contemporânea, em meio a uma porção de tendências e experiências diferentes, algumas produções individuais foram se destacando e construindo um conjunto significativo. Entre essas, num Brasil que se industrializou também culturalmente e passou a produzir filmes, discos e programas de televisão, alguns compositores e letristas se destacaram como poetas, pelo uso criativo e rico que fizeram da linguagem. Sem dúvida, Chico Buarque de Holanda é um dos mais completos entre eles, conseguindo ao mesmo tempo aliar a inegável sofisticação literária (de quem é também um escritor que leu muito) e a marca popular (de quem consegue escrever de um jeito em que o mais simples dos brasileiros pode se reconhecer). Uma mistura rara e brilhante que o faz cintilar nessa constelação de poetas. E também uma prova de que a poesia, semente da literatura, se mantém viva, com seu encanto eterno.
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