Volume 4 número 115.11.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434

Volume 4 número 1


A literatura infantil de Mario Quintana,
proposta de uma nova antologia


Tábita Wittmann, mestranda em Letras da UFRGS

A autora, Tábita Wittmann, é Licenciada em Letras/Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRGS. Cursa na mesma Universidade o Mestrado em Letras. Neste trabalho propõe uma nova antologia de poemas de Mario Quintana para a infância. Além de estabelecer a contextualização histórica e literária da produção do poeta gaúcho, estuda-a no esquadro da relação entre literatura e sociedade, nas suas articulações com a infância e as possibilidades de formação subjetiva do indivíduo. Da mesma forma, analisa a imagem na poesia de Mario Quintana e a imagem como ilustração no livro infantil.

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Das respostas


Não deves acreditar nas respostas.
As respostas são muitas e a tua pergunta é única e insubstituível
.

(Mario Quintana, Caderno H)



A poesia de Quintana e sua relação com a infância

A poesia, cuja relação com a realidade comumente se faz pelas vias tortas do ilogismo (a linguagem figurada predominante no gênero lírico cria uma lógica outra que a deste mundo), é a arte da palavra, como de resto toda a literatura – sua essência é a linguagem esteticamente organizada de modo a buscar a expressão e a comunicação. O ofício do poeta é o trabalho com a linguagem, com as palavras, de forma a arranjá-las para que escapem do uso rotineiro, criando um mundo particular e produzindo determinados efeitos em quem lê. Assim é com a poesia de Mario Quintana e com a lírica moderna.

Para Quintana, fazer poesia “não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes” (“Ressalva”, QUINTANA, 2005: 279), ou seja, é trabalhar com o imponderável, com uma lógica que, muitas vezes, se encontra fora da esfera do previsível ou do funcional. Em permanente estado poético, Quintana parece não escolher assunto: todos lhe servem, “tudo o que existe é poético na sua percepção feiticeira” (CARVALHAL, 2006: 31). Dessa forma, o poeta manifesta o seu desejo de pintar liricamente as coisas, desrealizando-as, descrevendo-as indiretamente. “O segredo da arte – e o segredo da vida – é seguir seu próprio nariz” (“Nariz e narizes”, QUINTANA, 2005: 521), sentencia o poeta, que, desde suas primeiras publicações, não cede ao gosto da época, como vemos em Canção de barco e de olvido: “Que eu vou passando e passando,/ Como em busca de outros ares.../ Sempre de barco passando,/ Cantando os meus quintanares...” (Canções, QUINTANA, 2005:161).

A leitura do conjunto da poesia de Mario Quintana permite-nos identificar traços que lhe são essenciais e a tornam inconfundível no panorama da literatura brasileira. A consciência moderna de que “a poesia é a invenção da verdade” está na base de sua poética. Mario Quintana percorreu caminhos muito pessoais e dificilmente rotuláveis em termos de períodos literários ou fórmulas artísticas. Ao longo de sua trajetória literária, o poeta mostra forte unidade de tema, centrado na problemática individual.



Uma nova antologia de Quintana para crianças

Propomos com o presente trabalho uma nova antologia4 de poemas de Mario Quintana para infância, ilustrada por Nelly Ripoll 5 em arte têxtil.



FIGURA 1 (capa e contracapa)

Pensamos em leitores na faixa etária dos oito aos doze anos de idade ao selecionar, da obra completa do poeta (QUINTANA, 2005), os treze poemas que compõem a antologia, intitulada Domesticados dinossauros. Os poemas selecionados pertencem aos livros Sapato florido (1948), A vaca e o hipogrifo (1977) (seis poemas foram selecionados deste livro), Baú de espantos (1986), Porta giratória (1988) (três poemas selecionados deste livro), A cor do invisível (1989) e Velório sem defunto (1990).

A escolha dos textos foi pautada pelo critério da adequação temática e compositiva aos leitores iniciantes. Indicá-los à infância têm um propósito cultural, pois a mudança na realidade econômica, associada ao acesso das crianças a informações sobre o mundo adulto, transformou drasticamente a infância, permitindo-lhes a apreensão de realidades antes não consideradas aptas para os pequenos.

Com uma seleção dessa natureza, pretende-se alargar o elenco de opções de leitura das crianças, dando-lhes acesso à obra de um importante poeta da literatura brasileira, como é o caso de Mario Quintana. Percebemos, a partir da leitura da obra completa do poeta, que ele trabalha muito seus textos. Um (mesmo) poema pode figurar em diferentes livros, às vezes, com título novo ou com pequenas modificações, ou de prosa passar a verso... Cada assunto e cada forma recebem feições renovadas quando integram novos conjuntos poéticos.

O mesmo processo de renovação de sentido acontece com a antologia proposta. Retirados de seu contexto original, os textos acomodam-se à nova vizinhança e com ela passam a compor uma unidade significativa que, pelo menos em parte, altera a carga semântica que lhes atribuiu o autor quando da publicação de sua obra. Se for considerada a mudança no foco da recepção, agora o imaginário infantil em sua especificidade, então, poderemos perceber o quanto se abre o leque de significações dos poemas. São novos vieses de interpretação que os textos oferecem, porque se colocam no horizonte de expectativas de leitores inaugurais, para quem o ato de leitura recria, intensamente, a originalidade da própria literatura.



Uma poesia que fala a linguagem da criança, com arte

Assim como Quintana reinventa as suas realidades poéticas, indo buscar a sua matéria no prosaico cotidiano, a linguagem por ele estilizada é, a exemplo daquela dos primeiros modernistas, a da comunicação diária, que também o aproxima do público infantil. Palavras simples, uma sintaxe que privilegia a frase padrão e a ordem direta dos componentes da oração, os lugares comuns do idioma, esses são alguns dos elementos que atestam a recorrência que o poeta faz à língua de todo dia. Mas estilizar a linguagem coloquial não quer dizer reduplicá-la. Basta que lembremos a musicalidade que o poeta consegue forjar através da recriação da linguagem popular.

Mario Quintana explora as formas poéticas, principalmente, como podemos perceber nos poemas dessa proposta de antologia, o verso livre:

 


FIGURA 2



Pulgas


A coisa mais triste deste mundo é um cachorro sem pulgas.

(Da preguiça como método de trabalho, QUINTANA, 2005: 655).



O poema Pulgas possui uma versão parecida, anterior, no livro A vaca e o hipogrifo (1977), com o título Dos costumeiros achaques: “a coisa mais melancólica deste e do outro mundo é um cachorro sem pulgas” (QUINTANA, 2005, p. 511). O poema é interessante, principalmente, pela possibilidade de metáfora e polissemia.

Ao observarmos os elementos sonoros, imagéticos e estruturais dos poemas que compõem Domesticados dinossauros, constatamos que esses fatores convergem para o mesmo eixo de sentido, simulando, em todos os níveis, a idéia que se quer representar. Salientamos que as imagens sugeridas pelos poemas jogam/brincam, relacionando animais com eventos da natureza (o dia, a noite, o vento, o sol), desenvolvendo a temática os bichos e (impondo) o ciclo natural de um dia à antologia. 


FIGURA 3


O sol, gato amarelo, salta a janela e fica, imóvel, sobre o meu tapete.

(A vaca e o hipogrifo, QUINTANA, 2005: 566).



O verso que figura na antologia faz parte do poema Do primeiro ao quinto. Novamente o poeta brinca com a sonoridade dos fonemas representados pelas vogais “o”, “a”, “e”. Podemos perceber a cadência (felina, sorrateira) da frase, que inicia com a vogal fechada “o”, passando para a idéia de movimento com a vogal aberta “a” e a aguda “i”, em fica, ápice do texto, e, então, voltando para o “o”, desta vez aberto, imóvel, para a vogal “e”, sobre o meu tapete , cujo acúmulo de “ee” dá uma impressão de sossego - ou seja, a forma contribui para a significação do poema.

Percebemos nos poemas que compõem a antologia uma “coisa” sonora que pega a criança e a faz concentrar-se; muitas vezes, o significado só depois importa. Para entender o poema, não é necessário que saibamos o significado de todas as palavras, e mesmo a estrutura das frases dá a complexidade (inversões), gerando o impacto estético. A leitura infantil forma o leitor: a sonoridade, o jogo de sentidos (complexo entre som e sentido), desenvolve o gosto pela leitura. Dessa forma, o valor do texto também é construído pelo ritmo, pela rima, em uma constante aproximação com a brincadeira, pois o trabalho com o texto poético envolve a imaginação. 


FIGURA 4


O sol derrama, na calçada,
A sua bela, matinal urinada!

(Velório sem defunto, QUINTANA, 2005: 896).



Em Amanhecer, o poeta explorou a sonoridade do fonema representado pela letra “a” (vogal clara e aberta). Essa idéia de movimento está em consonância com o raiar do dia (de sol) e o acordar – bela matinal urinada, como um jorro, um fluxo –, deixando para trás todos os vestígios do sono. Também é interessante perceber a “cor do poema” – amarela, dourada –, representada por sol, matinal e urinada.


A poesia, forma do imaginário, apela à imaginação, domínio em que a criança se movimenta livremente. Como aponta Bordini , na verdade, a questão do “ensino de poesia” ou do desenvolvimento da sensibilidade para o texto poético está ligada a todo o problema do desenvolvimento da criatividade, da expressão e da compreensão da linguagem como representação da experiência humana.

Assim, se à poesia cabe um importante papel no crescimento da personalidade da criança, na medida em que, através do desenvolvimento de sua sensibilidade estética, de sua imaginação e criatividade, ela estabelece uma ponte entre a criança e o mundo em outra forma de comunicação, ela exerce ainda outros papéis formadores no seu psiquismo. No desenvolvimento do psiquismo infantil, como se sabe, tanto no plano lingüístico quanto no psicológico, um dos elementos essenciais está na própria noção de ritmo, desenvolvida através das atividades corporais, musicais e outras, onde a poesia pode funcionar como eixo desencadeador.

Se a magia verbal e o encantamento rítmico são os dois primeiros pilares da poesia, o terceiro, de igual importância, é a imagem. Segundo Trevisan (2000: 85), imagem é um termo muito amplo, quase uma “palavra-ônibus”, dessas que abarcam inúmeros significados, tais como: comparação, símbolo, alegoria e, sobretudo, metáfora. Para Huizinga (1996: 7), “por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é jogo de palavras”.

Para Quintana, “Um dos espantosos mistérios da poesia é que uma coisa só parece ela própria quando comparada a outra coisa” (“E as coisas, o que são?”, QUINTANA, 2005, p. 792). Mario Quintana é mestre na força sugestiva de imagens: “A recordação é uma cadeira de balanço/ embalando sozinha...” (“A recordação”, QUITANA, 2005:769). Assim, “imagem é qualquer combinação verbal que torne sensível e psicologicamente concreto o conceito, o sentimento, ou a emoção do discurso” (TREVISAN, 2000: 226), podendo ser, também, auditivas, táteis, térmicas, referentes a qualquer dos sentidos.

Como afirma Roman Jakobson (cf. 1975), a função poética coloca em evidência o lado palpável, material dos signos. Importa perceber que a função poética não é exclusiva da poesia; podemos encontrá-la em textos escritos em prosa, em anúncios publicitários e mesmo na linguagem cotidiana. No entanto, como salienta Huizinga (1996: 148), “os conceitos prisioneiros das palavras são sempre inadequados em relação à torrente da vida; portanto, é apenas a palavra-imagem, a palavra figurativa, que é capaz de dar expressão às coisas e ao mesmo tempo banhá-las com a luminosidade das idéias: idéia e coisa são unidas na imagem”.

Quintana escreveu:

A vida não passa de um livro de figuras, para o verdadeiro artista.
E até na poesia (que muitos julgam apenas um desfrute sentimental e outros um jogo do intelecto), até na poesia, se lhe tiram as imagens – que é que sobra? Não sobra nem a alma!

(“O Imagista”, 2005: 806)


Para Huizinga (cf. 1996), sobre a função que opera no processo de construção de imagens, ou imaginação, o máximo que podemos afirmar é que se trata de uma função poética; e a melhor maneira de defini-la será chamar-lhe função de jogo ou função lúdica. Percebemos em Quintana que ele desenvolve algumas imagens que se tornam recorrentes em sua obra, construindo seu imaginário poético. Por exemplo, no poema “Meio dia”: “A tarde é uma tartaruga com o casco empoeirado a arrastar-se penosamente, as sombras foram esconder-se debaixo da barriga dos cavalos, tudo parece uma infinita quarentena – mas está marcando exatamente meio-dia nos olhos dos gatos” (QUINTANA, 2005: 662), temos a imagem “a tarde é uma tartaruga”, como no poema “Verão” (2005: 512) – mas não a mesma.

FIGURA 5


Verão

A tarde é uma tartaruga com o casco pardacento de poeira, a arrastar-se interminavelmente. Os ponteiros estão esperando por ela. Eu só queria saber quem foi que disse que a vida é curta...

(A vaca e o hipogrifo, QUINTANA, 2005: 512).



Em Verão, a tarde é comparada a uma tartaruga com o casco pardacento de poeira, ou seja, características da tartaruga são relacionadas, estendidas às características da tarde. Além disso, na sonoridade do poema, a sílaba “tar” forma tarde e tartaruga – e quem nunca sentiu uma tarde ser interminável? Esse poema leva a refletir sobre o tempo – os ponteiros estão esperando por ela (parados?). As crianças percebem o tempo diferentemente dos adultos. A tartaruga se arrasta e a tarde é interminável, ou o contrário?

O poema Verão exemplifica a noção de Huizinga (cf. 1996) de que, seja no mito ou na lírica, no drama ou na epopéia, nas lendas de um passado remoto ou num romance moderno, a finalidade do escritor, consciente ou inconsciente, é criar uma tensão que “encante” o leitor e o mantenha enfeitiçado. Subjacente a toda escritura criadora, está alguma situação humana ou emocional suficientemente intensa para transmitir aos outros essa tensão. Tensão significa incerteza, acaso, dúvida. Por isso, “[...] o verso é, antes de tudo, uma fórmula mágica. Um poeta vale, feiticeiramente, pelo seu poder encantatório” (“A fórmula mágica”, QUINTANA, 2005: 807).



As ilustrações de Nelly Ripoll

Se os textos de Quintana adquirem novos sentidos ao serem reunidos em nova organização e dirigidos ao imaginário infantil, também as ilustrações de Domesticados dinossauros são responsáveis pela multiplicação do significado dos poemas. Relacionada à imagem está a importância da ilustração no livro infantil. No livro infantil, a ilustração ganha força, destaque, podendo ser dominante sobre o leitor o impacto da ilustração ou do poema, dependendo do leitor. Em Domesticados dinossauros, as ilustrações de Nelly Ripoll não são apenas narrativas ou descritivas, mas também simbólicas. As ilustrações, na antologia proposta, fazem o leitor pensar em outras situações, além das sugeridas pelo poema, apurando o olhar para a página. 


FIGURA 6



Degradação

Tenho uma enorme pena dos homens famosos, que por isso mesmo perderam sua vida íntima e são como esses animais do Zoológico, que fazem tudo à vista do público.

(A vaca e o hipogrifo, QUINTANA, 2005: 519).



O poema Degradação é relevante pelas imagens que sugere, fazendo refletir sobre a vida cotidiana e os valores dos homens. Compara o homem famoso ao animal preso, possibilitando a leitura polissêmica.

Dentro dessa perspectiva, as ilustrações e o projeto gráfico dos livros de literatura infantil são de grande importância para ajudar a atrair a atenção da criança para o livro e possivelmente para sua leitura, auxiliando na formação de leitores e contribuindo para o processo de aquisição da leitura e escrita por parte das crianças. Por isso, é imprescindível retirar a ilustração de uma condição secundária ou de invisibilidade e compreendê-la como linguagem impregnada na manifestação do sentido textual.

Crianças são capazes de ler pela ilustração diferentes interpretações, diferentes encadeamentos de idéias; cada criança pode perceber aquilo que estava imaginando, sem preocupação de estar certa ou errada, o que auxilia o desenvolvimento da imaginação e da criatividade. Também podemos pensar na ilustração como uma ferramenta capaz de promover aprendizagens significativas, possibilitando à criança o acesso à leitura antes mesmo de ela dominar a linguagem do código escrito. As imagens antecipam sentidos revelados pela palavra; em alguns casos, mostram sentidos paralelamente, tratando de aspectos não explicitados pelo sistema escrito. Por vezes, confirmam as palavras, por outras, orientam a leitura, levando o leitor ora para o universo da visualidade, ora para o universo da verbalização, ou mesclando tudo num jogo entre linguagens.



O brincar da poesia: a formação da criatividade

Como se pode observar na antologia proposta, texto e imagem entram em jogo e propõem desafios interpretativos ao pequeno leitor. Como a poesia é lúdica, é brincadeira com as palavras, e esse jogo pressupõe a ação de quem joga, exige-se a interação do jogador (leitor) com o texto. Conforme Olberg (s/d), na leitura dá-se o pacto que faz com que toda uma maquinaria se movimente para dar sentidos aos arranjos do poeta. No tabuleiro da poesia, as palavras e os leitores se movem, juntando peças que farão o jogo acontecer: a palavra do leitor alia-se à palavra do poeta e, nessa interação, os sentidos se constroem, os versos ganham vida. Conforme Silva,

Aparências polissêmicas escondem essências inusitadas – quantas cascas tem essa cebola? O jogo lúdico do imaginário (o leitor lendo, o leitor sendo) gera a descoberta, o desvelamento, quando não a própria revelação. [...] percebendo mais profundamente as perplexidades da vida e, muito provavelmente, plasmando – juntos – outras maneiras de existir. (1990: 23).


Segundo Quintana, “Para o perfeito leitor, a palavra ‘árvore’ não significa uma árvore: a palavra ‘árvore’ é uma árvore” (“Da comunicação imediata”, QUINTANA, 2005, p.711) e “as crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade [...]” (“Fantasia & Realidade, “QUINTANA, 2005: 805). Assim, tanto a leitura quanto a brincadeira são como um intervalo em nossa vida quotidiana (HUIZINGA, 1996:12), uma possibilidade de ver, de sentir a realidade de outra maneira – inusitada, talvez ou certamente, dependendo da leitura ou brincadeira que está em jogo.

Conforme Fortuna (2007), brincar ou jogar (não importa, aqui, distinguir esses termos, senão captar o sentido que têm em comum) é uma atividade fundamental no ser humano, primeiramente porque funda o humano em nós: aquilo que define o ser humano – inteligência, criatividade, simbolismo, emoção e imaginação, para listar apenas alguns de seus atributos – constitui-se pelo jogo e pelo jogo se expressa. Dessa maneira, tanto a leitura quanto a brincadeira são relacionadas à formação humana e cultural dos sujeitos. Disse o poeta:

A paleta do pintor
Confusa, inquieta, multicolorida,
É quase sempre mais bela
Do que a pintura na tela.

(QUINTANA, 2005: 877)


Percebemos que mais importante do que o produto (a pintura na tela) é o processo (confusa, inquieta, multicolorida). O encontro do leitor com o texto poético é o momento de diálogo, de descobertas... Conforme Fortuna (cf. 2004) a principal herança do brincar para a vida adulta é a criatividade:


No adulto, o brincar sobrevive no manejo do imponderável, do inusitado, no humor, como bem enfatizou Freud (1907), e na leveza de espírito; na capacidade de enfrentar o aleatório e o inesperado; no “transe” de alguns profissionais apaixonados; nos jogos da vida amorosa. (FORTUNA, 2004: 57).


Para Winnicott, “é somente no brincar que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral, e somente sendo criativo pode descobrir seu eu” (1975: 80). Assim, ao indagarmos para onde vai o brincar quando a infância acaba, percebemos, segundo Fortuna (cf. 2004), que seu destino não é o esquecimento ou a repressão, e sim o espraiamento, por todo o ser, entre a realidade psíquica interna e o mundo externo. Identificado por Winnicott como “sustância da ilusão”, na vida adulta responde pelo que é inerente à arte, à religião, à cultura, enfim. Por isso é vital o contato da criança com textos literários, entre os quais os poéticos primam pela inventividade verbal e imagística.

O texto poético favorece a formação do indivíduo que com ele mantém em contato, requisito indispensável ao seu aprimoramento intelectual e ético. Ao refletirmos sobre as muitas funções da literatura, podemos ressaltar o papel que ela desempenha na manutenção da língua como patrimônio coletivo e na apresentação de uma organização estética da linguagem que, extrapolando finalidades meramente informativas, convida o leitor ao exercício da imaginação e da recriação de significados. Nessa perspectiva, a poesia (assim como toda literatura) oferece-nos a possibilidade de encontro com nossa tradição literária e cultural, permitindo, ao mesmo tempo, o resgate de nossas condições de criação, uma vez que nos convida a imaginar, a estabelecer relações entre a palavra e o mundo, ou seja, a atuar sobre o texto e a recriar os seus sentidos. Tal é o propósito dessa nova antologia.



NOTAS

Mario Quintana é o terceiro filho do farmacêutico Celso de Oliveira Quintana e de Virgínia Palma de Miranda Quintana. Nasceu prematuramente no dia 30 de julho de 1906 em Alegrete, cidade do interior do Rio Grande do Sul, e fazia um grau abaixo de zero (cf. QUINTANA, 2005).

2 Além de poeta, Quintana foi tradutor da Editora Globo durante quinze anos. Traduziu 133 livros, de Giovanni Papini (Palavras e Sangue, seu primeiro trabalho, em 1934) a Balzac e Voltaire, sem esquecer autores mais recentes, como: Aldous Huxley, Virginia Woolf, Graham Greene e Marcel Proust, entre outros. (cf. QUINTANA, 2005).

3 No ano de 1943, inicia a publicação da secção Do caderno H, na revista Província de São Pedro, coluna que reunia seus poemas e coisas conceituosas – “o que não é poesia, é coisa conceituosa”. Quintana explica ainda: “Caderno H porque todas as coisas acabavam sendo escritas na última hora, na hora H, na hora final”. Em 1953, começa a trabalhar no jornal Correio do Povo, onde escreve a seção Do caderno H até 1980. (Em 1973, pela Editora Globo, é publicado Caderno H, com textos em prosa selecionados pelo autor.) (cf. QUINTANA, 2005).

4 Anexo da monografia A Literatura Infantil de Mario Quintana, proposta de uma nova antologia, apresentada à banca examinadora como requisito parcial para obtenção de grau de licenciatura em Letras - ênfase Português e Literatura de Língua Portuguesa, no Curso de Letras da UFRGS, em 2008.

5 Conhecemos a arte de Nelly Ripoll no ano de 2008, na cidade de Porto Alegre, em uma exposição no Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo, chamada Raízes de Pintadeira. Nela, estavam expostos os rolos de histórias confeccionados em arte têxtil (muito detalhados e coloridos), nos quais D. Nelly conta a história de sua família de forma lírica (e emocionante). Lembramos de sua frase: “isso significa para mim uma volta à infância”.


REFERÊNCIAS

BORDINI, Maria da Glória. Para a poesia infantil ser poesia. Disponível em http:www.tigrealbino.com.br   http://www.tigrealbino.com.br  . Acesso em: 10 abr. 2008.

FORTUNA, Tânia Ramos. O lugar do brincar. O Brinquedista: Informativo da Associação Brasileira de Brinquedotecas, São Paulo, n. 43, p. 3, mar. 2007.

FORTUNA, Tânia. Vida e morte do brincar. In: ÁVILA, Ivany Souza (Org.) Escola e sala de aula - mitos e ritos: um olhar pelo avesso do avesso. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.


FREUD, S. Escritores criativos e devaneios. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Col. Standard Obras Completas de Sigmund Freud, v. 9).


HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996. (Filosofia. Estudos).


JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1975.

MARCHI, Diana M. A literatura infantil gaúcha: uma historia possível. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2000.

OLBERG, Silvia. Como vai a poesia? Uma conversa com mediadores de leitura. Disponível em http://www.tigrealbino.com.br

QUINTANA, Mario. Poesia completa. Organização Tania Franco Carvalhal. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.

SILVA, Ezequiel T. ; ZILBERMAN, Regina. Literatura e pedagogia: ponto e contraponto. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990.

TREVISAN, Armindo; RUAS, Tabajara. Mario. Porto Alegre: CEEE, 1998.

TREVISAN, Armindo. A poesia: uma iniciação à leitura poética. Porto Alegre: Uniprom, 2000.

WINNICOTT. D.W. O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975. (Cap. 16 - As crianças e as outras pessoas e Cap.19 – Que entendemos por uma criança normal?).

ZILBERMAN, Regina; SILVA, Ezequiel T. Literatura e pedagogia: ponto e contraponto. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990.

 

 

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