Volume 3 Número 215.03.2010
Editores Sergio Capparelli | Maria da Glória Bordini | Regina Zilberman

ISSN 1982-9434




Roseana Murray, 30 anos de poesia no Brasil

Gláucia de Souza

Eu não me lembro do ano em que conheci Fardo de Carinho, publicado em 1980 pela primeira vez, e que foi a estreia de uma escritora que, na época, assinava seus livros como Roseana Kligerman Murray. Só lembro que era a década de 80. Eu estudava Letras, gostava de poemas desde pequena, tinha vários poemas escritos, sonhava em ser escritora de verdade e frequentava os congressos promovidos pela FNLIJ em parceria com diferentes Universidades.

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Certa vez, em Niterói, num desses congressos, tive a oportunidade de assistir à própria Roseana falando sobre sua poesia para educadores, mediadores de leitura e interessados no assunto. Fazia um calor tremendo. Disso eu me lembro. Mas nenhum calor nos afastava da autora daqueles poemas tão aparentemente simples e delicados. A partir desse dia me tornei leitora assídua de Roseana.

Presenteei minha irmã com seus livros:

Eu quero um cacho de beijos
pra levar pra minha irmã
e também um que de nuvens
para a minha gatinha anã”.
(Murray, 1987, p. 15)

Tentei buscar meus caminhos:

Quero asas de borboleta azul
para que eu encontre
o caminho do vento
o caminho da noite
a janela do tempo
o caminho de mim”
(Murray, 1992, p. 13)

Fui a aprendendo, também, a tecer meus próprios versos:

Fiar auroras e sentimentos
com as coloridas linhas o horizonte
e fazer um dia de flores e fontes.”
(Murray, 2001)

E, para minha surpresa, nesse ano de 2010, a poeta que comemora seus trinta anos de carreira, me faz uma instigante pergunta:“Quem sou eu?”

Carteira de identidade traz os presentes-poema que Roseana compôs para os seus leitores e que, nesse início de ano, saem em livro com ilustrações de Elvira Vigna. A busca pelo auto-conhecimento feita pelo eu-lírico do conjunto de poemas escrito pela autora é norteada pela pergunta “Quem sou eu?”, pergunta difícil e enigmática: “Meu nome seria a chave/ de um enigma perdido?” (“Enigma”, Murray, 2010, p. 5). A descoberta desse enigma passa pelo binômio “corpo-alma”. Conhecer-se é saber se perder, “quase esquecer o próprio nome” (“Domingo”, Murray, 2010, p. 42) para se diluir em experimentações sensoriais. É encontrar os próprios sentidos:

“Atravesso a ponte abstrata
sobre o rio sinuoso
dos sentidos,
suas águas são acordes ou cheiros
ou cores,
o desenho que o corpo
imprime no ar,
um salto, uma dança”.
(Ponte abstrata”, Murray, 2010, p. 44)

Para o eu-lírico de Carteira de identidade, o corpo é “um rascunho/ onde o tempo faz seus experimentos” (“Rascunhos”, Murray, 2010, p. 39) e a alma possivelmente “o pergaminho/ onde o corpo escreve/ seus poemas” (“Alma”, Murray, 2010, p. 52). Por isso, são muitas as imagens sensoriais e sinestésicas presentes nos poemas de Roseana, dentre elas:

“O vento me envolve
e sopra música
em meus ossos:
talvez eu seja
essa canção
invertebrada
esse sopro”.
(“Palavra exata”, Murray, 2010, p. 4)

Conhecer a si mesmo, assim, é, também, experimentar a passagem do tempo, bem como se tornar eterno através da criação:

“Com as mãos aprisionar
Um pouco do tempo:
dentro das páginas e um caderno,
dentro de um poema
ou no desenho de um gesto,
a substância de quem sou agora”.
(Relógios, Murray, 2010, p. 22)

Conhecer a si mesmo, também, é trazer as próprias impressões nas pontas dos dedos, impressões digitais, ou nas linhas das mãos:

“Olho minhas mãos,
as linhas que me descosturam,
as que alinhavam a minha sombra”.


São vários os fios de auto-conhecimento que nos apresenta o eu-lírico de Carteira de identidade. Na busca por nós mesmos, somos minotauros (“Com um passaporte em branco/ ando em círculos, minotauro/ vago por todos os labirintos/ e cavernas da Terra”, “Em branco, Murray, 2010, p. 20), Dédalos e Ícaros (“Se me dessem asas/ concretas, vivas, (...) afiaria as mãos/ na estrela mais bela”, “Asas”, Murray, 2010, p.23), e, também, Aracnes e Atenas, desafiando a vida e a morte em seus tapetes bordados:

Esta noite andava
por ruelas apagadas,
adormecidas:
era sonho em meu sonho.
Havia bazares,lojas antigas,
um tapete à venda
e sua trama estranha:
a minha vida”.
(“Ruelas”, Murray, 2010, p.19)

Desse forma o eu-lírico dos poemas de Roseana não falam somente de sua própria descoberta, mas daquela que diz respeito ao ser humano enquanto tal: “Quem sou eu?”. Questionamento primitivo, como os medos humanos, espantados pelo “ofício milenar do fogo/ para espantar os lobos” (“Brumas”, Murray, 2010, p. 8).

Assim, os poemas de Roseana, escritos em primeira pessoa, não falam das buscas e das descobertas de um só sujeito, mas de todo ser humano que se propõe ao desafio de questionar a própria existência. Ao longo do livro, são significativas as ilustrações de Elvira Vigna: em preto e branco, a ilustradora compõe suas imagens, sempre recorrendo a formas semelhantes a impressões digitais. Na última ilustração, referente ao poema “Impressão digital”, a artista transforma a terra em uma enorme impressão digital.

Eu não me lembro do ano em que conheci Fardo de Carinho, publicado em 1980 pela primeira vez, mas, desde então, os poemas de Roseana me acompanham com reflexões sobre a vida, a existência e o fazer poético. Um fazer que expressa um eu que não se atém a questionamentos estritamente pessoais, pois se reconhece no outro, na natureza, nos sons e nos cheiros, em tudo o que o cerca. Um eu que se expressa pelo corpo e pelo coração:

Meu rosto se reconhece
na chuva e no vento,
as mãos se reconhecem
nas pedras, em seu silêncio denso,
os pés se reconhecem no barro,
nas folhas esmagadas e seu cheiro
de terra antiga,
meu coração se reconhece
na cantiga
de outro coração”.
(“Coração”, Murray, 2010, p.28)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MURRAY, Roseana. Carteira de identidade. Belo Horizonte, Editora Lê, 2010.
MURRAY, Roseana. Classificados poéticos. 8 ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1992.
MURRAY, Roseana. Fardo de carinho. Belo Horizonte: Lê, 1987.
MURRAY, Roseana. Jardins. Rio de Janeiro: Manati, 2001.

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